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HILD HILST: ENTRE O DESEJO E O NADA

Márcia Fontes*

Romero Venâncio*

 

Hh01Uma análise séria de qualquer dos escritos hilstianos – que compreendem prosa, poesia, peças teatrais etc. – exigiria como tarefa pré-analítica a caracterização dele no conjunto de sua obra, avaliando influências e confluências, procurando afinidades eletivas. A busca de um fio de Ariadne que possibilite cruzamentos semânticos entre a multiplicidade labiríntica de seus escritos poéticos teve a sua dificuldade amenizada pelas edições organizadas pelo professor Alcir Pécora para a editora Globo. Estas edições reúnem livros antes publicados isoladamente ou inéditos, oferecendo, na visão do conjunto, novas e originais possibilidades de leitura. Aqui, não nos dedicaremos ao feito de uma análise séria e aprofundada que requer um olhar maduro e mais experimentado das obras desta mulher oceânica e encantadora, mas, ainda sob o efeito do deslumbramento da leitura dos versos cruzados e ajeitados no livro de nome Do Desejo[1], sentimo-nos instigados a atiçar os outros ao mesmo prazer por meio de um passeio interpretativo pelos poemas compreendidos nesta coleção. E, como todo trabalho hermenêutico é denunciador de subjetividades, ou como diria Gadamer, interpretamos os textos pelo mesmo movimento compreensor que nos permite interpretar-nos, assim, o encontro com os escritos de Hilst nos compromete, coloca-nos em causa como existente, nos desnuda.

Efetuaremos um breve percurso pelos poemas que compõem o livro Do Desejo, seguindo por uma, dentre as tantas possíveis, interpretação que nos servirá de guia: a de que esta composição descreve a relutância da poetisa, sua revelia perante o Nada: destino e condenação da existência. Descreve o dilema de sentir uma paixão voraz, dionisíaca, pela vida – presente, líquida – e o enfezamento diante da consciência de saber-se fugaz. Neste conflito, ela adentrará as vias do gozo, da loucura, da ebriedade buscando a afirmação de um sentido à existência para confrontar o Nada, contra o qual ela dispõe apenas da arma da palavra poética, que transpõe a temporalidade.

Persiste em muitos dos escritos de Hilda a dedicatória ao antropólogo cultural Ernest Becker, denunciando a influência e ressonância da obra deste, A Negação da Morte,nas obras daquela. Becker expõe a dualidade essencial e atemorizante entre consciência que se sabe mortal e inconsciente que não registra a finitude, que não concebe um espaço-tempo morte. Num de seus registros pessoais, há um referente à leitura que a escritora faz da obra do antropólogo: “Releio Ernest Becker. Incrível. Mas se toda essa minha experiência é a dimensão depois da morte então é preciso pensar tudo de novo. Por que o inconsciente não registra espaço-tempo-morte como o consciente? O inconsciente se pensa imortal? Por que?”[2].

Assim, ela percebe imposta a confrontação: a dualidade entre um corpo que se sabe organicamente falível e que busca uma imortalidade por meio da linguagem, da poesia que intenciona transpor pensamentos e produzir simbolismos que a elevam à atemporalidade. Uma relação condenada ao conflito e à angústia, uma vez que mesmo a palavra conseguindo elevar-se à eternidade depende de um corpo para ser dita, então, no fim das contas, a morte vence sempre, ela não consegue ser driblada. Não conseguimos nos mover junto com as palavras para fora de nós mesmos, continuamos presos dentro de um corpo que sabe do seu encontro com a morte.

É justamente uma ânsia de transcendência, uma busca de imortalidade através da poesia, que faz da escrita de Hilda uma errância da linguagem em direção a Deus, em direção ao eterno na palavra. Na ideia de Deus nutrida pela escrita de H.H., existe o inconformismo diante de um corpo organicamente falível, mas também capaz de arrebatamentos eróticos, capaz de transportar pensamentos e de produzir simbolismos que o elevam à categoria transcendente do imaginário, à abstração do tempo e do espaço[3].

Nos poemas disposto em Da Morte. Odes Contínuas, o encontro com a morte toma uma forma erótica. É como se do medo surgisse o desejo de possuí-la, como ela é mesmo, para além dos nomes que a representam. A morte não tem um corpo, Hilda parece querer penetrá-la a partir da poesia, para tornar-se plena, como se o encontro com a morte fosse um gozo que a libertasse da angústia da dualidade.

