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PARA PENSAR A OBRA DE GEORGE BRASSAÏ

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Ana Monique Moura *

Frente à obra de George Brassaï não se pode ter dúvida de que se trata de imagens cuja facticidade é inegável. E o que torna tão mais aguçado o seu trabalho é que, mesmo por se tratar de imagens factíveis, elas não são imagens meramente documentais, mas imagens poéticas. A documentação aqui é banida para se assumir uma poética do fato. Existe dentro desta poética, algumas vezes, uma performance, mas o ideal de performance está sempre submetido à naturalidade daquilo que é, permitam a redundância, o natural, e não pode ser posto, portanto, como artificial, embora seja, por fim, arte. Brassaï se utiliza da imagem sentida, afetada, ao invés de isoladamente documentada.

Quero falar sobre um tema que talvez seja oportuno para entender a obra de Brassai. Poderia esboçar isso ao me referir à ideia de civilização organizada a partir do significado de intimidade. Basicamente, o que é intimidade senão aquilo que não deve ser exposto? Assim, como coisas que não precisamos mais são protegidas por uma sacola de lixo, algumas de nossas coisas deveriam, por fim, estar cobertas, como o nosso corpo por debaixo das roupas, nossas madeixas por debaixo de penteados, boinas e chapéus, nossos desejos guardados nos sonhos noturnos. Portanto, a ideia de que “minha intimidade deve ser preservada” não é outra coisa que a ideia de que “devo ter o direito de tornar vergonhoso o que é mais natural ou humano em mim”.

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Há um devidamente invocável ensaio do filósofo espanhol Ortega Y Gasset, intitulado “A desumanização da arte”, em que ele defende que a arte deve ser, ela mesma, desumana. Para ele, contudo, o desumano é apreendido na medida em que se elimina alguns resíduos do real para se se conceba a arte. Mas Brassaï foge um pouco dessa ideia. Ele penetra naquilo que é real e ali retira os resíduos de encobrimento do real ou de encobrimento do humano nas cavernas da intimidade.

No mais, suas fotografias poderiam ter três tipos de expressividade, não necessariamente na ordem aqui posta; A primeira seria a expressão de corpo e civilização, a segunda a expressão de noite urbana e a terceira seria a paradoxalsolidão social. Na primeira, os corpos estão sempre desgarrados da roupa, as pessoas parecem estafadas de um dia de trabalho e sempre em um momento de estar a esconder-se do lado de fora, ou daquilo que se toma como a “civilização humana”. Na segunda, com frequência, as ruas urbanizadas que permanecem lotadas durante o dia surgem solitárias, sem pessoas ou com pouquíssimas pessoas. Embora sejam as fotografias com menos elementos, são talvez as mais compostas. Isso porque elas expressam exatamente o que já venho discutindo até aqui sobre o significado de intimidade. Portanto, as ruas vazias exibem que agora as pessoas estão protegidas ou escondidas em suas casas. A noite urbana é a expressão desse ideal de civilização humana efetivado, mas se mostra como obscuro e inteiramente estranho ao homem, ainda que faça parte de sua vida diariamente. As ruas parecem, por outro lado, agradecidas, por uma solidão, uma vez que foram criadas para abrigar tão somente o publicável das atitudes, ações, escolhas. As ruas estão em paz, mas ao mesmo tempo, são estranhas. Brassaï exibe que na rua sob a noite, os acordados são vigias e postes, em outras palavras, protetores da intimidade e concretos de luz para espantar o obscuro que possa alçar, ainda mais, o medo do desumano. Por fim, a terceira seria a expressão do “esconderijo de si”.  Na terceira expressão, Brassaï retrata o indivíduo na rua, em sua solidão, ao momento de desconcentração e do estar perdido entre si e o outro, desconcentrado no outro e imerso em seus devaneios. Vale dizer que isso é o próprio ato de esconder-se, dentro de uma intimidade tão mais forte. A própria perdição do indivíduo se revela como uma odisseia para si em busca de um esconderijo para se proteger do outro. Por fim, toda a obra de Brassaï revela o indivíduo e a rua como uma coisa que está escondida, ainda que “seja ou esteja” pública.

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E isso é exibido segundo o sentido da naturalidade humana, dentro do aspecto desumano, se encarado frente ao ideal de civilização. Não é documental, insisto, porque não retrata, simplesmente. E também não quer denunciar. Brassaï torna seu trabalho digno de fincar uma estética própria, na medida em que nos revela tais imagens como momentos poéticos, ou seja, merecedores de apreciação mais forte que mero olhar ou entretenimento. É nesse sentido que falo, portanto, em imagens que afetam e fazem sentir. Se Brassaï trouxesse intimidade a partir de uma abordagem documental, reafirmaria, de maneira linear, o sentido de intimidade.

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Se as ruas estão invadidas e as roupas cobrem por demais os corpos, a fotografia de Brassaï exibe as ruas vazias e os corpos desprovidos ou cansados das roupas… a rua festeja sua solidão e os corpos pulam das amarras das roupas… Brassaï, ao inverter os fatos com os quais convivemos, traz a proposta de que nossos fatos são, muitas vezes, fatos encobridores de fatos mais reais e vivenciados. Aqui há vida em uma rua solitária na noite e um casal que está em um café não necessariamente está apaixonado. Nas suas fotografias, o homem veste o vestido que invejou na mulher mais bela… O rapaz beija o homem de boina, as mulheres, cansadas, se acariciam… Os homens e mulheres se desejam e ao mesmo tempo se esquecem do uns dos outros.

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É o escondido do cotidiano que se mostra e que se coloca como o autêntico. É aquilo que se revela como desumano para uma civilização organizada supostamente organizada e, por outro lado, para a arte, se revela como o mais humano. Acrescento que o desumano que revela o humano não estaria apenas ligado a um feixe de fantasias, mas estaria ligado àquilo que pulsa realidade, contudo ela é, ainda assim, uma espécie de outra realidade frente a uma realidade imperativa.  Na obra de Brassaï, na medida em que o desumano é encarado como de fato é, a saber, o natural do próprio homem, ou seja, aquilo cujo caráter de ser negável fora inventado pela moral burlesca, aqui se revela o abrir-se à admiração daquilo que é desumano enquanto o humano posto em esconderijo. Por fim, seu trabalho afirma aquilo que, por estar ou tentar ser escondido, mostra-se.

* Doutoranda do Programa Integrado de Filosofia (UFPE-UFPB-UFRN)

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