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NOTAS SOBRE FUTEBOL E FILOSOFIA OU DE COMO A FILOSOFIA VAI AO CAMPO

filosofia e futebol - foto 9

Romero Venâncio*

Na Cultura ocidental a palavra Filosofia sempre teve um significado pomposo. Desde a sua origem diferenciada do mito e bem próxima do que se chamou modernamente de ciência, o “amor à sabedoria” foi sempre ligada a grandes temas. A prioridade de se filosofar a partir de temas sistemáticos passou a ser a razão de ser da filosofia na academia. Temas como lógica, Teoria do conhecimento, Verdade, Metafisica, Politica, Ética, Religião predominaram na história da filosofia (temas ainda hoje importantes, não temos dúvidas). Logo, temas mais cotidianos e de pouca possibilidade de ser enquadrado num sistema. As paixões, as dores existenciais, a vida mais simples, os temas vividos pelas pessoas no seu cotidiano passam a não ser dignos do exercício filosófico. Em dúvida, isto é uma marca da presença do platonismo no horizonte da filosofia ocidental. Desde Platão e sua divisão e hierarquia do conhecimento em “episteme” e “doxa”, dividiu o conhecimento naquilo que era digno e no que não era digno de um conhecimento acadêmico. Merece uma ressalva: sempre tivemos em todos os momentos, “filósofos marginais” (como diz Michel Onfray) que reivindicaram o exercício do filosofar colado à vida de todas as pessoas as como “marginais” não foram hegemônicos nas academias de filosofia.

No século XIX, pensadores como Marx e Nietzsche questionaram de cima a baixo essa compreensão de conhecimento canonizada numa tradição. Esses filósofos, apesar da distancia intelectual entre eles, têm em comum as preocupações da vida concreta fundamento para “um bom filosofar”. E no século XX essa tendência se espalhou no mundo ocidental com o “existencialismo sartreano”, a “cotidianeidade heideggeriana”, o “estético adorniano” ou a “potência deleuziana” e demarcou uma forma mais “humana de fazer filosofia” e mais próxima do que se vive no dia-a-dia. Temas considerados sem importância pela tradição canonizada, passou a ter importância de “primeira grandeza”. A filosofia vai aos cafés, as ruas, aos botequins, etc. É dentro desse espirito que nos últimos 10 anos apareceram algumas revistas de filosofia nas bancas acessíveis a qualquer leitor ou leitora, sem precisar ter uma formação acadêmica completa em filosofia. Começamos a dar dignidade aos filmes ou a literatura para uma forma de filosofia. Mais recentemente temos a coletânea “Filosofia e futebol: troca de passes” (Editora Sulina, 2012). Trabalho coletivo organizado por três filósofos de profissão do Rio Grande do Sul: Luiz Rohden, Marco Antonio Azevedo e Celso Cândido de Azambuja. Como pensam os autores: os trabalhos estão entre “o lúdico e a seriedade” e futebol é sempre um pouco isto num país como o Brasil. Não há nenhuma incompatibilidade entre as “paixões futebolísticas” e a “seriedade da reflexão filosófica”, pode haver e há, uma afinidade eletiva onde algumas situações do futebol encontram seu lugar adequado numa boa e aberta filosofia. São 14 artigos que giram em torno do futebol nas suas diversas configurações. O jogo de futebol como contradição; as reflexões esfero-cêntricas desde a antiguidade grega (artigo magistral do helenista Donaldo Schüler); as relações entre possibilidade e probabilidade nas estratégias no futebol;  futebol e subjetividade; futebol e religião; futebol e arte, etc. O que é mais intrigante, falam do lúdico na mais pura seriedade e num rigor como se estivessem escrevendo sobre o sistema de Hegel ou a  coisa em si kantiana. Com um acréscimo: por essa forma de filosofar, conhecemos mais do Brasil e conhecemos mais da importância da filosofia para a vida comum, sem obscurantismos ou pedantismos tão ao gosto do deslumbre acadêmico. Para os autores, “o futebol encontra-se, por sua natureza própria, vinculado ao tema da subjetividade” (p. 17). Particularmente, vejo com bons olhos para a formação da filosofia no ensino médio. Aqui a filosofia estaria próxima da educação física, das aulas de artes e das discussões de lógica e de estratégia. O futebol ganha dignidade de reflexão séria, sem ficar apenas no senso comum do torcedor. O torcedor tem seus méritos e ninguém tira (o lugar da paixão), mas não podemos reduzir a “arte do futebol” a esse senso comum. Precisamos cavar mais na compreensão de como funciona a política do futebol no nosso país ou de como pode ser “útil” para mediar algumas categorias filosóficas. Os trabalhos da coletânea em questão nos remetem a um tema central na filosofia: a sua condição de pública. Por mais acadêmica que seja uma rigorosa filosofia, ela não pode perder a sua dimensão pública. Esse livro nos mostra como isso é possível através do futebol. O futebol pode e deve ser tratado filosoficamente.

*Professor de Filosofia da UFS

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