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VIDA MUSICAL E FESTIVAIS DE MÚSICA: NOTAS CRÍTICAS REGADAS A UMA ENTREGA CÍNICA

Estamos lidando mais uma vez com aqueles terríveis

diagnósticos gerais que encantam os estetas mas

são fúteis para os espíritos práticos?

Peter Sloterdijk

Pedro Chaters - Gente II

Pedro Chaters – Chente II

Ana Monique Moura*

 

O que seria vida musical? A definição sobre o que pode ser a vivência efetiva da música se mostra bastante delicada, desde as obras de Platão. Em verdade, ela guarda algo de perigoso, no melhor e no pior sentido disso, como já havia pensado o filósofo grego, ou, como queiram os cristãos, ela guarda algo de demoníaco. Não é por acaso que Platão tentou execrar a música sensual da sua pensada República, nem que a Igreja tenha proibido instrumentos durante boa parte da Idade Média, que a nossa ditadura tenha proibido músicas de Serge Gainsbourg, ou mesmo que agora, no ato desesperado do que Weber chamava por neoevangelismo, as igrejas revelem sua luta desesperada contra música ao transformar suas antigas melodias tidas como sacras em melodias, assim dizem, do mundo, como um ato de, assim dizem, “descer ao inferno para atrair fiéis”.

A música é perigosa porque ela, como nenhuma outra arte, é capaz de penetrar e compor, me permitam as metáforas, o pulso e a epiderme existenciais. A música precisa de técnica, mas pode existir também sem ela em muitos casos. Para estarmos certos de que vemos uma pintura não o fazemos enquanto tomamos banho simultaneamente, isso pode até ocorrer, mas em ocasiões raríssimas. Para observar uma escultura, ocorre o mesmo, e assim por diante. Mas, com a música, nós dormimos, tomamos banho, dentre outras coisas, com uma flexibilidade e possibilidade maiores, mais efetivas. Contudo, para Theodor Adorno, em “Introdução à sociologia da música”, isso se mostra um grande problema. Significa que aqui a música ocupa um mero lugar de pano de fundo e sua grande capacidade ontológica é anulada, afogada pelo cotidiano. Sim, talvez ele tenha razão, mas por outro lado isso pode comprovar a potencialidade da propagação da música que outras artes não conseguem ter. A música não necessita do “estar consciente de”. E onde reside sua grande potência estética, nasce seu grande perigo. Quero falar deste perigo dentro dos festivais de música que insuflam em nós um conceito de vida musical.

A natureza dos festivais de música

O show vem trazer o músico como a celebridade. Trata-se da troca da obra pelo autor, o mesmo que acontece com o cinema de Hollywood e suas celebridades, um mal já muito bem refletido por Walter Benjamim. No caso da vida musical contemporânea, o palco deixa de ser uma estratégia para que todo o público possa ver a apresentação musical como uma simbologia de culto? Eu diria que não. Ainda, a fonte que produz a música é considerada quase imaterial e todo o público estende suas mãos ao grupo para que possam sentir o tato de algum dos seus integrantes e com isso saírem dali renovados como que por alguma experiência semelhante à mística.

Os festivais de música vem trazer essa característica à tona. Aliado a isso está o comercialismo. A música agregada ao mercado é a fonte de tais festivais, não importa se pagos ou gratuitos, a demanda é hiper mercadológica, claramente.

Dentro deste fato, que em verdade é um elemento estruturador, tais festivais vem enrijecer ainda mais a fundação de comportamentos tipificados de acordo com determinadas expressividades musicais. Unido a isto vem a apelação para que tais “formações” de comportamento se elevem a uma categoria ideológica para o mercado musical. Por fim, por mais que a música atual tente propor a musicalidade como um conjunto de experiências diferentes de som em uma unidade audível, em verdade, no terreno social, o que ocorre é uma segregação cultural velada.

