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ICONOCLASTIA & MARCHA DAS VADIAS

 

 Ben Hopper

Fotografia: Ben Hopper

Beano Regenhaux*

Basicamente, a existência humana subsiste na tensão em superar ou mimetizar os ídolos. Sendo que todos os milagres e feitos atribuídos aos ídolos correspondem a uma superação das condições do real dado.  Mas a tensão maior emerge quando sujeitos tentam derrubar um ídolo acionando o argumento da intervenção da mão humana, ou seja, quando o ícone, representando o ídolo, é uma instância construída e mediadora. Essa é uma implicância protestante, patente em Robertson Smith, por exemplo, quando este separa superstição, crendice da verdadeira religião cristã, ao associar a crença na imagem com um estágio mágico e atrasado da “magia dos católicos’’, dos primitivos e pagãos, e a fé em Deus, o acesso transcendental à divindade, a uma condição imediata e interna do indivíduo. A despeito das discussões sobre a diferença entre religião e magia, presente em autores tributários de Robertson Smith, como Durkheim e Frazer[1] a necessidade de se comprovar a eficácia de um rito, de deslegitimá-lo, é um leitmotiv  que se repete ad infinitum e ad nauseam nas mais consagradas tradições etnocêntricas do ocidente.

Uma situação que gerou burburinho e evoca tais questões é a Marcha das Vadiasdo Rio de Janeiro, ocorrida em 27 de Julho deste ano, evento paralelo ao católico, Jornada Mundial da Juventude. Um grupo da marcha provocou alarde ao quebrar imagens sacras e ao utilizar um crucifixo como dildo. Seguindo as formulações de Bruno Latour no livro Reflexão sobre o cultomoderno dos deuses fe(i)tiches ou no ensaio O que é iconoclastia? Ou, há um mundo além das guerras de imagem?, percebo a recorrência desses motes de discussão, em que é concedido o estatuto de crença ao outro, denunciando a confecção de outro mito pelos enunciadores (“os civilizados crêem que os primitivos acreditam em algo”), nascontradições da herança apontadas por Pierre Bourdieu em texto homônimo ( “exemplo de conduta e exigência de superação do pai/ mestre”), cuja figura edipiana é trazida à tona, o conflito armado entre imitar e tomar o lugar do pai, ou nas dicotomias entre real e artificial, fato e feito, imediato e mediado, enunciadas por Latour.

Essas imagens que me vem na cabeça, denotam a opacidade do pensamento mediado e, por excelência, traduzem o conflito fundamental entre manipulação e manutenção constituintes da atividade controladora do ser humano entre tradição e traição. Mas por que tantas dicotomias? Talvez seja por ausência de tradução e transição.  Apostasias e rupturas à parte, quando se pratica um iconoclasmo, o intento é superar um ídolo e, simultaneamente, demonstrar sua relevância no quão importante é a sua derrubada, para ipso facto absorver seu poder mágico, revelar sua força interior como indivíduo e a defasagem da entidade exterior. Afirmar um credo em detrimento de outro. Transferir um mito vivenciado para outro (artístico? científico?). É um ato escatológico, um exorcismo. Sai de mim, este corpo não lhe pertence mais. Na marcha das vadias, a conversão agenciada foi a da destruição do falus, do patriarcado, e a necessidade de superar tal figura totêmica. Requerer uma imagem hermafrodita ou mais feminina. Ou quando um pastor pentecostal chuta uma santa para garantir seu poder e convertê-lo em capital (simbólico e econômico). Nem as divindades estão isentas das viradas históricas, dos cargo cults, dos potlatches, das bricolages, dos sincretismos e dos niilismos. Muito pelo contrário, são fatores de indução. Funcionam como bonecos e como pais/mestres.

Pagar tributo aos ancestrais ou reproduzir uma lógica utilitária e profana na escala do sagrado, que se processa ex opere operato com os santos, também são ilustrações da completa impossibilidade de separação entre os planos já salientados entre transcendência e imanência, sagrado e profano, feito e fato, e por aí vai. São planos diferentes que se entrecruzam o tempo inteiro. Todo iconoclasmo é mágico, litúrgico, tabu e temporal. Uma ofensa e uma oferenda ao mesmo tempo. E antes que me atribuam um elogio da dimensão institucional religiosa ortodoxa, ou uma defesa da ineficácia do ritual do iconoclasmo, por este sempre incorrer e resvalar para a legitimação das entidades, afirmo que tal ritual é tão ou mais necessário que qualquer estrutura religiosa consolidada. Freud e a pós-modernidade já cansaram de ostentar o quanto o eu é descontínuo, ou que os bonifrates precisam dos ventríloquos e vice-versa. São recursos expressivos que se tomam e se revelam.

*Mestrando em Antropologia pela UFPB.

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