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ESTETIZAÇÃO E WALTER BENJAMIN

BENJA

Valquíria Farias*

A dimensão política da arte, novo fundamento conquistado pela obra de arte na era moderna, defendida por Walter Benjamin (1892-1940) no ensaio A Obra de arte na era de sua reprodutibilidade, de 1936, contrapõe-se à autonomia da arte, à sua autossuficiência, sustentada por conceitos tradicionais definidores incontestes da noção de esteticismo.

De modo amplo, o esteticismo está diretamente relacionado à ideia da “arte pela arte”, cuja utilização acabou produzindo uma deformação do sentido de estética. Em seu ensaio, Benjamin denominou o uso forjado desse sentido como uma “estetização da política”. Sua teoria afirma que a impregnação da política pelo decadentismo de Gabriele D’Annunzio (1863-1938), assim como pelo Manifesto Futurista escrito por Marinetti (1876-1944) e pela tradição alemã hitleriana, permitiu reunir guerra e técnica sob uma perspectiva estetizante que recuperava valores clássicos da avaliação da obra de arte e da percepção do indivíduo.

A estetização da política seria, desta forma, uma espécie de verniz cultural que revestia a propaganda fascista, sendo ela também uma estratégia para preservar as condições de dominação e exploração das forças produtivas pelo capitalismo, no início do século XX. Com aparecimento de novas formas de arte, começando pela fotografia, houve a necessidade de desmantelar os velhos conceitos há muito enraizados pela tradição naturalista voltada para uma recepção contemplativa e distanciada da obra. Esta necessidade estaria ligada ao tema da “politização da arte” que, segundo a crítica benjaminiana, conduziria ao estabelecimento de uma nova forma de significação das obras e das condições de percepção.

Divergindo dos ideais ilusionistas disseminados pelo esteticismo, um dos objetivos fundamentais da teoria estética de Benjamin foi declarar que a obra de arte sempre foi reprodutível. As práticas artísticas sempre acompanharam o desenvolvimento das sociedades nas suas complexas relações de trabalho e propriedade, não fixando, portanto, a noção de eternização da obra e a sua mera fruição em busca do prazer estético. Bem antes da reprodução técnica da escrita, justifica o autor, o desenho tornou-se pela primeira vez reprodutível com a xilogravura e depois com litografia, que finalmente foi substituída pela rapidez do processo fotográfico.

Na medida em que poderiam criar novas possibilidades de democratização da arte fundadas em valores sociais, éticos e políticos as novas técnicas de reprodução, sobretudo as desenvolvidas pelo o cinema, propugnaram o fim da “aura” que envolvia toda obra artística, o que também significou um momento de “renovação” histórica da arte contra os seus mecanismos apelativos de estetização.

Além do conteúdo estético as novas criações artísticas não estariam mais dissociadas desses ou de outros conteúdos vistos como fundamentais na análise marxista do modo de produção das sociedades industriais. A arte não seria mais uma segunda natureza, como proclamava o estetismo, mas estaria intrinsecamente relacionada às mudanças reais e subjetivas do indivíduo e sua coletividade.

A reprodutiblidade técnica da obra, sendo um processo que se desenvolveu intermitentemente na história moderna, causou um “violento abalo na tradição” ao prognosticar a morte de valores tradicionais como criatividade e gênio, validade eterna e estilo, forma e conteúdo.”

O novo comportamento social provocado pelo dadaísmo, por exemplo, atingiu em cheio o espectador na medida em que os seus artistas estavam menos interessados no valor de mercadoria das obras e mais em torná-las impróprias para qualquer utilização contemplativa. Por sua vez, o valor de mercadoria seria uma consequência do valor de culto (fetiche) que seria estimulado pela indústria cultural, o mais importante instrumento de produção da cultura em massa gerado pela economia capitalista.

A consequente estetização da política como prática do fascismo foi o fermento fabricado pela discrepância entre os poderosos meios de produção e a sua utilização insuficiente no processo produtivo por parte do público. Mas a reprodutibilidade técnica também gerou possibilidades para a reestruturação e transformação dos indivíduos pela criação de novas formas de arte e sua politização.

 

*Curadora e crítica de arte.

 

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