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DA VONTADE OBJETIVA DE TODO AMOR, DE TODO AMAR

Edipo

Patativa Moog*

“O bebê que toma o peito, você tira o peito, ele chora, está infeliz. Você lhe devolve o peito, ele se acalma. Há anos uns e outros buscaram nosso peito. Queríamos um ‘bom objeto’, como dizem os psicanalistas, que pudéssemos possuir, que nos saciasse, que fizesse que nada nos faltasse… Que azar: somos desmamados, essa história acabou, ponto final.” São palavras tristes, mas verdadeiras, de André Comte-Sponville.1

Por que os homens gostam tanto dos peitos das mulheres? Porque eles ainda procuram, aí, aquilo que não podem mais ter em suas mães. E as mulheres? O que elas mais procuram, nos homens, é a segurança (é, ainda?); e há, nisso, muito bem sedimentado, toda uma história de dominação: psicobiológica, política, social, et cetera. Um homem rico, mesmo carente de atributos estéticos favoráveis, é, por tal fortuna, externa, propaganda de uma segurança que o “ouro” pode dar. Claro que isso pode parecer machista e feio, pela objetividade; não é, porém, superficial. No final das contas, não é nem esse homem feio (o mesmo vale para o bonito) e nem o seu dinheiro que ela quer, mas a segurança. Como se vê, há mais: por trás das intenções, das afecções, disso e daquilo que movem as nossas vontades e decisões.

Os homens querem “voltar ao colo materno”, ao seio natalino (primeira fonte de alimento e segurança). As mulheres, quando não desejam isso em seus pares, miram outros recursos externos, artificiais, psicologicamente adequados ao seu conforto e segurança – mesmo que não saibam, não pensem sobre isso. Por outro lado, e como antítese dinâmico-existencial, há a Vontade de vida2, e o instinto animal que, em favor da espécie, não deseja mais que a segurança. O “resto”, decorrente daí, é invenção nossa, e da cultura da sublimação. Não há nenhum amor romântico aí, em nenhum dos casos – ao menos o romântico, isto é: idiotizado, maquiado, sublimado… romantizado. Por outro lado, e como é comum e natural, há o amour de soi, a amour-prope.  E como não haveria de haver? É somente o que há; é tudo o que há.

Quando, em 1910, Freud tratou sobre o Complexo de Édipo, descreveu-o como o desejo secreto e inconsciente que a criança tem de “matar o pai”3. É que o pai do menino, de três a cinco anos, é um seu rival em relação ao peito materno. A fase seguinte – a fálica – marcaria para sempre a vida (psicológica) do indivíduo macho, “devidamente são”: desapegar-se da mãe, reconciliar-se com o pai, encontrar, para amar, uma que seja idêntica à mãe, e não a própria. “Essas tarefas”, Freud escreve, “cabem a todos, e é notável a pouca frequência com que lidamos com elas de maneira ideal”4. Sua mãe lhe despeja no mundo, e agora é você que está, por toda a vida, grávido dela.

Outro dia um amigo me disse, jocoso, olhando a mãe novinha que passava: “Se eu tivesse uma mãe dessas, até hoje estaria mamando”. “Mas”, eu lhe disse, “dependendo de outro gosto, outro cara pode dizer a mesma coisa da tua mãe.” “Eiii, rapaz!”, ele disse, me esmurrando de mentirinha; e ficou nisso.

Os bons leitores de John Fante sabem que seus livros são altamente biográficos. Em um deles, de 1938 – seu primeiro romance publicado –, seu nome é Bandini, Arturo Bandini; um menino de doze anos: “Era Arturo e adorava o pai, mas vivia no temor do dia em que cresceria e seria capaz de bater nele. Venerava o pai, mas achava que a mãe era fraca e tola. Por que sua mãe era diferente das outras mães? […] Tinha doze anos e tomar consciência de que sua mãe não o excitava fez com que a detestasse secretamente. Sempre observava a mãe com o rabo do olho. Amava a mãe, mas a odiava.”5

Pobre e desmamado Arturo, sem o peito da mãe, sem o seu sexo. Era preciso buscar outros peitos, outras fontes lícitas de excitação. Talvez a mãe Jack Hawley, ou a de Jim Toland, ou a de Carl Molla6, ou talvez… Rosa7. Mas, ah! Não é a beleza que buscamos, afinal. A beleza é tão somente o atrativo, a propaganda. Buscamos é a vida, atiçados pela Vontade que, nos animais – e principalmente nos que não pensam sobre essas coisas – é cega, faz cegar. Já ouviu aquilo de “o amor é cego”? É por aí.