Se nos poemas reunidos em Da Morte. Odes Mínimas, podemos presenciar, então, o jogo de conquista como exigência prévia à penetração, uma tentativa de conquista do eterno por meio da palavra, Do Desejo nos mostra o desvio dessa consciência diante do terror da morte, a fuga, a traição repulsora, o correr obstinado para longe dela, o apego desesperado ao sensório, corpóreo, sexual, alcoólico, a vestimenta de um nome alternativo que representa a entrega ao fragmentado, inconstante, ao presente: Samsara.

A relação corpórea, sexual, com um amante presente, representa a primeira experiência no itinerário de fuga da angústia provocada pela consciência dessa dualidade. A entrega a um desejo que não atinge a plenitude, mas que nos faz sentir a existência ao mesmo tempo em que se expurga da própria condição temporária dessa existência. Uma entrega à intensidade do gozo carnal, que dá sentido ao seu cansaço, ao invés de uma busca enfadonha pelo sentido vazio do existir. Assim nos faz entender o poema que abre a edição:

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidas. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

A recusa de “caminhar um descaminho”, de subir onde não há rastros, de gritar a um surdo, enfim, a busca de união e compreensão de Deus, do Todo que é o Nada, que é ausência, abismo, se reverte numa “Fome irada e obsessiva” de querer-se viva nas “veias” do amado, uma entrega “àquele que tem carne e osso”: “DESEJO é Outro. Voragem que me habita”.

Porém, a poeta logo reconhece a brevidade dessa satisfação carnal, incapaz de concorrer com a persistência da consciência do Nada. A alegria do carnaval é demasiadamente temporária cedendo logo lugar para a constatação frustrante: “Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras”. Além da brevidade, há nesse refúgio ilusório da corporeidade, do erotismo, a presença de uma outra angústia: a dependência do outro para satisfazer-se, a dependência de um “desejo vizinhante”, a dependência desse desejo sobre ela. O amado torna-se, então, sombrio no caminho perseguido pela poetisa: “um desejo/ sem dono, um adorar-te vívido mas livre”. E ela também se sente escura se ele lhe abocanha “palavras e resíduos”. Nenhum amante é capaz de ocupar o lugar de objeto do desejo. Isto porque “a própria natureza deste é prolongar-se a si mesmo como busca e não satisfazer-se como posse” [4]. A relação é, pois, desvantajosa: é incapaz de libertá-la da consciência do Nada e lhe gera novas agonias por exigir dela um comprometimento para além da saciedade do desejo. Por exigir-lhe alma. Mas a alma está já comprometida com a fuga, com a revelia do seu encontro inevitável com o Nada. Por estar preso nesse desnível, o desejo agora não é mais cintilância. É “cordura. Crueldade”.

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

(…)

Nessa entrega fadada à parcialidade (não à falsidade), tudo plana à superfície. Mesmo as palavras prestam-se ao momento, como peças no jogo da satisfação, do gozo. Mas o querer é vasto, e ainda que ela insista em colar à boca do amado a sua desordem, se percebe “descomedida, árdua, sôfrega”. Este exame, no entanto, não a faz desistir: “construtor de ilusões” ela entrega-se veemente, “como se fosses morrer…como se fosse nascer…”.

Mas será na palavra também que a poetisa encontrará a ligação entre a angústia da brevidade do desejo e a busca de competir com o Eterno. Na palavra, que é vasta, incorpórea, que está além do espaço-tempo, que não apreende a morte tal o inconsciente. Entretanto, a palavra que não tenha a verdade como finalidade, a racionalidade como guia, a seriedade como método. Não é pois, filosófica, mas poética. A palavra que passeia leve sobre o querer, sobre o imaginário inocente da poesia.

Se eu disser que vi um pássaro

Sobre o teu sexo, deverias crer?

E se não for verdade, em nada mudará o Universo.

Se eu disser que o desejo é Eternidade

Porque o instante arde interminável

Deverias crer? E se não for verdade

Tantos o disseram que talvez possa ser.

(…)

Por que não posso

Pontilhar de inocência e poesia

Ossos, sangue, carne, o agora

E tudo isso em nós que se fará disforme?

Rende-se à poesia. Na palavra ela construirá seu abrigo, sob o qual sentir-se-á segura perante o breu provocado pela ausência inevitável do amado (“Breu é quando tu te afastas ou dizes/ que viajas, e um sol de gelo/ petrifica-me a cara e desobriga-me/ de fidelidade e de conjura”); perante o desejo inevitável da carne (“O desejo/ Este da carne, a mim não me faz medo”); e perante a Noite: o velado coração de Deus, “esse que por pudor não mais procuro”.

