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 O FIM DA ARTE E DE SUA HISTÓRIA (I)

Ana Monique Moura*

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Hegel (1770-1831), quando assume a potência da arte na fábrica possível de sua história,  não vislumbra após o Romantismo mais nenhuma categoria para a arte, no seu sentido historiográfico, então ele nega aí a própria possibilidade da arte, na medida em que é tomada como impossível enquanto história. Isto significa assumir no fim da era da arte o próprio fim da arte.

O que precisaríamos, contudo, pôr em pauta, é o modo como esse “fim” não pode revelar um fracasso da arte. O “fim” da história e, nisso, o “fim” da arte, decide concretamente o fim de um processo, um status ou categoria seja da história da arte ou da arte mesma? Não nos enganemos! Ainda assim, nos parece apropriado pensar, o que poderíamos tomar como “fim” da arte é sumamente distinto do “fim” da história da arte, uma distinção que chega a ser sinônimo para uma contradição.

A obra está lançada, no estilo ou no dizer de Heidegger (1889-1976). E, acrescentemos, mesmo que a sua história tenha sido declarada finda. E é essa insistente permanência da obra que fornece à história finda, ou melhor, à tradição histórica da arte, a recusa às atividades artísticas tradicionais. Aqui, sempre, é possível falar em pós-artista numa pós-história da arte.

A arte não está finda, mas a era de um modo de se conceber a arte, sim. Inevitavelmente. E isto é tanto mais reforçado pelas artes de vanguarda, com sua estética da recusa, quando não de uma bricolagem irônica ou ideológica, e, para invocar Achille Bonito Oliva (1939), neovanguardas e trasnvanguardas, que voltam-se para a tradição a partir de uma espécie  do que poderíamos tomar como estética da reinvenção. Pensemos o seguinte, e o que parece mais curioso: A história da arte é algo recente, surgiu no século XIX e já nasceu quase, senão inteiramente, natimorta. Não tardou para que declarássemos, ao lado de Hans Belting (1935) – The end of history of art? (1983) – o seu “fim”. E, mais ainda, não tardou para que declarássemos o “fim” da própria arte, ao lado da obra magma de Arthur Danto (1924-2013), The end of art ( 1984). Mas, do ponto de vista filosófico, é preciso aqui entender o significado de “fim”. Esse “fim” é o grande perigo conceitual. O próprio Hans Belting sentiu necessidade de, após dez anos de publicar sua grande obra que aqui cito, lançar uma revisão, dessa vez com mais certeza das críticas já defendidas no primeiro livro – para o nosso conforto!

O modo como a arte se expõe em nossa época constitui, já no modo em que falo sobre ela, ao usar o termo época, uma espécie de história, mas não uma história com um sentido lógico interno de continuidade. Nossa era, não é a era da arte, mas a era do “fim” de uma arte que expressa, em verdade, uma arte que mata o próprio sentido tradicional de arte, mesmo quando a toma por influência, pois aqui já não é a vivência plena, mas um retorno a tal arte. Não deixa de ser elucidativo, embora cansativo, confesso, invocar aqui como exemplo do “fim” da arte, no sentido que discuto, O Urinol (1917) de Marcel Duchamp (1887- 1968), por consequência.

Vivenciamos o momento em que a arte tradicional é invocada, em meios de massa, com uma atmosfera do Kitch e do fetichismo do clássico, do “erudito”. Sua afirmação, portanto, é descartável e irônica na própria apreciação de massa comum ao neoliberalismo cultural. Nessa esteira, vale dizer, a arte, na sua tradição, passou a ser um acesso metodológico de uma cultura ultra institucional e que, no sentido da crítica do gosto, já discutida por Kant (século XVIII), funda um sentimento estético.[1] Ou seja, o julgamento acadêmico de que se trata aqui a arte tradicional a partir de um conjunto e belas artes (sim, há cursos acadêmicos no mundo inteiro com esse título, lembremos!) funda o sentimento estético em relação a tais obras. O respeito judicativo antecipa aqui o próprio status do apreciativo. Claro, isso deve ocorrer com outras obras que não tradicionais, mas em relação à tradição, o julgamento antecessor do sentimento de apreciação é sintomático.

Uma coisa não podemos negar: a “história” está sempre à espreita. Mas não falamos mais em história como passado. Talvez isso que chamamos de pós-modernidade seja um estágio da modernidade, como pensava Belting, mas talvez em um estado do que Arnold Gehlen (1904-1976) chamou de “cristalização cultural”. Curiosamente, vivenciamos algumas conjunturas que  que – claro, não inteiramente, –  grande parte dos filósofos estetas prenunciavam o que deveria ocorrer em relação a arte e sua crítica. Os pensadores do século XVIII, Leibniz (mesmo com o seu deísmo), Diderot, Lessing (por mais que seja retrógrado), Hume, Burke, Kant (a contragosto da crítica contemporânea a partir da estética antropológica de Pierre Bordieu), são operantes, mesmo que demasiadamente não atuais.

Uma coisa devemos aquiescer, ao lado de Hegel, outro filósofo operante, é que a história da arte em seu módulo antigo está destinada ao “sem sentido”. Mas, o perigo disso está em abordar a história da arte como um “fim” estanque, uma cronologia finda e, da maneira mais pobre possível, didática. A história da arte deve ser entendida como uma coisa finda, sim, mas não apenas isso. O problema permanece. E, insisto, tal problema é o significado do “fim”. A tese do “fim” da história da arte culmina por ser uma ferramenta (este termo é feio, concordo) necessária contra os argumentos comuns de que a arte contemporânea não tem sentido e de que é mais válido escutar Mozart que Steve Reich ou que é melhor contemplar Caravaggio que Malevich. É, sobremaneira, contra esses absurdos – não quero dizer que o melhor é o inverso, mas que tudo implica em um tipo de arte – que, acredito, a tese do “fim” da história da arte deve ser discutida, porque aqui o que se revela é exatamente um sentido mais apurado e maduro do “fim” e não o mero termo violento de que o “fim” acaba com tudo. Termino com as palavras, sempre, e por demais, cabíveis, de Hans Belting: “quer se fale de arte, de cultura, que de historia ou de utopia, todo conceito é colocado entre aspas para poder levá-lo ainda mais longe na dúvida indicada”.[2] Neste caso, como perceberam, propus aspas no termo “fim”.

* Doutoranda em filosofia (UFPB).


[1] Cf. Immanuel KANT. Kritik der Urteilskraft, Frankfurt, Suhrkamp, 1974, §14, 39. (_____. Crítica da faculdade do juízo. Tradução: Valério Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005 p. 69)

[2] Hans BELTING. O fim da história da arte. Tradução: Rodnei Nascimento. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p.17-8.

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