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  RUA 19

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Tiago do Rosário Silva*

Este momento de recordação do vazio que o preencheu durante tantos anos o fizera sofrer. Parou, estar dentro de si era incômodo, parecia um remédio que não pode curar, preferiu sair. Foi quando decidiu fazer as malas. Nela colocou tudo, dos trapos aos objetos valiosos, a confusão estava feita. Quais objetos eram valiosos? Tantos anos se passaram que os valores cambiaram quase que por completo. Sorrateiramente foi reorganizando as coisas na mala. A as pessoas no cômodo ao lado talvez percebessem sua intenção.

Cada objeto. Uma lembrança. Pequenos. Grandes. Momentos diversos revividos em memória. A saudade que sentia, o impulsionava nessa nova busca. Mas não percebia que estava a buscar algo, como se fugisse, e levava tudo consigo. Parece difícil sair de si. Ele não via que estava condenado a sua própria companhia. Se nada levasse na mala, ainda assim levaria a si mesmo, consigo…

Foi assim que decidiu nada levar, seria mais rápido se fosse a sua própria bagagem. Todos aqueles livros que o fizeram por dias inteiros não estar em casa, não podiam ser levados em matéria, mas não podiam ser deixados sem memória. Não havia como apagar.

Continuou. Planejava ficar pro jantar, seria bom mais uma vez poder olhar na cara de todos. Seus rostos não eram opacos em sua lembrança. Porém, mais uma vez a olhá-los, poderia refazer todos os contornos, e guardar de modo a não mais esquecer. O que faria depois com tudo isso não sabia. Sabia apenas que podia levá-los, era como se não quisesse deixá-los. Como se também quisesse a eles deixar a última lembrança de si. Seria doce, mas decidido. Não se deixaria abrandar por um olhar de través de sua tia. Ela que há meio século espera para viver. Não seria também a sua sina. Não deixaria seu destino ser o futuro. Traria o futuro para seu destino. E ali mesmo iniciaria uma nova fase. Nova até certo ponto; lembrara que tinha muitos trapos, e que se algo começasse a construir não jogaria fora os retalhos. Eles ainda serviriam cada um ao seu modo.

Ouviu seu nome… –já vou! Não foi. Percebeu que era a hora. A mala por fazer, resolveu ir com o que estava pronto. Não sairia se o vissem. Não estava preso ali, sua casa não era prisão de si mesmo. Mas se a olhasse, se a visse, estaria prezo a seu olhar fixante. Ela saberia. Não diria nada, mas o prenderia. Seria como se ele se tivesse entregado.

Mirou da janela, ninguém passava na rua àquela hora, ninguém que pudesse gritar; viu que naquele momento passava somente o barbeiro aposentado, que trabalhara décadas ali perto na esquina. Já não via nada. Num assalto ao seu minúsculo cubículo foi cegado pela própria navalha. Não tiveram pena. Caído no chão, sangrou o suficiente para não poder ver o púrpura do seu próprio sangue. Dalí em diante, apenas a mísera aposentadoria o mantinha.

Foi assim, desceu a janela, silenciosa e velozmente. Passou pelo cachorro, andou alguns metros. Falou com o barbeiro como se estivesse surpreso em vê-lo. Disse que o admirava. Pediu um abraço. Seguiu pela Rua 19. Não se ouviu falar mais dele.

Tiago do Rosário Silva é professor de Filosofia do IFAL.

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