No último poema dessa primeira parte intitulada Do Desejo, a poetisa parece encontrar um modo de estar com outro e permanecer inteira: vivendo-o na poesia. Imortalizando a si e a ele na palavra. Ela, então, colocará o gozo no pensamento e o desejo na incorporeidade. Ela inverte o espaço de experimentação da existência, não é mais a avidez pelo sexo onde até mesmo a palavra se carnificava. A poesia agora é metafísica, distante do outro, deixando a este a tarefa aflitiva de interpretar os delírios dela. Assim, lemos no poema de fechamento desse primeiro livro:

Pulsas como se fossem de carne as borboletas.

E o que vem a ser isso? Perguntas.

Digo que assim há de começar o meu poema.

Então te queixas que nunca estou contigo

Que de improviso lanço versos ao ar

Ou falo de pinheiros escoceses, aqueles

Que apetecia a Talleyrand cuidar.

Ou ainda quando grito ou desfaleço

Adivinhas sorrisos, códigos, conluios

Dizes que os devo ter nos meus avessos.

 

Pois pode ser.

Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo.

Pensá-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO

É O DESEJO”.

No canto II do segundo livro, Da Noite, ela radicaliza essa inversão abrindo mão do amado em nome de um amor metafísico que se busca traduzir no indefinível. Na fuga do Nada ela adentra um outro nada ao qual, ao menos, ela poderá nomear. É como se para competir com o Nada contra o qual se rebela, ela necessitasse de algo além da finitude do gozo, que tivesse tal qual ele, a força da imperecibilidade. E é na direção deste que ela irá caminhar após dizer adeus àquele com quem partilhou o que agora considera “mitos entre os lençóis”.

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

No terceiro livro, Amavisse (o “ter amado” da forma nominal do perfeito ativo latino), a poetisa encontra-se só consigo mesma e, se nos primeiros poemas deste livro ela aparece louvando a poesia e rogando “Carrega-me contigo. No amanhã”, ela termina “estilhaçada, prenhe de solidões”. O poema II deste livro expressa genuinamente a condição ambivalente do desejo de quem quer apenas na distância que assegura a apreensão do outro. Estando junto, no agora ela se perde, falseia a sua fuga, acomoda os teus anseios na efemeridade dos desejos corpóreos, ela precisa condená-lo à ida, à distância a qual ela mesma se condena, para somá-lo a si na inundação de redes e anseios.

Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

(…)

Sozinha, não tendo mais os olhos do outro, ela agora sai para fora de si para ver-se como “a mulher”, ela desponta na terceira pessoa do singular: “(…) que a mulher parecia adequada numa noite de antes/ E amanheceu como se vivesse sob as águas. Crispada/ Flutissonante”. E no poema X: “(…) A mulher emergiu/ descompassada no de dentro da outra:/ Uma mulher de mim nos incêndios do Nada”. Logo percebe que a mulher precisa de corpo e afagos como o “poeta habita nas ardências”. E, assim, ao renunciar a presença do amado para buscar a inteireza, a vastidão na palavra, no poema, agora ela percebe que o poema necessita daquele, necessita do pertencimento, do mito. E assim, ela clama:

Que as barcaças do Tempo me devolvam

A primitiva urna de palavras.

Que me devolvam a ti e o teu rosto

Como desde sempre o conheci: pungente

Mas cintilando de vida, renovado

Como se o sol e o rosto caminhassem

Porque vinha de um a luz do outro.

 

Que me devolvam a noite, o espaço

De me sentir tão vasta e pertencida

Como se águas e madeiras de todas as barcaças

Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

 

Que eu te devolva a fonte do meu primeiro grito.

A palavra depende de corpo para ser dita e outro para ser ouvida. O segundo refúgio da poetisa recai na mesma dualidade, no mesmo paradoxo da existência que a angustia: o de pertencimento e o de perpetuidade. Isto é, tanto o desejo quanto a palavra são dependentes de complementos, ambos possuem parentesco na falta, exigem um pertencimento que mais a distancia do Eterno. E, no momento mesmo que sacia o desejo e que expõe a palavra ela a perde. E nessa aporia de perdas, ela radicaliza: “Por perder o mundo/Separo-me de mim. Pelo Absurdo”.

