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EXPERIMENTAÇÃO E CORPO EM JEAN ROUCH

 Beano Regenhaux*

piramide-humana

Apresentei e organizei a discussão sobre o filme A Pirâmide Humana de Jean Rouch, no dia 16 de outubro, deste ano, realizada na Usina Cultural Energisa, tendo em vista o tema das relações raciais, exibido no documentário, sob a experiência da improvisação. No filme, um grupo de estudantes – negros e brancos – de um liceu na Costa do Marfim, reunido pelo diretor, é conduzido a traçar um “laboratório’’ interpessoal, a ensaiar seus próprios personagens, a partir do que vivem na vida real –  o estatuto sobre a ontologia do real é sempre questionado pelo próprio Rouch, no documentário- ; são “intimados” sob a responsabilidade do diretor, a formular uma ficção das suas próprias relações, um ensaio de incertezas e de exposição de preconceitos do contexto colonial (francês). A partir da exposição de tal assunto, revelam-se os estigmas incorporados e o que uma experimentação aberta pode desencadear no mundo, a despeito de uma experiência “acabada”, mais do mesmo. O que saliento aqui é a modalidade experiencial, enquanto processo, e não como controle protocolar do ser no mundo. Rouch manipulava isso como ninguém.

A corporalidade presente na atividade de documentação fílmica de Jean Rouch começa pelo uso do próprio corpo do diretor como suporte para a câmera, impulsionado para o interior da ação, compondo a mise en scène, ajustando a posição do dispositivo óptico – o suporte instrumental e o próprio olhar do autor, na observação direta e na diferida -, selecionando enquadramentos, ângulos e situações. O lançamento do corpo no interior da ação filmada corresponde, no plano fílmico de Rouch, ao compartilhamento de experiências com os nativos, consultando-os sobre como filmá-los e da coexistência na alteridade, onde o diretor é visto e questionado. O complexo formado pelo corpo de Rouch e a câmera, é incorporado no ritual, incumbido de ação mágica, e incorrendo no ciné-transe. O cine-olho supõe a criação de uma realidade, porém esta é negociada com os nativos e infere-se a coparticipação destes últimos na produção do real. Pela lente e a mise en scène de Jean Rouch, a atividade criadora é partilhada e a autoria é recuperada pelos sujeitos filmados. O “outro etnologizado” adquirindo oestatuto de tema e não mais uma curiosidade arqueológica, como assinala PIAULT (2007, p. 206). O estilo do diretor fica evidenciado com a própria partilha dos meios e das ideias com os nativos, pois, a etnografia rouchiana prenunciou a polifonia na antropologia pós-moderna. A dimensão ensaística, experimental, pertinente à forma da exploração do diretor, rompe com o distanciamento da ação e a possibilidade de aplicação do zoom da ação filmada, reinventando a existência corpórea dos filmados e do diretor, não mais apenas como simples construtos de contextos coloniais e culturais, mas na própria especificidade do encontro etnográfico: a alteridade e autoralidade ficam sublinhadas.

Referência discutida:

PIAULT, Marc Henri. Um Cinema Espelho? Por uma Antropologia Partilhada. In:  2ª Reunião Brasileira de Antropologia. Conferências e Práticas Antropológicas.Blumenau: Nova Letra, p: 205-210, 2007.

* Mestrando em Antropologia pela UFPB.

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