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O PAPA E O POETA: NOTAS PARA REFLEXÃO

LEMINSKI

Romero Venâncio*

Não pretendo abusar da paciência de ninguém em termos religiosos. Mas procuremos entender uma coisa: este é um País marcado de cabo a rabo pelo Cristianismo… Se diminui Catolicismo, cresce protestantismos. Sou daqueles que prefiro procurar entender de uma maneira mais secular e menos anticlerical, por entender que não ajuda nenhum “posicionamento sectário em reflexões”.

Propositalmente e por conta do “clima midiático papal”, resolvi reler/ler algumas obras de cunho teológico/religioso mas perto do que se chamou a um tempo “Teologia da Libertação”. Hoje, acabei na madrugada, JESUS de Paulo Leminski, editora Brasiliense, coleção “Encanto Radical”. Desde já, faço recomendação a quem interessar possa. Como sabemos, Leminski foi um poeta e dos bons. Mas foi também um biógrafo de pequenos livros na brasiliense dos anos 80. Escolheu a figura de “Jesus” para fazer uma, no mínimo, diferente biografia altamente lírica, encantadora e sem arrogância teológica. Leminski era um poliglota que conhecia bem até latim e algo de grego, logo, um apto a falar nas línguas clássicas do Cristianismo e da redação de um dos Evangelhos. Nos dias que se passam num Brasil perplexo com atividades de rua e com a presença do Sumo Pontífice católico, talvez as palavra de Leminski sobre o fundador do Cristianismo faça algum sentido.

Notório o esforço de simpatia do Papa Católico de nome sugestivo, Francisco (se nos faz lembrar aquele que se fez pobre em Assis para viver com sentido pleno sua vida!!!). O chamado “Santo Padre” (termo que nem Jesus quis para si) em tudo ou quase tudo que fala na mídia tem na boca a palavra Jesus e sua suposta palavra… De que Jesus fala o Papa? A pergunta cabe aos meus perplexos botões. Ou mais grave ainda: de que Jesus testemunha o Papa Francisco? Mais do que palavras, o testemunho nos dias de hoje é o mais importante. Notório ainda o esforço do Papa de falar de simplicidade e de questionar um sistema que abandona os pobres, os velhos e que “massacra” os jovens… Parece vago num mundo complexo e num sistema capitalista fortalecido culturalmente a cada dia… Já o poeta Leminski fala de um lugar e de uma maneira muito particular. O poeta provoca o pensamento pela sua vocação lírica.

Mal-aventurados os que se rendem às verdades absolutas sobre Jesus, parte desse lugar hermenêutico o poeta. E vais mais longe. Se foi reformador ou revolucionário, Fariseu ou dissidente, ou profeta iluminado, nada disso nos contam os “Evangelhos”. Para Leminski, Jesus sabia se esconder bem entre as muralhas e as palavras. Indiscutível apenas é que sua doutrina tomou e questionou radicalmente o Império Romano sem levantar uma espada. Leminski acredita que entender suas parábolas é mergulhar num emaranhado de significados que se multiplicam como os “peixes do milagre evangélico”. Peixes-símbolo de subversão da ordem vigente. Ler a obra JESUS é caminhar sobre águas incertas que vem com força e quebram em ondas de interpretações hermenêuticas e líricas na pena do poeta… Nas praias por onde caminhou Jesus fica apenas um sinal: de que este pobre de Nazaré escolheu a vida simples e honesta consigo mesmo e jamais se encantou com grandes estruturas de poder. Assim falou o poeta e assim pode aprender o Papa. E aprendamos todos e todas!!!!

* Professor de Filosofia da UFS.

 

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