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NOTAS SOBRE O FILME HANNAH ARENDT DE VON TROTTA

     “Parece que certas pessoas estão, em sua própria vida,

de tal forma expostas que se  tornam, por assim dizer,

encruzilhadas e objetivações concretas da vida”.

Hannah Arendt

hannah-arendt (1)

Romero Venâncio*

Margarethe Von Trotta é a cineasta das mulheres forte e de gênio… Basta ver “As irmãs alemãs” ou “Rosa Luxemburgo”, mas nesse “Hannah Arendt”, ela se supera. Talvez o melhor filme dela, talvez… Do ponto de vista da técnica cinematográfica, Von Trotta conduz com sobriedade fora do comum os avanços e recuos da narrativa. Sua imagem, na maioria das vezes, é marcada por uma luz levemente dourada, límpida como o pensamento filosófico de Hannah Arendt. O uso de imagens documentais ficou impactante e verdadeira, onde nos ver que aquelas imagens reais do julgamento do nazista Eichmann mantém uma história viva e difícil. A diretora fez um recorte na vida da filósofa que mais poderia apontar para um filme: 1961, o julgamento “espetacular” de Adolf Eichmann em Jerusalém e to das as polêmicas envolvidas nesse fato. Uma marca fundamental no filme desde o seu inicio é a vida cotidiana de Hannah Arendt, sem essas bobagens de celebridade no País que adora cultuar essas coisas. A professora séria de filosofia que lemos em teoria política e onde pensamos ser a pessoa mais polida do mundo, se abre (como todos ser humano) no seu dia a dia e aparece como alguém normal e criteriosamente estudiosa e disciplinada. Só. Brinca, bebe, reúne amigos e amigas, chora, sente medo, ama e pensa no amor do passado (o nazista Heidegger) e demonstra aquele humor judaico que mais lembra a boa tradição do outro judeu Karl Marx.

Obviamente, uma das mais importantes diretoras do cinema político atual não iria se limitar a brincar de “confinamento em casa”, mas parte desse cotidiano aparentemente banal e humanizador para situar a problemática central da película: as consequências da leitura original de Hannah Arendt do julgamento de Eichmann em Jerusalém. O filme vai como quê nos preparando para o desfecho de toda a polêmica que irá se desenrolar no filme como um todo. A professora aquela altura de 1961 já era uma pensadora de respeito e com posições originais na teoria política contemporânea de então. Isso pesava nas decisões e escritos da filósofa alemã. O filme nos mostra de maneira incomum o laboratório da elaboração do livro: “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do Mal” (editora Companhia das Letras). A viagem a Jerusalém, as cenas do julgamento de Eichmann combinadas com as anotações perplexas de Arendt e os primeiros questionamentos sobre a forma de condução do tribunal. Em nenhum momento a filósofa defende Eichman ou o nazismo e suas bestialidades (como acreditara, vários críticos de Hannah Arendt), mas fica mais claro uma coisa: aquele julgamento era único e significativo na história da teoria política da humanidade. Estava ali, um desafio ao pensamento… Pensar o impensado!

Alguém que renuncia ao “pensar singular”, aquilo que faz o humano, humano e assumia a desumanidade como forma de entender um povo e de descarta-lo como objeto sem valor no mundo. Isto era absolutamente novo na história de toda a humanidade, para Hannah Arendt e um lugar para se pensar daqui para frente  a teoria política Ocidental (e mundial). A responsabilidade concreta da filosofia era convocada e questionada ao mesmo tempo. Heidegger seria símbolo marcante dessa afirmação. Como pode um pensador brilhante se tornar um tolo em política? E pior, num momento em que não se podia ser tolo ou ingênuo (contexto do Nazi-fascismo). Ainda hoje, isto é uma marca em “filosofia política” academicista. O filme trabalha de maneira equilibrada e sincera todo o “calvário” de Arendt ao publicar o livro e as consequências violentas que se abateu sobre ela e sobre sua carreira acadêmica. Mas também mostra a firmeza de um pensamento sóbrio e radical em suas convicções mais elementares.

Por fim, uma senhora aula de filosofia (dentro do filme temos vários momentos de sala de aula de Arendt) para além dos muros acadêmicos ou para além dos pseudodebates políticos mediatos ou nem tanto. Mostra uma pensadora que faz do estudo uma coisa séria e em diálogo permanente com o mundo (não é a toa que a mais importante biografia sobre Hannah Arendt, tem como subtítulo “por amor ao mundo”) e num reconhecimento das fragilidades argumentativas em política e, com isto, precisando sempre muita atenção aos acontecimentos e seus rumos que não podem ser previstos a Priori. Aprendemos com Von Trotta/Arendt que “Política não é uma reta euclidiana”, logo, é lugar de uma necessária “dialética de argumentos” e de práxis constante.

* Professor de Filosofia da UFS.

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