Um exemplo. Se um órgão de prefeitura, ou algo que receba as verbas do Fundo Nacional de Incentivo à Cultura, organiza um festival de música experimental ele o faz mediante um recurso determinado de lugar para um determinado público preparado e, ao mesmo tempo, sendo constantemente preparado do ponto de vista ideológico. E, no entanto, tal manifestação se lança como plenamente pública e não privada. Há uma frase de Adorno que pode bem ilustrar o que tento explicar aqui: “A vida musical é uma mera aparência da vida. Por meio de sua integração social, a música foi corroída por dentro. A seriedade, desdenhada pela música de entretenimento, foi deixada inteiramente de lado pela integração.”  Forma-se com a soma de variados festivais de música, um mosaico de rebanhos cuja vida musical é integrada a uma expressividade típica a cada um.

Música, cibercultura e sociedade do espetáculo

Com o surgimento da “economia criativa”, a qual, aqui, prefiro chamar de “economia virtual” isso se mostra até mais forte. Micro festivais de música se espalham pelas cidades pequenas ou grandes e convocam na realização da música não mais o modelo antigo das relações econômicas que um apreciador de música tinha com o que escutava, já que agora a moeda é mais do que nunca tanto mais abstrata. O ouvinte não “compra” mais a obra, mas paga pelo show. Com mais firmeza, o espetáculo permanece quisto, no sentido já pensado pelo clássico de Guy Debord.

Isto significa que o aspecto material da obra, o CD, é pouco consumido e aqui vencem ainda mais fetichismos atuais, por exemplo, com discos, dentro de um sentido de riqueza material sob outra roupagem. A música, e isso foi muito bem pensado por Hegel em seus Cursos de Estética, não se dispõe materialmente como a pintura e a escultura, dispõe tão só dos corpos ou instrumentos que podem revelar o seu tempo musical. Contudo, consumir música ainda assim se revela como um consumo material, que se liga à aquisição de algo intangível. A cibercultura disponibiliza as obras, no geral para downloads gratuitos, e o que invoca a apreciação do público é o imaginário que ali se insufla em relação à possibilidade de uma apreciação musical ao vivo, enquanto o acervo das obras se revela metafísico.  A “Ideia da coisa” aqui é então plena realidade, no sentido hegeliano do termo e, nos shows, o orgânico se revela também algo imaterial, contudo, fetichizado, mistificado. A este cenário problemático da musicalidade eu tomaria como uma proposta de saída a exigência de um ouvido neometafísicofeita por Peter Sloterdijk em “Mobilização Copernicana e Desarmamento Ptolomaico”, na qual o filósofo perpassa por uma espécie de filosofia musicológica do que entendemos por cultura pós-moderna. É preciso que elaboremos um novo modo de escutar os fragmentos sonoros e por demais significativos dentro do que esta coisa chamada vida musical tem a nos dizer. Mas não me demorarei nessas elucubrações, não nesse texto.

Ademais, a economia virtual proporciona o significado do show como muito mais interessante do que pagar por um CD, já que a música aí reproduzida pode ser apreciada através da cibercultura em seu acervo incomensurável de trabalhos musicais à disposição.

Há quem diga que a saída dos músicos da subordinação às gravadoras para uma espécie de liberdade no campo virtual tornou a distância entre palco e público praticamente inexistente. Essa ideia é rejeitável. Nem se tornaram menos escravos por saírem da subordinação às gravadoras – um exemplo corrente no Brasil para isso tem sido o que algumas bandas realizam com o ambíguo grupo Fora do Eixo – nem ocorre distância entre público e palco. O fluxo de shows aumenta exponencialmente com o fluxo de circulação do material musical na internet e, com isso, os shows ainda que se tornem mais corriqueiros, movimentam um processo de fetichismo em relação ao artista na medida em que ainda ele permanece como uma figura pouco orgânica, já que subsiste tanto mais em um trabalho virtual que material.

