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SER TARKOVSKIANO…

 

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Beano Regenhaux*

 

Ontem li um texto muito bom sobre o cinema tarkovskiano: Aproximações estéticas ao cinema de Andrei Tarkovski (Cultura Vozes – N°1, janeiro-fevereiro, 1995), de Fernando Rey PUENTE. Neste texto, o autor oferece três linhas interpretativas para os recursos estéticos de Tarkovski, as linhas iluminista, romântica e taoísta. O que prendeu minha atenção, no que tange à reflexão sobre tais recursos, particularmente, foram os trechos teóricos dedicados à ruína, pela própria força expressiva atinente às imagens da degeneração e que constituem um leitmotiv em Tarkovski (vide Nostalghia e Stalker) – associada pela interpretação romântica à melancolia – em que o autor cita Georg Simmel – ”A Ruína” (1911) e M. Zambrano –”As Ruínas” (1985).

O que eu quero mesmo é o espraiamento, o contato com essa literatura e não o cerceamento do sentido da obra tarkovskiana. PUENTE apenas identifica algumas influências no obra de Tarkovski e não a encerra numa decodificação. Cita inclusive alguns textos do próprio Tarkovski, conforme o excerto: ”(…) o símbolo, diz Tarkovski, citando a Ivanov, ”é apenas e tão somente um verdadeiro símbolo quando o seu significado é inesgotável e ilimitado, quando ele expressa em sua linguagem secreta (hierática e mágica) alusões e sugestões a algo indizível, a algo não apreensível pelas palavras. Ele possui muitas faces e significados, mas permanece, no seu mais recôndito cerne, sempre obscuro”. Com isso evidencia-se que o que Tarkovski não aprovava era um determinado conceito de símbolo, uma certa univocidade hermenêutica que roubasse a caleidoscópica riqueza visual de suas imagens cinematográficas (…)” (p. 43)

 Quando se fala em linhas interpretativas não se trata da tradução plena do conteúdo da obra, mas sim identificar as ”alusões e sugestões”, a partir de um suporte crítico, (identificar imagens e associá-las a uma tradição interpretativa e não a uma tradução per se). Tais tradições/linhas são acréscimos à obra, são visões de expectadores. Se a razão estética ou artística pertencesse ao autor ou à obra, não haveria de existir teoria da arte, crítica ou nem mesmo a simples contemplação. Tudo isso não passa de mais desdobramentos, projeções, prolongamentos que a obra permite. Nem tradução plena, nem fixação em um sentido. Apenas elucubrações possíveis, associações prováveis e deleite…

 

* Mestrando Programa de Pós-graduação em Antropologia.

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