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Após lamentar o poema, como barcas afundadas, pergunta-se se “a perfeição não seria o não dizer/ E deixar aquietadas as palavras/ Nos noturnos desvãos”. Silenciosa e em companhia da loucura, a poetisa seguirá sua Via Espessa. Neste quarto livro, a voz não é mais dela e sim do “louco” que em alguns versos ela mesma afirma ser a sua sombra. Nos poemas reunidos neste livro, a poetisa habitará “o campo de estalagens da loucura”. A loucura dará luz à noite dura e solitária da “mulher” sem pertencimento, sem mundo, separada dela mesma, do outro e da palavra, nessa fuga incessante do Nada.

Samsara: aquilo que caminha em círculos. Com esse nome a poetisa será chamada pelo louco que é a sua própria consciência. Uma consciência dura, irônica, atrevida que lhe provoca a austeridade, o enfezamento, a obstinação em abrir mão do corpo e da poesia em busca na recusa do efêmero na competição com o Eterno.

(…) – Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?

Por que não deixas o fogo onividente

Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder

Casando o Onisciente à tua vida?

É na solidão e no silêncio que a poetisa dá voz à sua própria consciência. E esta lhe orientará ao enfrentamento com a munição que já possui: o grito e a pena.

Não percebes, Samsara, que Aquele que se esconde

E que tu sonhas homem que ouvir o teu grito?

Que há uma luz que nasce na blasfêmia

E amortece na pena? Que é o cinza a cor do teu queixume

E o grito tem a cor do sangue Daquele que se esconde?

Vive o carmim, Samsara. A ferida.

E terás um vestígio do Homem na tua estrada.

Em seguida, concluindo este quarto livro e representando o momento divisório entre a fuga e o enfrentamento, o louco da consciência exorta com erudição:

– Ipseidade Samsara. Ipseidade senhora –

 

E enfeixando energia, cintilando

Fez de nós dois um único indivíduo.

“Ipseidade”: do latim ipseitas, derivado de ipse, denomina o indivíduo nele mesmo. Na fenomenologia, a ipseidade caracteriza o Dasein heideggeriano em sua existência ou seu ser-no-mundo antes da constituição do eu como sujeito[5]. Neste sentido, religada à própria consciência e de posse da sua individuação como ser existente no mundo, a poetisa enfrentará Deus no quinto livro, Via Vazia, usando como arma, o grito, a blasfêmia, a palavra, para quem sabe assim, como havia dito “o louco”, Ele venha mostrar-lhe a sua Grande Face.

Eu sou Medo. Estertor.

Tu, meus Deus, um cavalo de ferro

Colado à futilidade das alturas.

Este livro, hipnótico, transgressor, corajoso, descreve o grito, o enfrentamento, a invocação da poetisa pela presença do Pai, um sinal pelo qual há tempos ela fareja e fareja, por algo com o qual Ele se assemelhe. É o encaramento da possibilidade do fim: da busca, das perguntas, do mistério, da angústia. Numa peleja verbal e desesperada de insultos e ofensas para provocar uma ação, um surgimento Daquele que lhe é “Indiferente. Bufo”.

PEDRA D’ÁGUA, ABISMO, PEDRA-FERRO

Como te chamas? Para que eu possa ao menos

Soletrar teu nome, grudada à tua fundura

Na agonia de uma luta verbal com um surdo-mudo, com o silêncio, ela, então, se impõe em ameaças: “O Tempo não roerá o verso da minha boca. (…) o Tempo não viverá se tocar a minha boca”.

Em Alcoólicas, o penúltimo livro, a poetisa aparece num encontro vigoroso e embevecido com a Vida, “crua”, “generosa”, “Líquida”. E será nessa liquidez que ela se derramará. O álcool, agora, representará a via de acesso ao ser, ao mundo, ao Todo, tornado remanso e digno depois que ambas, a poetisa e a Vida, sentam-se à mesa “Diante do coruscante ouro da bebida”.

Um encontro intenso com a Vida, como uma amiga, como duas senhoras, para a existência da poetisa ser marcada na lembrança da Vida, quando esta dela se afastar. A amizade com a vida, o adentrar a sua essência líquida, parece uma última tentativa de permanência.

Se um dia te afastares de mim, Vida – o que não creio

Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida –

Bebe por mim paixão e turbulência, caminha

Onde houver uvas e papoulas negras (invente-as)

Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te

Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.