Os festivais, portanto, ao passo em que exibem o “ao vivo” não conseguem, contudo, ser orgânicos, ou ainda, estar de fato presentes, fomentam, pelo contrário, a relação com o conceito fetichizado do que seja músico, e, o que é pior, atiram ao fogo o que poderia significar uma experiência estética com a música.

Vida musical e apreciação estética

Festival é arena de entretenimento. É música à sua frente, porém música de fundo para o que você pode vivenciar ali, em frente ao palco. Desde a cerveja que patrocina o festival e que você paga por ela porque lhe falta outras opções até ao simples, gratuito e não limpo banheiro químico que você precisa utilizar para compensar sua fisiologia na festa.

No nordeste, acabamos de ter o Festival de Jazz em Pipa e a proposta percorre o que até aqui vem sendo dito. O deslumbre rasteiro do público segue em especial ao fetichismo que se criou em relação ao Jazz. Muitos vão, inclusive os que não entendem o que significa jazz. Ali não se escuta música, se contempla o fetichismo criado. Ouviram dizer que Stanley Jordan tocaria na noite de sábado… aqui vem a alienação com o “internacional” também. Uma manifestação de comportamento totalmente manipulada e manipulável, multiplicada dentro do fetiche do brasileiro com a american culture.

A apreciação estética aqui é cega ou inexistente, está antes ligada aomerchandising feita do músico do que de fato com a apreciação de seu trabalho. Não faço a crítica fatalista de Adorno, e acredito que há boas chaves numa experiência em festivais desse porte, contudo, fica muito claro que a algazarra do entretenimento vem sufocando o conceito ou a urgência de uma experiência propriamente musical, de escuta mesmo.

Comentaram que o Festival MIMO de Olinda trouxe como um de seus slogans para o show de Nouvelle Vague o seguinte: “A banda que vem arrastando descolados no mundo inteiro”. Em verdade, os chamados “descolados” é uma criação conceitual do próprio festivail. Os “descolados” não existem antes do festival. Esses descolados são postos como reais e condicionadores, mas em verdade são mentirosos e condicionados pela cultura do hipermercado musical que é sustentáculo final do festival. A partir da mentira lançada o real se realiza aqui. Os descolados, em verdade, são um rebanho ignorante, séquitos de tendências, e que presenciam o espetáculo porque foram atraídos por uma propaganda também ignorante e formadora de tendências. E isso vale para qualquer outra nomenclatura ou proposta publicitária de arrecadação de rebanhos em qualquer outra iniciativa de evento musical. O que seria isso? Seria uma experiência estética? Talvez não. Ela vem sendo afundada por um projeto de vida musical que adentra nos espaços e pós-espaços não mais mercadológicos, mas também existenciais. Aqui o existencial se liga ao hiper mercadológico, e um diagnóstico para isso se chama apenas crise.

O filósofo Christoph Türcke propõe em “Sociedade Excitada” que pensemos umtrivium de pilares de vício ou, melhor dizendo, das válvulas de escape, como os seguintes: cinema, religião e álcool. Mas talvez ele tenha sido injusto em não considerar um pilar outro gigantesco que é a música. Ademais, o vício é repetição e a repetição aliena. O lugar da vida musical está aí, nessa repetição, nesses refrãos sonoros, comportamento, de manipulação. Porém, e lanço o cinismo que aprendi a dizer a partir dos festivais: Que venham mais festivais e mais rebanhos. O perigo da música é apreciável e pode ser transgressor também, se apreciado com um ouvido musical. O “evento” não é mais “eventual”, e sim padrão, ordem, necessidade. Ao cabo, o que importa à ovelha constituir-se em rebanho se ela não aceita seguir sozinha? Celebremos! Por outro lado, deixo-vos com uma frase de Adorno capaz de suscitar melhor o que venho refletindo até agora: “A música realiza-se na vida musical, mas a vida musical contradiz a música”.

*Doutoranda em Filosofia pela UFPE-UFPB-UFRN.

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