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ARTE CONTEMPORÂNEA NA PARAÍBA: VISUALIDADES PERIFÉRICAS

Valquíria Farias*

Portira maiaVista da exposição no Museu de Arte Assis Chateaubriand, Campina Grande. Obra de Potira Maia

 

Brasil/Brasis, artigo de autoria do crítico de arte e curador brasileiro Paulo Herkenhoff, talvez seja a mais esclarecedora análise crítica sobre a realidade da arte brasileira no século 20. Sua diversidade; seus artistas; a multiplicidade de caminhos; linguagens e materiais; como era produzida e sob quais condições/dificuldades políticas, econômicas e sociais são aspectos abordados por Herkenhoff em poucas linhas, quase como uma literatura; na verdade, é uma iniciativa inteligente e feliz para explicar ao leitor que os nossos artistas vivem/sobrevivem múltiplos territórios, “brasis”, e fazem arte com um “doce suor amargo”.

O artigo foi escrito no final da década de 1990. É atualíssimo. Já que quase nada parece ter mudado no cenário artístico brasileiro neste novo século. Daí a razão de mencioná-lo logo no início do presente texto, que trata da exposição Arte Visual Periférica na Paraíba, coletiva composta de 24 obras produzidas por 12 artistas visuais, jovens em sua maioria, residentes e atuantes neste estado.

Esta exposição no Museu Assis Chateaubriand, da Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande, mais do que apresentar um conjunto significativo de obras que reflete bem a produção de arte contemporânea na Paraíba, propõe um desafio ousado e muito importante: lançar novos questionamentos e acender o debate acerca da realidade ainda frágil e precária do circuito de artes visuais paraibano. Isto em relação a outros circuitos de arte no País, mais organizados em termos de políticas culturais, distribuição de recursos públicos e privados.

O entendimento do que vem a ser “arte visual periférica” por parte dos próprios artistas — que são ao mesmo tempo autores e curadores desta exposição, é importante frisar — expressa não somente a constatação dessa difícil realidade local em que vivem e produzem arte. Exprime também a vontade de todos de discuti-la coletivamente, com outros agentes culturais, instituições, galerias e com a sociedade, a fim de tentar superá-la.

Ou seja, existe uma ação estratégica dos artistas periféricos, como eles mesmos se definem enquanto coletivo, de, com esta mostra, mobilizar, chamar ao diálogo a classe artística local e reivindicar dos representantes públicos melhorias para as instituições, os museus e os acervos. Além disso, junta-se também a necessidade de discutir o mercado de arte brasileiro em relação ao incipiente mercado de arte local e, assim, buscar alternativas de acesso e circulação.

Para Paulo Herkenhoff, o sistema de arte no Brasil é equidistante porque segue a lógica colonialista das relações internacionais de poder. Ele diz que “A mesma distância política que separa os grandes centros brasileiros de arte dos centros hegemônicos europeus e norte-americanos parece separar os centros regionais e periféricos brasileiros dos centros hegemônicos do País […]”, exemplificando que “Uma concentração de artistas e de instituições de arte corresponde a uma concentração de renda interna num quadro de graves desequilíbrios regionais estruturais”.

Neste contexto, compreende-se que a condição de ser um artista periférico na Paraíba guarda diversas razões relacionadas à realidade do local que escolheram para viver como cidadãos e artistas à realidade brasileira, ou realidades brasileiras. Razões estas transformadas nalgum aspecto em seus trabalhos, pois são resultantes de vivências práticas e reflexivas a partir de seus entornos.

O que querem os “artistas periféricos” não é nada de novo, mas é algo fundamental e que nunca havia sido colocado como pauta de debates por gerações anteriores de artistas paraibanos. Não desta forma compromissada e organizada. Discutir o meio cultural local também faz parte da vida do artista. Basta apenas começar e compreender a importância política de ser um artista-cidadão. Como diz novamente Herkenhoff em seu artigo: “Na experiência brasileira, o artista não apenas fez arte, mas também teve de construir, muitas vezes, o espaço social e armar a possibilidade política de seu discurso”.

Nesta exposição, não é intenção dos artistas o estabelecimento de aproximações estéticas e conceituais de qualquer ordem (linguagens, materiais, suportes, técnicas, etc.) entre os seus trabalhos. Todos são realizações individuais, não pautados por uma abordagem curatorial mais complexa. Embora haja mesmo a necessidade de mostrar que existe uma produção emergente no Estado e que essa produção não é assimilada pelo público porque, muitas vezes, as instituições culturais não lhe dão a visibilidade devida, associada a um processo formativo, de conhecimento.

