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RELIGIÃO, O SAL DO HIMALAIA

Jomar Ricardo Silva*

O filme Himalaia, baseado em fatos reais, narra a história de sucessão de chefia entre os habitantes de uma aldeia localizada na região do Dolpo. Lançado em 1999 sob a direção de Eric Valli, utiliza membros autóctones como atores, chegando a ser indicado para o prêmio do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2000.  Pode ser considerado um monumento à preservação da memória de um grupo que entrou em contato com o ocidente em 1952 e exposto a visitação de turistas em 1992.

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A caravana de iaques vai e retorna dos centros longínquos, onde a troca de seu principal produto, o sal, é permutado por víveres indispensáveis a sobrevivência da aldeia. Acredito, por razões climáticas, mesmo desenvolvendo a prática da agricultura e a criação transumante de animais, a extração do elemento das salinas e a organização do seu comércio, conferem à comunidade o sentido de estrutura do poder.

Na trama, o filho do chefe Tinlé encanecido pelo trabalho duro e alcoolismo, morre em circunstância misteriosa quando liderava os homens e os animais na viagem pela cordilheira. Desde então surgem as tensões em relação à sucessão. Tinlé tinha a convicção de que Karma, exímio arqueiro, e por isso, candidato a função de chefia pronto para substituí-lo, tinha assassinado Lapka. Possivelmente, os membros da aldeia encontravam-se diante de uma realidade que impedia a troca natural do poder por laços consanguíneos.

Lévi-Strauss, apoiando-se em Marx e Engels, considerava essas sociedades assentadas em laços de parentescos, uma organização que poderia se reproduzir indefinidamente, caso não fossem destruídas de fora. Elas são diferentes das estruturas baseadas em relações sociais, determinadas pelo desenvolvimento das forças produtivas e situadas historicamente em sua dinâmica de luta de classes. Atualmente, estas causam um fascínio nos membros das sociedades indígenas, e, em decorrência, corrompem o seumodus vivendi.

Deste modo, o que aparece na trama é uma disputa pelo poder encarnado por Tilén e Karma, representantes respectivamente da tradição e da modernização. Tilén rejeita a novidade de Karma por este não acreditar nos deuses. Todas as atitudes do velho chefe estão voltadas para deslegitimá-lo, na mesma proporção que o provável novo chefe adquire a aprovação da coletividade, que fica sem entender o porquê da reprovação. A sua preocupação é na tentativa de forçá-lo a reconhecer a tradição que tem principalmente na religião animista o último baluarte para enfrentar a desestruturação tribal.

Como também pressiona para que admita os valores provenientes da experiência que o novo chefe ignorava. A falta de habilidades de realizar a previsão do tempo poderia dispor os caravaneiros sob as intempéries climáticas e pôr fim a existência do grupo.

Numa situação que precisava de decisão para partir no momento exato, na iminência de uma precipitação de neve, Karma desconsidera as premonições halomânticas de Tilén, e por pouco não deixa perecer toda a caravana. Por sorte, salva sua pele ao recolher seu rival sob uma camada de gelo, conduzindo a relação para um patamar de igualdade, e passa a considerar os valores mais caros do grupo, a experiência e a religião, tão importantes para a sobrevivência dessa sociedade quanto o sal.

Nas comunidades indígenas da América do Sul, Pierre Clastres (1934-1977) analisa a estrutura de poder a partir da impotência da instituição de chefia, com a intenção de constituir um poder que não se volte contra a sociedade para oprimi-la. Cumpre ao chefe manter a harmonia, conceder generosamente seus bens e deter o dom da palavra.  Em contrapartida o grupo lhe retribui com o bem mais precioso, as mulheres, através da poliginia. Essa contraprestação, todavia, não representa uma troca de equivalente, pois o benefício oferecido ao chefe possui valor incomparável.

Nessa “relação de poder com a troca, por ser negativa”, é que reside a explicação, ou seja, no “nível mais profundo da estrutura social, lugar da constituição inconsciente das suas dimensões”, da aparente contradição entre a importância social e precariedade da função, depositadas concomitantemente na pessoa do chefe. Este tem o prestígio da função que a sociedade lhe concede, mas não manda, obedece. Coloca-se a serviço, sem ser servido. Trabalha mais do que todos na tribo. Se, ao frustrar as suas expectativas, é abandonado por outro que cumpra fielmente os deveres. A lógica que perpassa a relação da estrutura social e a instituição de poder é que o chefe sempre se encontra na condição de devedor. Por mais que faça, sempre produz pouco para atender as demandas do grupo. É uma maneira de não tornar a função uma força coercitiva sobre o grupo. 

* Sociólogo e professor da UEPB

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