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CINEMA e POESIA: NOTAS SOBRE UM FILME COREANO

poesia

 Romero Venâncio*

Li um artigo em que o autor fazia uma referência ao cinema asiático, em particular, o cinema coreano como uma marco no cinema contemporâneo e que estava ataulizando criativamente o que foi a “Nouvelle Vague francesa” e o “Neo-realismo italiano”. Os Godard, Rosselini, Antonione, Visconti estariam vivos nesse cinema feito na Ásia, nos nos dias atuais, desde pelo menos a década de 90 do século passado. Pode-se afirmar que o cinema coreano contemporâneo, dentro do cinema asiático em geral, tem se notabilizado por alguns temas recorrentes: lágrimas, gritos, riso, violência, serenidade. Essa variação temática é uma forma de dizer que eles não desenvolveram preferencialmente um gênero, como os chineses com os filmes de arte marcial, mas incorporaram todos os gêneros.

Dentre os “diretores autorais” do cinema coreano, um merece destaque: Lee Chang-Dong. Nascido em 1954, representa a “nova onda” do cinema coreano a percorrer os festivais. É marcante no seu cinema os personagens encarnarem “tipos ordinários” (bem comuns), incapazes de uma grande ação, exceto em alguns casos tirarem a própria vida. Chang-Dong dirigiu os seguintes filmes: Green Fish(1996), Pepper mint candy (2000), Oasis (2002), Secret sunshine. Percebe-se nos filmes do diretor Sul-coreano como os personagens sofrem crises existenciais (há marca de Bergman aqui) que poderiam acometer qualquer ser humano em qualquer lugar, os lugares são numa Corea do Sul pós-industrial com suas casas equipadas, carros de luxo, estradas bem asfaltadas, pequenos bolsões de pobreza e muita informatização. Provavelmente, destes filmes citados, Poesia seja o mais marcante, o mais belo e o mais existencialista dos filmes de Chang-Dong.

Uma frase que definiria bem este filme é uma do poeta Paulo Leminski, ao se referir ao mestre do haikai japonês Matsuó Basho: “Os pensamentos mais sutis revelam-se nas condições mais materiais. E a mais sutil poesia, nas circunstâncias mais pedestres e corriqueiras”. Perfeita afirmação para definir a protagonista de Poesia. Mija (a veterena Yoon Jeong-Hee), que tem 66 anos, surpreende os personagens do filme e o público, ao querer, nesta idade, começar a escrever poesia. A decisão de Mija torna-se mais paradoxal, porque ela, logo ao início do filme, descobre que tem Alzheimer. Perseguir as palavras passa a ser a sua reposta à doença. Momento delicado e muito bem tratado pela câmara de Chang-Dong. Mija é viúva e vive com um neto adolescente tipico de nossa época, cuja mãe divorciada, deixou-o aos cuidados da avó. Ela, além de aposentada, ganha a vida cuidando de velhos. Seu sonho é um dia escrever um poema, aos menos um, e para tal começa a frequentar cursos de poesia num centro comunitário, uma espécie de “oficina literária” onde frequentam as mais improváveis figuras interessadas no “fazer poético”. Enquanto Mija tenta desesperadamente fazer uma poesia, o neto envolve-se num estupro bárbaro de uma adolescente pobre e que tem consequências graves para o destino da jovem (sem querer revelar o desfecho desta história). Aqui merece destaque uma palavra-chave na construção dos personagens do filme: o deslocamento.

Os personagens encontra-se sempre no limite, sofrendo perdas insuportáveis, comportando-se sempre diferente daquilo que a sociedade espera. Na protagonista de Poesia, por sinal de interpretação soberba, vemos o deslocamento na mistura de delicadeza e obsessão gerando um personagem trágico. Sem maniqueísmos ou clichês, o filme nos mostra as atitudes as vezes desesperadas, às vezes serenas da personagem em busca de salvar o neto da prisão e da busca de fazer um poema. Coisas completamente diferentes, mas articuladas no filme a ponto de nos levar ao sublime. Nos faz lembrar o filme Mouchette (1967) de Robert Bresson. O desespero, a angústia e a solidão da personagem de Bresson que  leva aquela coreografia dramática a rolar repetidas vezes até o rio para encontrar  a morte, nos faz lembrar de imediato o drama da personagem de Chang-Dong. O que os une é a água, este símbolo de elemento purificador que habita todas as culturas e cuja imagem abre e fecha o filme Poesia. Uma imagem poética e violenta, como toda imagem e arte que mereça o nome de bela.

* Professor de filosofia da UFS.

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