Porém, uma aproximação das suas ideias a respeito do que vem a ser a “arte periférica” que produzem pode ser possível neste texto.

A questão das convenções, dos tratados e das regras de conduta criadas pelo homem, na vida e na arte, é discutida, de formas distintas, nos desenhos em nanquim de Américo Gomes, nos retratos em pastel de Carlos Nunes, nas performances de Sandoval Fagundes e nos grafites de Cybele Dantas. Em Américo, há a certeza de lidar diariamente com os esquemas de controle, forjando-os. Em Carlos Nunes, o desejo de vestir-se também do “outro eu”, numa reação afetiva, explosiva e temporal. Em Sandoval Fagundes, no gesto performático/irônico de escapar de amarras de toda sorte, definições em arte, do lugar-comum. “Desenhar como quem faz pipoca” seria o mesmo que desenhar como uma criança que risca uma parede? Nunca se saberá ao certo. As fotografias recortadas de Cybele Dantas são exemplares perfeitos da mistura de linguagens: a fotografia e o grafite, em um suporte convencional, a tela. Sua proposta é experimentar possibilidades de realizar Grafitti e, ao mesmo tempo, desfazer preconceitos em relação à pintura tradicional invadindo seus espaços de circulação.

As geografias dos espaços urbano/rural e da natureza estão narradas nas poéticas desenvolvidas por Antônio Filho, Serge Huot e Luiz Barroso. Para Antônio Filho, o espaço urbano é aquele por onde seu corpo transita cotidianamente. Ele constrói, por exemplo, mapas pessoais de lugares da cidade interligados por artérias de um coração, representado como se fosse uma memorialística do corpo trafegado, subjetividades experimentadas partindo de elementos concretos arquiteturais. Serge Huot é artista francês cuja condição de estar atuando em um território periférico brasileiro, vivendo em constante contato com a natureza local, o coloca numa posição historicamente privilegiada em relação aos demais artistas do grupo. Huot cria esculturas com materiais jogados na praia, restos de poliestireno, como se desejasse construir uma arquitetura da paisagem “outrora natural”, aquela que somente o olhar estrangeiro pode enxergar. Não deixa de ser uma forma de denúncia da ação do homem sobre o meio ambiente. Já Luiz Barroso percorre os caminhos dos signos rupestres incrustados na paisagem rural paraibana, símbolos de nossa formação mais rudimentar, para construir com papel maché uma metalinguagem compromissada com a cultura do homem no Nordeste do Brasil.

Antônio Lima, Potira Maia e Tony Neto conduzem suas poéticas numa relação de alteridade com o lugar do sujeito e seus objetos cotidianos. Antonio Lima produz objetos e instalações re-significados de sua iconografia e paisagem, utilizando-se de conceitos antropológicos, filosóficos e científicos para refletir sobre a transitoriedade da vida humana. Potira Maia registra em fotografias os processos de destruição da memória de personagens desconhecidos da cidade, transeuntes, nos inúmeros sapatos achados “perdidos” ou “abandonados” nas ruas de João Pessoa. Tony Neto “se refaz” em cenas precisas de melancólicos rituais de morte, projetando-se numa imagem potencial do suicida anônimo. Seus vídeos aludem às estranhas mortes por suicídio de moradores da região do Vale do Piancó, interior paraibano.

Raquel Stanick e Wênio Pinheiro recorrem à literatura para produzir suas obras a partir da apropriação de temas como feminino, intimidade, fantasia, amor, sexo, corpo e erotismo. Raquel Stanick se utiliza ainda das novas mídias para colocar em jogo texto poético versus imagem real e, assim, discutir a formação dos clichês nas relações interpessoais. Para Wênio Pinheiro, interessa o desenho de traço agressivo e nervoso do corpo humano, despudorado nas suas mais variadas posições e situações íntimas, à maneira de Egon Schiele, como depositário da mensagem que deseja exprimir ao leitor.

Afinal, para que serve a arte? Acredita-se que uma das prerrogativas mais contundentes da arte, no plano político e crítico, seja a de criar vias de acesso tanto a si própria como ao seu entorno. Assim, é provável que, se o ideal por mudanças no cenário da arte paraibana for mesmo levado a cabo em outras ações futuras do Coletivo Periféricos, com resultados sendo alcançados, não poderemos negar a importância que terá esta exposição daqui para frente.

* Curadora e crítica de arte.

 

* Este texto tem conteúdo inédito e é exclusivo para a Revista Philipeia.

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