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O MITO DA PREGUIÇA

Ana Monique Moura*

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Há a fama no nosso país de que a preguiça é uma prática indígena que os europeus herdaram.  Mas qual o sentido de dizer isso? Nenhum, absolutamente. A preguiça talvez seja aquela ausência sábia de disposição para algo que é importante. Negar a disposição para aquilo que é posto como algo importante, ou seja, necessário, é um ato de subversão. E subverter o aspecto da importância enquanto necessidade é ressignificar a possibilidade de ser para além do que está posto ou determinado. É reinventar-se, na medida em que anula-se o pressuposto de necessidades a serem supridas. Aqui cai bem a ideia do “devo, logo posso” concebida por Immanuel Kant na sua Kritik der praktischen Vernunft, 1788 (Crítica da Razão Prática), cuja ideia liga-se, inteiramente, ao, dito, exercício de liberdade do indivíduo. Diante daquilo que se põe como um dever para mim, posso optar por algo que está fora dele, isto é, aquilo que não devo.  Mais necessário que o dever, é necessário que se há algum dever, haja por isso, um não dever. Se escolho aquilo que não devo, não exerço, contudo, a razão prática, mas o capricho, ou seja, uma vontade banal, não a vontade, por assim dizer, racional.[1] Mas o que talvez Kant tenha esclarecido pouco é que o próprio ato de raciocinar e escolher advém de uma disposição de vontade, ou seja, de se estou ou não com vontade de admitir uma vontade superior (em relação ao dever) ou inferior (em relação ao não dever). Subtende-se então que a abordagem de Kant tem um aspecto falivelmente valorativo, embora atraente. Mas talvez Cornelius Castoriadis tenha exibido com certa maestria o nosso posicionamento reflexivo diante das nossas atividades humanas, ao afirmar que, aí, a vontade foi mal trabalhada pelos pensadores e ao significar a vontade como uma “atividade deliberada” condicionada e condicionante.[2] Partindo disso, é possível em nosso texto trazer aqui a preguiça como uma vontade deliberada, direcionada a uma negação ou ausência de outras vontades.

Nessa “ausência das vontades”, por assim dizer, reside uma espécie de breve morte, porque não há uma insistência no agir, na ação. Aqui não há vida ativa, no sentido dado por Hannah Arendt, por exemplo, enquanto a expressão de um conjunto de atividades humanas interconectadas. É a ausência da vontade de agir comprometido com e no mundo. E, aliado a isso, é a descrença da existência enquanto efetivação de atividades. Trata-se, por fim, de um descaso, muitas vezes acompanhado de angústia, em relação àquilo que no fazer determina o ser. Sou aquilo que faço, se não faço, deixo de ser. Podemos dizer que a preguiça é uma espécie de breve morte nesse sentido e quando pode ser desfrutada é um gozo no sentido francês do gozo, enquanto “la petite mort” (a pequena morte).

A crítica de Paul Lafargue é talvez a mais sensata já feita às questões problemáticas da preguiça. E para pensá-la, Lafargue invoca o tema, mais que necessário, do trabalho. Ele procura no trabalhador a liberdade ali negada, que não seria outra coisa que o direito de poder bocejar, sem recorrer ao relógio, ou seja, poder desfrutar da preguiça. Seguido da paráfrase de Lessing: “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos”, Paul Lafargue, dissertou sobre essa ideia na obra intitulada Du droit a la paresse. 1880 (Do direito  à preguiça). Acredito que nela Lafargue  aborda bem essa coisa que chamamos também, e erroneamente,  de apenas como “falta de vontade”, sem sabermos que há uma vontade deliberada que funda a ausência das vontades.

Paul Lafargue veio com sua obra se esforçar por defender a classe dos trabalhadores do ideal do trabalho enquanto redenção e salvação. É na preguiça que se realiza o grande direito do trabalho e não no trabalho. Não é, portanto, o trabalho que dignifica o homem, mas o direito à preguiça.

