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REALISMO NÃO É REALIDADE

Mário Pedrosa*

 JOHN DOMINIS

Fotografia por John Dominis

Em nossos dias, o documental em pintura ou escultura é um anacronismo irremediável. Por isso mesmo, todas as tentativas feitas de encomenda, ou espontaneamente, para exaltar ou comemorar acontecimentos ou efemérides históricas, ou fatos, políticos ou sociais contemporâneos, não resultam na tela ou na pedra, bronze, madeira ou outro qualquer material, senão em pastiches, em aleijões, em canhestros compromissos entre as exigências plásticas ou pictóricas em si e as necessidades de representar ou ilustrar os acidentes e convenções da efeméride ou do acontecimento. A fotografia ou o cinema baterão sempre e invariavelmente o artista plástico, por mais dotado que seja, nesse empreendimento.

Assim foi, em vão, que Fougeron tentou, na França, pintar a “vida” dos mineiros: o cinema a descreverá sempre melhor. Ainda não nos saíram da memória as maravilhosas imagens da vida em Aran, Bretanha, isto é, uma pedra escarpada sobre o mar, onde habita um grupo de homens e mulheres, documentário exibido numa das excludentes sessões cinematográficas do Museu de Arte Moderna do Rio. Também não nos esquecemos de certos documentários ingleses de Alberto Cavalcanti, entre os quais precisamente um sobre os mineiros de Gales, ao sul da Inglaterra. Que pintura hiper-realista e hiper socialista poderia comprar-se em autenticidade objetiva, em intensidade expressiva àqueles poucos metros de filme?

De Sicca na Itália é e será sempre incomparavelmente superior a qualquer Guttuso, mesmo multiplicado por três, toda vez que o problema for retratar a vida e a miséria proletária do capitalismo decadente da Itália de hoje. Em nossos dias, cabe à máquina, à objetiva severa e implacável documentar os aspectos mais sombrios, ou os mais promissores, da chamada realidade contemporânea, e não a pintores e escultores temperamentais, românticos ou subservientes. A máquina não trai a realidade: o que pode é, ao contrário, acrescentar à realidade. O homem, porém, trai, trai todos os dias, por constituição orgânica, por vocação, por necessidade. E essa “traição” ao conceito do real ainda avulta quando se trata de um artista, obrigado a deixar-se dirigir, em seu trabalho criador, por uma burocracia onipotente ou mesmo por uma ideologia.

Da república dos Doges de Veneza nos resta o esplendor de suas festas e cerimônias públicas, nas telas de seus grandes artistas, de um Carpaccio ou de um Gentille Bellini, por exemplo. A própria miséria, a própria dureza da vida dos camponeses pobres ou dos operários de sinistras minas de carvão, quando transladadas para a tela de um sentimental com o Millet ou mesmo de um autêntico revolucionário como Van Gogh, com o tempo acabam adquirindo uma nobreza embaladora que nunca tiveram. A beleza pictórica tende a predominar sobre o tema ou o assunto, e faz esquecidos os seres humanos que ali estão representados, precisamente para nos comover com a miséria e os sacrifícios de seu viver.

A máquina não idealiza, mas a arte, mesmo a mais “realista”, é o maior instrumento de idealização da realidade. Os artistas russos, obrigados a “documentar”, como se fossem repórteres, a atualidade soviética, não fazem outra coisa senão idealizá-la e,  que é muito pior, não ao sabor da própria imaginação ou pensamento, mas ao gosto dos supremos dignitários do país. Daí vêm as surpresas que vez por outra espoucam sob a aparente homogeneidade espiritual que reina no mundo artístico russo. E daí também a terrível frustração em que vivem os seus maiores artistas, a começar por Maiakóvski, que se suicidou, e a terminar por Eisenstein, que até morrer nunca pôde realizar, à sua medida e à sua vontade, a obra que o seu gênio desejou. Na Rússia de Stalin todos eram idealizados, o chefe supremo, como um Deus onipotente, lá nas alturas, e os operários e o mujik fantasiado de macacão proletário, lá em baixo. De qualquer modo, apesar de denunciados os crimes de Stalin e os abusos que uma burocracia privilegiada e onipotente prática, cotidianamente, com o só viver nas condições em que vive e comanda, a missão das artes ainda continua a ser, no pensamento oficial, de fazer da realidade soviética uma idealização geral, encomendada. O que eles esquecem é que todo “realismo” é idealismo.

Não pode por nenhum ismo na realidade.

 

Mário Pedrosa (1900-1981) – Pernambucano, foi militante político, crítico de arte, pensador cultural.

Este texto foi publicado originalmente no Jornal do Brasil em 11 de Abril de 1957. 

 

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