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FALSA DISTINÇÃO ENTRE O POPULAR E O ERUDITO*

Livro

 

Vamos abrir um parêntese para advertir que aqui não desejamos fazer distinção entre o que se predomina literatura popular e o que se determina literatura erudita. Para nós existirá Literatura. Não haverá, pois, para nós, poesia popular, a cuja abrangência reservou-se vincular o cordel. Essa distinção, segundo percebemos, reside na forma preconceituosa e excludente com que as elites intelectuais sempre trataram as produções que não saíssem de suas lides ou que não seguissem os seus ditames. Popular seria aquela poesia produzida pelo “povo”, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, frequentadora da escola e detentora do poder econômico. Essa distinção construída e administrada em nossos bancos escolares não encontrará eco em nosso trabalho. Dizemos isso seguindo o pensamento de Joseph Luyten:

Em todas as sociedades, porém, temos sempre elementos dominadores e dominados, elite e povo, nobres e plebeus. Como consequência, uma visão frequentemente diferente a respeito das mesmas coisas.[1]

Mais ainda nos alinhamos com as palavras de Viegas Guerreiro que não podíamos deixar de citar:

No que chamamos mundo ocidental sempre as classes privilegiadas, econômica, social e politicamente, tem manifestado desprezo pela plebe, pelo populus in populo ou “povo popular”. Para além das constantes universais do comportamento gera a desigual repartição da riqueza grupos sociais bem individualizados, com casa, alimentação e vestuário próprios, específicas relações sociais e consequente ideal de vida ou visão de mundo[2]

Isso que diz Guerreiro passa com maior peso extratificação às artes, especialmente à Literatura. Mas, para nós, acreditando que a poesia não seja propriedade de ninguém, acontecendo em lugares os mais surpreendentes, vale a não classificação.

É importante verificarmos que na sala de aula temos estudado poetas nordestinos os mais diversos: Manuel Bandeira, Gregório de Mattos, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos. Seriam os formadores de nossa vida culta, esmiuçados até seus mais insignificantes detalhes. A contribuição desses poetas é imensa e oferta ao Brasil sua face literária mais importante. São os nossos autores canônicos. Esses estão de um lado, habitam os livros didáticos, as antologias literárias e as bienais de literatura, os documentários e os mais acalorados debates, todavia ao sofrer investigação mais detida ver-se-ão neles traços marcantes do que se chama, preconceituosamente, de literatura popular. Veja-se o caso de Gregório de Mattos, camaleão cuja lira subverteu o século XVII baiano. De formação “erudita”, estudante de Coimbra, contamina-se com a poesia do “povo” extrai da mestiçagem, do hibridismo, uma pena paradoxal. Ao mesmo tempo em que escreve:

Na confusão do mais horrendo dia,

Painel da noite em tempestade brava.

O fogo com o ar se embaraçava,

Da terra, e ar o ser se confundia.

 

Bramava o mar, o vento embravecia,

A noite em dia enfim se equivocava,

E com estrondo horrível, que assombrava,

A terra se abalava, e estremecia.[3]

Também escreve:

Mandou-me o filho da pu-

Um peru cego, e doente,

Cuidando, que no presente,

Mandava todo Peru:

Alimpei com ele o cu,

E o botei na onda grata,

Mas é tal o patarata

E o seu louco descaro

Que vendo o peru no rio,

Diz que é o Rio da Prata.[4]

Mais próximo de nós, no tempo, está Augusto dos Anjos, poeta paraibano tão complexo cuja obra não se encaixa nem aqui nem acolá e os críticos e historiadores da literatura ainda não sabem enquadrá-lo. Foi entretanto, na boca do povo que seus sonetos perpetuaram-se.  Versos herméticos e científicos, estranhos ao linguajar coloquial, mesmo assim levas e levas de declamadores lhe decoraram a obra e a recitavam em noitadas de bebida e saraus estudantis. O Eu, eu único e sempre reeditado livro, é um dos maiores êxitos editoras da poesia “erudita” brasileira graças à benevolência do “povo”. Dizia, como se predissesse o hoje:

Como uma cascavel que se enroscava

A cidade dos Lázaros dormia…

Somente, na metrópole vazia,

Minha cabeça autônoma pensava![5]

Versos decassílabos cujo ritmo e rimas furtaram sanidade a muitos alunos de letras como nós e herdaram luz a muitos olhares envoltos na emoção do poema.

No que concerne a João Cabral, com seu Morte e vida Severina, vem celebrar de vez a poética abraçada pelos poetas do povo, em sua marcação tesessilábica, em sua rima e em seus motivos, anunciadas na voz do Severino Retirante:

O meu nome é Severino

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

Fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.[6]

Os exemplos, nordestinos, por enquanto, se multiplicam Marcus Accioly, o poeta pernambucano, apresenta em Guriatã, um cordel para menino, ganhador do 1º lugar no Prêmio Fernando Chinaglia/1079, sua pena inspirada no gosto “popular”:

Ó, Musa, canta um destino

Para a viola e o cordel:

Era uma vez um menino

Que rodava o carrossel

De sua vida sem tino,

Com muito mel, pouco fel.[7]

Este nosso testamento serve-nos para constatar o livre trânsito entre o “erudito” e o “popular”, denominações completamente desprovidas de sentido no que diz respeito aos estudos e à produção literária, mesmo assim ainda fortificada e fomentada em nossas academias, bem como no seio de grupos de poetas das novas gerações, basta observar os exemplos de eventos literários, simpósios, congressos e feiras literárias, nos quais os poetas “populares” são alijados de toda participação e que, quando participam, há sempre o curral da apartação, como num zoológico.

Achamos importante trazer essas reflexões para que nem nos leia tome conta de que caminhando em estrada paralela, vezes em veredas, estradas vicinais, ao som do orvalho nos capins, aos pingos de canto de algum pássaro bravio, vão outros poetas, conhecidos na sombra, mas vivos nas ruas, nos cafés, no trabalho. São os poetas chamados de “populares”. Muitos, esquecidos da escola, povoando o “folclore”, o exotismo e o pitoresco.

Os autores de cordel formam desse lado, do lado chamado “popular”. Formam desse lado não porque queiram, tão somente porque lhes foi reservado esse lugar. Reservado, é claro, por quem está do outro lado. Os primeiros pesquisadores do cordel, e mesmo os contemporâneos, sempre se agarraram a essa divisão. Em todas as tentativas de conceituação ou definição de cordel ela está presente. Ouvímo-las até dos próprios poetas, tão entranhada está a distinção. E muitos se sentem orgulhos em assumir a designação. Não é o termo a nos incomodar, tão somente sua carga política. Popular não porque vem do povo. […]

* Extraído da obra Apontamentos para uma história crítica do cordel brasileiro, do escritor paraibano Aderaldo Luciano.


[1] Joseph M. LUYTEN. O que é literatura popular. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.08.

[2] M. Vegas, GUERREIRO. Para uma história da literatura popular portuguesa. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1978, PP. 15-16.

[3] Gregório de MATTOS. Obras Completas. Salvador: Editora Janaína, s.d. p. 1087.

[4] op. cit. p. 1363

[5] Augusto dos ANJOS. Eu e outras poesias. 42 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988, p. 235.

[6] João Cabral de MELO NETO, Morte e vida Severina e outros poemas para vozes. 4 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.145.

[7] Marcus ACCIOLY. Guriatã: Um cordel para menino. Rio de Janeiro: EBAL, 1980. p. 11

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