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A DESILUSÃO COMO INTRODUÇÃO AO CINEMA DE  ROGÉRIO SGANZERLA

Ana Monique Moura*

CENA

“Documentário (1967)”, de Sganzerla, para além dos elementos já tão falados como a “estética sem limites”, a influência declarada de Godard e o título que incita e excita uma desclassificação ou distinção entre o que seria o real e o fictício, exibe uma desilusão declarada da condição do cinema. E quando falo cinema, não me refiro apenas ao modus operandi do cinema, mas à experiência do cinema, o meio, seu universo, seu público.

A abordagem, não nos enganemos, não favorece uma espécie de postura propositalmente cult versus mainstream. Seria simplório, ingênuo, delirante demais. A ideia que o documentário deixa também parece não ser exposta como, exatamente, uma crítica. Portanto, um documentário que não é documentário tradicional, uma crítica que não é uma crítica como a entendemos.  É visto ali muito mais uma imagem da desilusão, mediada por uma ironia.

Em uma visão superficial tomaríamos os personagens como dois adolescentes de classe média vagabundando nas ruas, em outra tomada, por assim dizer, mais poética, seria dois flaneurs declarando alguns dos sintomas da pós-modernidade. De fato, o que temos se refere à falência do encantamento com a arte e o lugar do cinema nas relações funestas do capital.

Um dos jovens profere que o cinema está ficando sério demais. Um jovem que entende de cinema, e nisso, desacredita de seu academicismo – recordo que Godard e Truffaut jamais frequentaram curso de cinema… seu curso foi o ato de “frequentar o cinema”.

E, nisto, eu tomaria a seguinte frase como um desfecho primordial do curta: “A famosa geração de merda: os frequentadores de cinema”, diga-se de passagem, o oposto do que se poderia conceber com cinéfilos como Godard ou Truffaut.

A desilusão, no entanto, não nega com pessimismo o “fazer cinema”. A desilusão se expressa como um ato de investimento comprometedor em um nova tipologia de confiança estética. Trata-se de um comprometimento desacreditado e sóbrio. É mais práxis, que fé no cinema.

Ao fim, os dois seguem errantes na rua quase solitária, desiludidos, e mudam de ideia: Não irão, naquele dia, ao cinema… Conversam sobre a criação cinematográfica independente e um deles, ao falar sobre suas experiências com o cinema e os limites do cinema atual, fecha a conversa com a seguinte frase “da próxima vez, vou fazer tudo diferente”.

Sganzerla soube fazer diferente.

*Doutoranda em filosofia pelo Programa Integrado de Doutorado em Filosofia (UFPE-UFPB-UFRN)

 

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