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A ARTE DE PERDER NÃO É NENHUM MISTÉRIO… OU NOTAS SOBRE “FLORES RARAS”

filmes_3052_Flores-Raras-8Romero Venâncio*

Nunca fui muito fã das produções do “clã Barreto”. O tipo e a forma de abordagem cinematográfica dos “Barretos” não me interessa em quase nada. Digo isto para indicar certo distanciamento ou até desconhecimento mais detalhado da obra de Bruno Barreto. Vi o mais recente trabalho do Bruno Barreto “Flores raras” e sem medo de errar, o colocaria na categoria de filme bom no universo atual do cinema brasileiro.

O filme é uma espécie de “crônica de uma morte anunciada”, pois trata da relação amorosa feliz-tormentosa de Lota Macedo (arquiteta autodidata) e Elizabeth Bishop (poeta americana) no Brasil e numa pequena cena nos EUA onde a brasileira foi praticamente para morrer (se matando, na verdade) em 1967. Percebe-se sem muito esforço que, graças à competência das atrizes (Miranda Otto e Glória Pires), o cineasta conduz bem o drama amoroso em marcantes momentos líricos. A Lota vivida por Glória Pires é uma mulher forte e meio “sargentona” na condução da vida dela e das outras pessoas (o que não deixa de ser uma ironia com a fragilidade dela na solidão), já a Elizabeth Bishop é uma figura frágil, temperamental e com potencial suicida clara desde as primeiras cenas. Há ainda um personagem que merece destaque pela relevância na história brasileira dos anos 60, trata-se do jornalista e politico Carlos Lacerda (Marcelo Airoldi). Aqui, o diretor “peca” grande na reconstituição histórica.  Apresenta um Lacerda erudito e poliglota, mas em nada aparece o que realmente foi a figura na vida politica: ardiloso, conservador moralista e apoiador de primeira hora da ditadura de 1964 (sendo um dos que clamaram pelo golpe contra o fantasma do comunismo). Sabemos que pagou caro por isso. A própria ditadura o isolou e caçou seus direitos políticos (isto aparece de maneira sutil no filme em uma única cena). No mais, fica claro uma direção segura e sem julgamentos morais inúteis num filme como esse. A história do amor de Lota e Bishop tinha todos os caracteres de um filme desde sempre. Uma relação homossexual numa época de forte preconceito com tal relação; Um amor entre uma brasileira e uma americana (esta, poeta de destaque e premiada) e duas personalidades muito conflitantes e diferentes em quase tudo.

O filme merece dois destaques da minha parte. O primeiro liga-se a esse atual momento da história politica brasileira, de Comissão da Verdade e de luta contra a homofobia; um momento em que temos uma figura bizarra numa comissão de direitos humanos da camarada dos deputados que mais promove retirada de direitos de homossexuais do que ser fiel ao nome da comissão, já um feito que chama a atenção. A película trata com uma “naturalidade’ necessária a relação de amor de Lota/Bishop a ponto de vermos ali uma espécie de “conflito universal” de quem ama, independente de ser hetero ou homossexual a relação. As contradições amorosas não escapam a ninguém… Paixão, fragilidade, bebedeiras, raivas destruidoras ou gestos de carinho de nos fazer ir as lágrimas. Nesse sentido, trata-se de um filme “educativo” e antenado com o que tem de mais avançado no mundo contemporâneo em termos de relações afetivas.Uma outra coisa que me chamou a atenção foi a cena em que Lota (no inicio do relacionamento e tomada por encanto) dinamita surpreendentemente uma pedreira para projetar/fazer uma casa para Bishop manter sua inspiração de poeta e continuar sua produção poética. São lindos os olhos das atrizes. Uma, Bishop, feliz pela dedicação e sensibilidade da rude Lota… A outra, Lota mais feliz ainda pela felicidade da poeta (Bishop). Isso demostra uma situação comum quando se ama e que na maioria das vezes passa despercebida: há uma rara felicidade de quem ama em ver a outra pessoa no seu encanto de felicidade, é como “o seu desejo é o meu desejo”. Ver o outro feliz, me faz feliz…Tudo isso acontece no filme sem pieguismos tolos bem comum na dramaturgia brasileira televisiva. Vale o filme essa cena. Em muito me lembrou uma frase da escritora Hilda Hilst: “Como se um rio grosso encharcasse os juncos e eles mergulhassem no espírito das águas, como se tudo, luta repouso de mim se entranhasse, como se a pedra fosse minha própria alma viva.

*Professor de filosofia da UFS.

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