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CRÔNICA DE UM INDUSTRIAL (1878)

OS OLHOS BURGUESES DE RESSACA E A APREENSÃO DE SENTIDO

 

Beano Regenhaux*

A temática camusiana do absurdo, uma indolência criaCRONICA DE UM INDUSTRIALtiva que pende dos revertérios ou inquietações artísticas, pode ser evocada da discussão de inúmeros autores do cinema brasileiro, explicitada na direção dos filmes e na composição da narrativa. Desde Walter Hugo Khouri, passando ao Paulo César Saraceni de O Desafio, Glauber Rocha, e Luiz Rosemberg Filho (diretor de Crônica de um industrial), na avacalhação do cinema marginal ou a ausência pessimista de perspectiva em alguns cinemanovistas, todos apresentam o desalento, a falta ou utopia de sentido como mote norteador que permeia suas obras. Assinala o absurdo enquanto inspirador e produtor de material de relevância estética, seja enquanto flerte com uma esquizofrenia ou perseguição de uma arte pura, seja enquanto nonchalance no tratamento dos dados artísticos, como o recurso da improvisação, o acaso ou situações de caos criador, presente em obras como Sem Essa, Aranha de Rogério Sganzerla e Caveira, My Friend de Álvaro Guimarães – sem considerar o ranço dicotômico do planejamento ou não de tais posturas, esquematizações roteiristicas desses “flertes de Mersault”, ou seja em que medida o absurdo é construído ou espontâneo, mas sim como matriz ou fundamento que embasa a construção fílmica.

Para desenvolver a discussão em torno da temática da ressaca de sentido, ou o absurdo e a utopia em tais obras, trago Crônica de um industrial (1978) de Luiz Rozemberg Filho como exemplar único em que tais vieses estão concentrados de forma patente, onde culminam tanto os desencantos da utopia de uma revolução cinemanovista, quanto uma estética inventiva confrontada com o político, e proponente de uma revelação/revolução pela forma, pela linguagem artística. Crônica de um industrial apresenta como eixo estrutural diegético, a experiência do desencanto de um empresário burguês em processo de falência, que questiona sua zona de conforto e sua ideologia progressista diante da realidade econômica da miséria e exploração e do seu passado de estudante militante, esquerdista, leitor de Rosa Luxemburgo. Como no Eldorado de Terra em Transe, de Glauber Rocha, a situação do Brasil é transfigurada numa San Vicente sob a égide de corporações multinacionais e do capitalismo monopolista. O industrial Gimenez (Renato Coutinho) alegoriza o leitmotiv da conversão do hippie contestador ao yuppie bem sucedido nos negócios, o burguês em busca de experiências intensas de catarse, vivendo de forma blasé e sem sentido para o tecnicismo exaltado que fora incorporado em suas biografias, como o personagem Marcelo presente em várias obras de Walter Hugo Khouri.

A falta de sentido para os empreendimentos vitais e para o conforto material de Gimenez estimula-o a reativar a atividade poética de sua juventude, restaurada mediante um diário gravador, trazendo ao filme uma tonalidade confessional em monólogos com textos belíssimos que enfatizam a angústia enquanto processo criativo. A dinâmica de uma experimentação aberta ou dimensão ensaística que permeia a diegese e a forma de composição dos enquadramentos, reunidos sob o élan vital do desencanto, promove o filme enquanto marco obscuro da cinematografia brasileira, que deixou de comparecer ao festival de Cannes pelo nível sofisticado de sua concepção e pelo conteúdo de crítica política, censurado na ditadura:

Como se sabe, a Censura costuma liberar certos filmes nacionais somente para exibições no Exterior. Esse é o caso de “A$$untina das Amérikas”, o filme anterior de Rosemberg e de “Prata Palomares”, de André Faria, que ainda garantiu alguma polêmica no Festival de Cannes do ano passado. Rosemberg diz que “Crônica de um Industrial” foi visto por cinco comissões de Censura e um dos censores chegou a confessar que “é com dor no coração que vamos interditar esse filme”, embora os motivos da interdição não tenham sido comunicados por escrito, como se faz normalmente. E como um pouco de especulação não faz mal a ninguém, o que se depreende desses contatos imediatos é que as comissões acharam que o filme, por seu alto nível poderia até mesmo ganhar uma Palma de Ouro em Cannes, o que criaria uma situação difícil no mercado interno: o grande publico ficaria interessado em assistir a um filme que só o exterior poderia ver.[i]

A abertura do filme com uma afirmação de Jean-Luc Godard “toujours le sang, le peur, la politique, l’argent…’’ (“sempre sangue, medo, política, dinheiro …”) indica uma atitude manifesta na obra sobre a utopia e o influência estilística do diretor francês em Crônicas de um industrial. Ressalto tal percepção godardiana pela maneira como o diretor francês coloca os corpos das atrizes e atores no confronto político e a sensualidade dos papéis em destaque, o que está bastante exacerbado nesta obra de Luiz Rosemberg Filho, quando os corpos das mulheres de Gimenez e do próprio se digladiam no seio de suas intimidades, num baile de interesses opostos – a primeira mulher sofrendo com a indolência do marido, a segunda com o questionamento de sua posição e o revival dos sentimentos do estudante de esquerda em Gimenez; o casal ensanguentado que está numa sequência inicial da obra, na obra de um metro da construtora,  propriedade herdada do pai de Gimenez,  representa a guerra ou o baile dos corpos em conjugação, a ambivalência de sentidos – desejo e repulsa -, dos atores que são emblemas da luta de classes, operários e patrões, homens e mulheres, opressores e oprimidos. Sempre o sangue, o dinheiro, o sangue, a política (Foucault?) nos corpos. Em suma, um filme que merece ser (re)descoberto, seja pela sua relevância estilística, seja por uma atualidade dos  temas evocados, pelas metáforas que expõe e as formas de concepção fílmica que propõe.

* Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB. 


[i]  Citação do texto A “Crônica” proibida de Rosemberg, por Jairo Ferreira Publicado originalmente na “Folha de S. Paulo” em 2 de junho de 1978 Disponível  em http://revistazingu.blogspot.com.br/2007/06/djf-acronicaproibidaderosemberg.html

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