Home

JACK LONDON E KARL MARX, AUTORES DO SÉCULO XIX

Jomar Ricardo Silva*

No conto A paixão do socialismo, percebe-se na construção textual, a imbricação do pensamento de Jack London, advindo de sua experiência, e de alguns conceitos do pensamento marxiano, que deveriam circular na sociedade norte-americana no final do século XIX e início do século XX.

O autor começa se certificando de sua condição de classe: “Nasci na classe trabalhadora”. Com todas as implicações que esta situação comportava, demonstra como a percepção da dupla consciência divide o indivíduo na sociedade de classe, entre a realidade e o sonho.

Afirma o escritor americano: Meu ambiente era cru, áspero e rude, […] meu lugar na sociedade era nos fundos. Por outro lado sabia que no alto da sociedade “os homens vestiam ternos pretos e camisas engomadas e as mulheres usavam vestidos lindos”. Ele conhecera esse outro lado da sociedade por intermédio da literatura.

Por outro lado, as pessoas empobrecidas vêem como saída para superar sua condição de classe, o esforço pessoal, através do trabalho. Há uma corrente ideológica que defende que os pobres assim os são, porque são preguiçosos e inoperantes. Todavia, o segredo que explica as diferenças e a riqueza em poucas mãos está na concentração dos meios de produção e da extração da mais valia sobre o trabalho.

Jack London narra que certa noite, depois de se tornar um capitalista, aos dezesseis anos, dono de um barco com a tripulação de piratas, participou de uma assalto a pescadores chineses e admite que “era um roubo, mas era precisamente o espírito do capitalismo”.

Nesse sentido Karl Marx (1881 – 1883) afirmava, em Salário, Preço e Lucro, que na relação entre capital e trabalho ocorre a expropriação da força de trabalho pelo capitalista através do trabalho não pago: “E, como vendeu sua força de trabalho ao capitalista, todo o valor ou todo o produto por ele criado pertence ao capitalista, que é dono, por um tempo determinado, de sua força de trabalho. Portanto, desembolsando três xelins, o capitalista realizará o valor de seis xelins, pois pelo pagamento do valor de sis horas de trabalho recebeu em troca um valor relativo a doze horas de trabalho.”

jack-london-desk.web

No âmbito da produção, na esfera propriamente econômica, o trabalho não pago acontece em um processo em que as relações entre o trabalhador e o capitalista escamoteia a extorsão de um valor a mais, embolsado pelo capitalista. Em A paixão pelo socialismo, vemos que no patamar das relações sociais advindas desse processo, a consciência se escandalizava com as injustiças que saltam da realidade e de chofre atingiam o senso moral do indivíduo: “Eu olhava para a filha do dono da fábrica de enlatados, em sua carruagem, e sabia que eram meus músculos que ajudavam a empurrar aquela carruagem sobre seus pneus de borracha. Eu via o filho do industrial indo para a escola e sabia que era minha força que ajudava, em parte, a pagar o vinho e as boas amizades de que desfrutava.”

A exploração da força de trabalho se efetiva por meio de um consumo que esgota os corpos dos trabalhadores, extenuando suas energias. Marx observava que o “trabalho gasta seus elementos materiais, seu objeto e seu meio, os devora e é, portanto, processo de consumo.” Há uma dialética intrínseca no processo de produção em relação ao trabalho que o pensamento marxiano capta em sua singularidade, expresso numa estética literária que articula a morte da força de trabalho e a vida que ela mesma ressuscita, transformando trabalho morto em capital.  A força do trabalho é devorada e se consome no exercício de produção. Ao mesmo tempo, assim concebemos em Contribuição para uma Crítica da economia política, que ela faz ressurgir o trabalho cristalizado na matéria – prima e nos meios de produção: “O trabalho vivo deve apoderar-se dessas coisas, despertá-las dentre os mortos, transformá-las de valores de uso apenas possíveis em valores de reais e efetivos. Lambidas pelo fogo do trabalho, apropriadas por ele como seus corpos, animadas a exercer as funções de sua concepção e vocação” […]

Todavia, Jack London observava outro tipo de trabalho que pode ser vendido como mercadoria, o intelectual. Naquele momento, na Biblioteca de Seaside, entra em contato com a sociologia e aprimorava sua visão de mundo a respeito da sociedade. “Outras grandes mentes, antes que eu tivesse nascido, tinham elaborado tudo que eu havia pensado e muitas coisas mais. Eu descobri que era socialista”. E como escritor reconheceu que entrava no jogo e estava obrigado a produzir para um livreiro que se enriquecia com os seus livros: “Eu aprendi que o cérebro era da mesma forma uma mercadoria. Ele também era diferente dos músculos.”

 Carlos Marx (foto personal)Publicada: 18/10/2008Marx0008

Em Marx o trabalho do escritor, do professor ou do cantor pode ser produtivo ou improdutivo a depender do tipo de relações que estabelece entre o realizador da obra o mercado e o capital, pois segundo ele, apenas é trabalho produtivo, em regra geral, o trabalho que produz mais – valia. Por exemplo, Milton que escreveu o Paraíso perdido era improdutivo porque o escreveu como manifestação de sua natureza. Quando o vendeu se tornou comerciante. Uma cantora que vende seu canto é assalariada ou comerciante, mas ao ser contratada por capitalista, passar a ser trabalhadora produtiva.

O pequeno conto é uma auto análise da trajetória de uma pessoa que tenta escapar do porão social da pobreza. Primeiro, pelo trabalho e pela módica iniciativa privada. Fracassou. Tenta como escritor de sucesso angariar um lugar ao sol. Decepciona-se com a elite que estava obrigado a conviver. Volta à classe trabalhadora com uma nova consciência,  ao encontro de outras pessoas que alimentavam o sonho da construção do socialismo.

*Sociólogo e professor da UEPB.

 1ª fotografia: Jack London; 2ª fotografia: Karl Marx

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s