Home

O NATAL SEGUNDO CLAUDE LÉVI-STRAUSS

Jomar Ricardo Silva*

Publicou-se em 2008 “O suplício do Papai Noel” pela Cosacnaify em homenagem aos cem anos do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, falecido em 2009. Ele veio ao Brasil para lecionar sociologia (1935-1939) na Universidade de São Paulo e suas expedições, por entre a região central do país, proporcionaram-lhe registros que em 1955 vieram a ser publicados em forma de livro com o título de “Tristes Trópicos”.

O Suplício de Papai Noel é uma reflexão que tenta explicar a existência da figura de Papai Noel nas sociedades modernas, aplicando o método estruturalista, a partir de um fenômeno, organizado pela igreja católica, que ganhou as páginas dos jornais franceses. OFrance-soir de 24 de dezembro de 1951 forneceu a seguinte manchete aos seus leitores: “Papai Noel é queimado no átrio da catedral de Dijon diante de crianças de orfanatos”.

Esse fato dividiu a comunidade francesa entre aqueles que apoiaram a igreja naquela atitude e os que se posicionaram contrariamente. Distanciando das querelas, Lévi-Strauss procurou fazer uma reflexão que procurasse entender o ocorrido fugindo das “explicações demasiado fácies que apelam automaticamente aos ‘vestígios’ e às sobrevivências’”.  Não era suficiente dizer que a mudança de comportamento do povo francês, em adotar o símbolo de papai Noel para os festejos natalinos, dera-se apenas pela influência norte-americana, que se tornara uma nação prestigiosa, ou pela volta do equilíbrio econômico à Europa, ambos os fatores caracterizados depois da II Guerra.

A existência do culto às árvores na pré-história, perpetuado por várias manifestações folclóricas, repercute para a invenção moderna da árvore de natal no velho continente. Quer dizer, ela não á apenas uma manifestação imemorial de um rito, todavia, representa uma invenção moderna que “não nasceu do nada”. Constitui-se uma prática em que se refundem elementos antigos com fórmulas novas “para perpetuar, transformar ou reviver usos da velha data”.

A força de Papai Noel reside na autoridade dos antigos assinalada na benevolência da paternidade idosa, atualizada nas roupas de vermelho, conferindo a conotação do poder real. O antropólogo o classifica na família das divindades. As crianças lhes prestam culto em certa época do ano com cartas e pedidos. Ele recompensa as boas e priva as más. Insere-se no conjunto de crenças e práticas que separa crianças e adultos sob a denominação de ritos de passagem. As sociedades            privam as crianças do mundo dos homens – “excluídas pela ignorância de certos mistérios ou pela crença”- para efetuar sua inclusão em momento oportuno, concedendo as gerações jovens o direito de compartilhar as esferas de poder antes negadas.

Lévi-Strauss traça um paralelo entre a figura de Papai Noel e as Katchina, personagens dos índios do sudoeste norte-americano, parentes das crianças fantasiados de deuses, que voltam periodicamente para punir ou recompensá-las. Esses rituais e mitos são maneiras que os adultos encontram para manter a ordem e a obediência entre os mais novos. Os personagens correspondentes no folclore brasileiro são a Cuca e o Bicho Papão. Mas isso se situa apenas em uma ordem secundária. O mito originário das katchina explica-se na narrativa de que elas foram as primeiras crianças afogadas durante as migrações dos ancestrais Pueblos, passando a ser prova da existência de vida depois da morte. Quando esse povo estabelece-se, elas vêm à aldeia para raptar as crianças. Os adultos desesperados selam um pacto. Obrigam-se, para as katchina ficarem no além, a representá-las com máscaras e danças.

MAGAZINE SUBJECT ON THE COLLEGE DE FRANCE

O motivo das crianças serem excluídas do mistério das katchina não está na necessidade de amedrontá-las, mas sim porque elas próprias são as katchinas. O lugar preciso delas é o dos mortos e o dos deuses. Não com os vivos e com máscaras. Logo, as crianças são os mortos. Para o pensador francês esse modelo pode ser aplicado a todos os ritos de iniciação.

Na análise diacrônica o Natal remete as Saturnais romanas como festas daqueles mortos por violência ou abandonados sem sepultura. Saturno em sua origem era o devorador de criancinha que associa as imagens simétricas de Noel, o velhinho dócil e caridoso; São Nicolau que lhes ressuscita e lhe gratifica com presentes e as Katchina, comentada anteriormente.

Então, a relação que o Natal permite estabelecer com os mortos, que de alguma maneira, estão excluídos do grupo, e fazem o dualismo maior, pontificados na oposição entre vivos e mortos. Desse modo, os beneficiários do espírito natalino são os empobrecidos, os marginalizados. E a sua preservação, pergunta Lévi-Strauss, não será porque acreditamos numa generosidade irrestrita, numa gentileza desinteressada, num “breve instante em que se suspende qualquer receio, qualquer inveja, qualquer amargura?” Ele mesmo tenta a resposta. Quando ofertamos presentes destinados ao além, a pretexto de dá-los às criança, fazemos “um sacrifício à doçura de viver, que consiste, em primeiro lugar em não morrer”.

*Sociólogo e professor da UEPB.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s