É preciso a preguiça dos trabalhadores para combater a preguiça dos que oprimem os trabalhadores. Sem direito à preguiça, há muito trabalho a favor de um excesso de direito à preguiça burguesa. A classe dos trabalhadores, para Marx, deve se colocar como o grande motivo de transformação social a partir de uma revolução nos modos de produção e isso inclui, para Lafargue, claramente, o item da preguiça.

A preguiça é a possibilidade de ser na negação do fazer. É como aquela célebre ideia da mística Helena Blavatsky que defende algo como a ideia “se queres nascer é preciso morrer”. Neste caso, a preguiça vem a ser a negação do ser trabalhador enquanto subserviente. O submetido passa agora a ser subversivo.

Não é o trabalho, talvez, que decida ou defina o que seja o trabalhador. O trabalho, como vem sendo concebido é uma distorção, em sua proposta de sentido. Hannah Arendt já havia feito uma análise sobre isso. E aqui ela realiza uma profunda crítica a Marx. O trabalho não é uma atividade de sobrevivência. O trabalho da obra (Work no inglês, Werk no alemão) é realizar coisas, no geral e inclusive, inúteis. Em contrapartida, o trabalho do labor (Labor no inglês, Arbeit no alemão) é a sobrevivência orgânica. Neste caso, pondo Paul Lafargue diante dessa análise, o trabalhador, na medida em que tem o direito admitido da ausência do trabalho pela sobrevivência, tem o direito de realizar coisas para além dessa sobrevivência primária.

Tomemos nota, além disso, que a radical frase do cineasta Claudio Assis de que “O ser humano é estômago e sexo” se aplicaria aqui apenas ao tenro trabalhador da sobrevivência… Dizer que o ser humano é estômago e sexo, seria o mesmo que dizer que o ser humano é apenas mente. Os dois opostos são absurdos. E a preguiça reside ali onde é possível desfrutar de tudo isso, do estômago, do sexo e da mente, ao negar o que pode proibir essas coisas.

Não parece estranho que a sensibilidade estética para as artes esteja muito presente em classes abastadas, ou seja, em pessoas que tem o direito à preguiça. Cai bem o dizer da Hannah Arendt, de que “é o artista, que, propriamente falando, é o único trabalhador que restou numa sociedade de operários.”[3] O trabalho só pode dignificar o homem se de fato se efetivar como um trabalho para alguma obra humana, e não para a mera sobrevivência.

A ausência do direito da preguiça impede que o indivíduo trabalhe plenamente, logo ele não pode ser um trabalhador. A preguiça é, portanto, uma ausência de vontade marcada por uma vontade deliberada, é talvez um tipo de pessimismo sábio, que vem muitas vezes combater nossas crenças e nossos apegos ao ideal do que seja necessário; é um modo de subverter o necessário como algo acima de nós, e colocá-lo no nosso punho, ou abaixo de nós, sob novíssimos questionamentos. A preguiça não é desânimo, nem tédio… É sensação agradável de “mangar” do dever e questionar sua posição. Sabemos que Macunaíma, personagem da obra homônima de Manuel Bandeira, já dizia “Ai, que preguiça!”, e com essa frase e suas peripécias foi chamado de Herói Macunaíma.

Por fim, que fique claro, a preguiça não é uma herança má dos índios, como foi apontada pelo racismo dos princípios moralistas e econômicos do velho mundo europeu. Ela guarda, antes de tudo, um valor do direito mais perdido que alcançado, já que cá, no nosso mundo, há mais submetidos que subversivos.


[1] Veja-se, como indicação, a obra de Leonel Ribeiro dos santos intitulada “A razão sensível”, na qual desenvolve a tese para o discurso de uma razão sensível na filosofia de Kant.

[2] Cornelius CASTORIADIS. Sujeito e verdade no mundo social-histórico. Tradução: Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

[3] Hannah ARENDT. A condição humana. Tradução: Celso Lafer. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999, p. 139.

*Doutoranda do Programa de Doutorado Integrado em Filosofia (UFPE-UFPB-UFRN).

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