Por trás do desejo erótico-estético está o desejo de segurança, da saciedade daquela fome mais primitiva – que está acompanhada de todos os nossos vícios e paixões, domados ou não8. No fim de tudo, reverbera silenciosa a voz do nosso instinto mais básico, comum a todos os bichos: autopreservação. Aquilo que ocorre ao bebê, ocorre também conosco: não ter um peito deixa-nos infeliz… é a tristeza. Quando o peito não nos falta, a vida está assegurada… somente o tédio, agora, nos assedia. Em De rerum natura, Lucrécio faz uma afirmação dolorosa: “Giramos sempre no mesmo círculo sem nunca poder sair… Enquanto o objeto de nossos desejos permanece distante, ele nos parece superior a todo o resto; se ele é nosso, passamos a desejar outra coisa, e a mesma sede da vida nos mantém em permanente tensão…9” E daí Schopenhauer, valendo-se de Lucrécio, dizer que a “vida [do homem], […] oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio”10. E Sartre, n’O Ser e o Nada: “O prazer é a morte e o fracasso do desejo”11, e é por isso que “o desejo está fadado ao fracasso.12” Nessa historia toda, parece que não temos muitas escolhas, ou escolha.

A razão, por esse viés, nunca é suficiente, libertadora. Acima de tudo, da própria razão, da própria autopreservação, ela: a Vontade. A única liberdade estaria no suicídio, mas isso seria uma vontade contra a Vontade e, logo, um reflexo paradoxal da própria… e é por isso que, por hora, ficamos por aqui, sem ponto final

* Professor de Filosofia da UEPB.


1 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 114-5.

2 O sentido para “Vontade” (Wille), aqui, é aquele que encontramos em Arthur Schopenhauer (1788-1860), como na explicação de Jair Barbosa: “O querer tende à vida (olho que se abre para a luz), desde as mais elementares formações até as mais complexas. Onde houver Vontade, haverá vida. Por conseguinte, para o autor [Schopenhauer], a expressão ‘Vontade de vida’ é um pleonasmo, e nada melhor a simboliza, em seu ímpeto tempestuoso, do que os órgãos genitais. Esses são o seu ‘foco’. A vida quer viver, nem que para isso o particular tenha de ser sacrificado em favor do universal (como muitas vezes, pensa-se, ocorre nos casos de paixão amorosa, ou dos animais em luta pela fêmea, e ainda de parceiros mortos após a cópula).” (BARBOSA, Jair. Schopenhauer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 34. [Col. Passo-a-Passo, 16]).

3 “Quando um garoto (com idade de dois ou três anos) entra na fase fálica de seu desenvolvimento libidinal, ele tem sensações prazerosas em seu órgão sexual, aprende a obter prazer pela estimulação manual e vê-se como amante de sua mãe. Ele deseja possuí-la fisicamente das maneiras que imaginou por suas observações e intuições sobre a vida sexual, e procura então seduzi-la mostrando o seu órgão masculino com orgulho. Em poucas palavras, com o despertar da masculinidade, ele procura ocupar o lugar de seu pai diante de sua mãe. […] Seu pai transforma-se então em um rival que atrapalha seu caminho e do qual ele gostaria de se livrar.” (FREUD, Sigmund. In: STRCHEY, James [Ed.]. The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Hogarth Press / Institute of Psychoanalysis, 1953-74. p. 189, 423-4. vols. 23, 15).

4 FREUD, apud RAEPER, William; SMITH, Linda. Introdução ao estudo das idéias: religião e filosofia no passado e no presente. São Paulo: Edições Loyola, 1997. p. 91.

5 FANTE, John. Espere a primavera, Bandini. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. p. 26-7.

6 “A mãe de Jack Hawley o excitava: tinha um jeito de lhe dar bolinhos que fazia seu coração ronronar. A mãe de Jim Toland tinha pernas sensacionais. A mãe de Carl Molla nunca usava nada além de um vestido riscadinho; quando varria o chão da cozinha ele ficava na varanda dos fundos em êxtase, vendo a sra. Molla varrer, os olhos ávidos engolindo o movimento dos seus quadris.” (FANTE, 2003, p. 26-7).

7 A colega de classe, no colégio, por quem ele delirava: “Uma voz como um violino suave, emitindo vibrações através de sua carne. Lá estava ela, diante dele – sua bela Rosa Pinelli, seu amor, sua garota. […] Oh, Rosa, como você é maravilhosa. Eu te amo, Rosa, te amo, te amo, te amo! […] Oh, olhem para os seus cabelos! Olhem para os seus ombros! Olhem para aquele bonito vestido verde! Ouçam aquela voz! Oh, você rosa!” (FANTE, 2003, p. 38).

8 E como afirma Frank Cioffi, nas anotações que faz ao manuscrito do livro de Richard Webster – Freud, escrito para a The Great Philosophers Series, editada por Ray Monk e Frederic Raphael, e publicada pela inglesa Taylor & Francis Group, em 2003 –, mencionado pelo próprio: “[Freud tem o mérito de ter tido] a coragem de desenterrar o subconsciente, solo de todo egoísmo, cobiça, luxúria, destrutividade, covardia, preguiça, ódio e inveja que cada um de nós carrega como herança do mundo animal.” (CIOFFI, apud WEBSTER, Richard. Freud. São Paulo: Editora UNESP, 2006. p. 8 [Col. Grandes Filósofos])

9 LUCRÉCIO. De rerum natura, III, 1080-1084; citado em: COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 29.

10 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 402. (IV, 57).

11 SARTRE, Jean-Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 467.

12 SARTRE, 1969, p. 466.

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