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pobrezaBAUDELAIRE E OS POBRES NO BRASIL


Jomar Ricardo Silva*

O poema de Charles Baudelaire (1821-1867), “Os olhos dos pobres”, do livro Pequenos poemas em prosa, é um flagrante das contradições do progresso na cidade moderna. A cena se passa na esquina de um boulevard parisiense. No final do dia, em que haviam passados juntos e jurados que mente e alma seriam comum a um e a outro, um casal senta-se no café. A novidade da construção ressaltava-se pelos detritos que ainda faziam entulho no canto da calçada, mas já mostrando seus esplendores. No momento em que admiravam as luzes, fumegantes das tochas, a iluminar a brancura das paredes cintiladas com o ouro das molduras de pinturas, enredando “a história e mitologia postas a serviço da glutonaria,” uma  aparição viria  marcar a diferença de pensamento entre ambos.

Na frente dos dois, “na calçada, estava plantado um homem de bem, de uns quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, tendo numa das mãos um menino e sobre o outro braço um pequeno ser, ainda muito frágil para andar. […] Todos em farrapos. Esses três rostos estavam extremamente sérios e seus seis olhos contemplavam fixamente o novo café com igual admiração, mas, naturalmente, com as nuances devidas às idades.”

Cada qual emitiu uma expressão com seus olhos. Os do pai diziam: “Que beleza! Que beleza! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo fora posto nessas paredes”. Os olhos do menino refletiam uma exclamação: “Que beleza! Que beleza! Mas é uma casa onde só podem entrar pessoas que não são como nós!”. Enquanto os olhos do menor externavam apenas uma alegria estúpida e profunda.

Logo, a má consciência burguesa do homem veio à tona em forma de comoção e autocensura. “Não somente eu estava enternecido por esta família de olhos, como me sentia envergonhado por nossos copos e nossas garrafas, maiores que nossa sede”. E, em seguida, lhe veio uma decepção, quando, ao procurar os olhos da mulher para ler a mesma interpretação que tinha feito na família de olhos, ouviu outra posição. Demonstrando ojeriza pelo que via, disse: “Não suporto essa gente com seus olhos arregalados como as portas das cocheiras! Será que você poderia pedir ao maître do café para afastá-los daqui”. A solidez das promessas de amor e de união desvaneceu e transformou-se em sentimento contrário, naquele instante : “Ah! Você quer saber por que eu a odeio hoje?”

Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar, faz uma refinada interpretação do poema contextualizado a partir das reformas do prefeito Georges Eugène Haussmann, empossado por Napoleão III. Eles cuidaram de dotar a cidade de um sistema circulatório urbano, com ruas largas que permitissem a circulação de pedestres em linha reta de um extremo a outro. À medida que dotavam a cidade de condições para o crescimento de lojas comerciais, destruíam as habitações miseráveis. O crítico literário nova-iorquino observa que as transformações físicas e sociais que tiraram os pobres da visão dos habitantes urbanos, trouxeram por contradição, diretamente os pobres à vista de cada um.

No Brasil, a modernidade é povoada por entrechoques – de avanços materiais de um lado, com grandes níveis de pobreza, do outro, – que deixam sem condições de sobrevivência a maioria da população. O século XIX foi marcado, em sua segunda metade, pela abolição da escravatura, eclosão do regime republicano e imigração. Nessas mudanças efetivadas, os pobres sempre foram uma preocupação do Estado e das elites, que os consideravam uma ameaça iminente.

Pobre é sinônimo de perigo. Foi desta forma que Sidney Chalhoub em Cidade febril retoma as representações que a sociedade fazia dele: “Assim é que a noção de que a pobreza de um indivíduo era de fato suficiente para torná-lo um malfeitor em potencial teve enormes conseqüências para a história subsequente de nosso país”. Até hoje determinados grupos sociais se sentem incomodados com os pobres que pedem esmolas nas calçadas, nos semáforos, nas portas dos bancos, nas casas. E na tentativa frustrada de se eliminar a pobreza, fazem como a senhora do poema de Baudelaire, realiza o esforço de tirá-los da vista, fazendo campanha de conscientização para que as pessoas não dêem esmolas. As cidades, assim pensam eles, poderão ficar higienizadas, livres desse espetáculo deprimente. Mas não se enganem, terão sempre “olhos de pobres” a lhes espreitarem, por trás de sua fobia.

*Sociólogo e professor da UEPB.

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