(…)

Por fim, em Sobre a Tua Grande Face, ela rende-se ao Sem-Nome, reconhecendo na Ilusão e na busca o próprio sentido para o estar no mundo. Ela veste, recuada, a fantasia da existência ao reconhecer-se como Nada que possui “ossos e abismos”. E, na metáfora, seguirá a sorver a liquidez da Vida, o fragmentário, sorvendo nela a imagem do Eterno.

De tanto te pensar, Sem-Nome, me veio a ilusão.

A mesma ilusão

 

Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.

De te pensar me deito nas aguadas

E acredito luzir e estar atada

Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.

De te sonhar, Sem-Nome, tenho nada

Mas acredito em mim o ouro e o mundo.

De te amar, possuída de ossos e de abismos

Acredito ter carne e vadiar

Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar

Tocando os outros

Acredito ter mãos, acredito ter boca

Quando só tenho patas e focinho.

Do muito desejar altura e eternidade

 

Me vem a fantasia de que Existo e Sou.

Quando sou nada: égua fantasmagórica

Sorvendo a lua n’água.

Nessa ilusão, ela reconhece com Ele uma relação de interdependência essencial. Como numa relação fenomenológica, Ele existe como objeto da busca dela, Sua existência é apreendida nos versos e nos nomes que ela lhe presta: “Porque vives de mim, Sem Nome,/ Sutilíssimo amado relincho do infinito e vivo/ Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem/Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas (…)”. Entretanto, a verdade da condição da “mulher” e da poetiza não muda, a Ilusão não lhes concede perenidade, permanecendo o dilema: a sua condição de “poeta” que lhe permite acoplar-se ao Eterno, pela atemporalidade da palavra, está necessariamente condicionada à sua existência enquanto “Homem”. Existência que, por sua vez, pode deixar de ser a qualquer momento, por “fadiga”, “plenitude”, ou capricho Daquele.

Em minhas muitas vidas hei de te perseguir.

Em sucessivas mortes hei de chamar este teu ser sem

Nome

Ainda que por fadiga ou plenitude, destruas o poeta

Destruindo o Homem.

Uma busca na qual insiste, não em resignação, mas como um condenado que segue, altivo e cantante, o destino da forca. Nesse caminhar em círculos, sem saída, nessa busca aporética a poetisa anuncia o retorno das ambivalências, das dualidades. Diante do duplo rosto de Deus ela sente-se seduzida, mas também cansada, injustiçada. E o recurso que lhe resta – o “verso”, “o excesso” – lança-o a Deus numa espécie de vingança que coroa a estrofe final deste último poema:

Escaldante, Obscuro. Escaldante teu sopro

Sobre o fosco fechado da garganta.

(…)

Emergindo do luto

Vem vindo um lago de surpreendimento

Recriando musgo. Voltam as seduções.

Volta a minha própria cara seduzida

Pelo teu duplo rosto: metade raízes

Oquidões e poço, metade o que não sei:

Eternidade. E volta o fervente langor

Os sais, o mal que tem sido esta luta

Na tua arena crispada de punhais.

 

E destes versos, e da minha própria exuberância

E excesso, há de ficar em ti o mais sombroso.

Dirás: que instante de dor e intelecto

Quando sonhei os poetas na Terra. Carne e poeira

O perecível, exsudando centelha.

***

Referências:

HILST, Hilda. Do Desejo. São Paulo: Globo, 2004.

HILST, Hilda. Registro pessoal. Disponível em: http://www.hildahilst.com.br/obras.php?categoria=8. (Acesso em: 13/01/2013).

TISCOSKI, Luciana. Na Negação da Morte, um Biografema de Hilda Hilst. Revista Fazendo Gênero. Edição número 09: Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. Agosto de 2010.

[1] Lançado em 2004 sob a organização e edição do professor Alcir Pécora, Do Desejo é a reunião de sete livros de Hilda Hilst – Do Desejo (homônimo do título do conjunto), Da Noite, Amavisse, Via Espessa, Via Vazia, Alcoólicas e Sobre a Tua Grande Face – dispostos não em ordem cronológica, mas numa ordem concebida pela própria escritora oferecendo possibilidades originais de leitura.

[2] HILST, Hilda. Registro pessoal. Disponível em: http://www.hildahilst.com.br/obras.php?categoria=8. (Acesso em: 22 de janeiro de 2008).

[3] TISCOSKI, Luciana. Na Negação da Morte, um Biografema de Hilda Hilst, p. 03.

[4] Pécora, Alcir. Nota do Organizador. In: Do Desejo, p. 09.

[5] J. Baiard. http://www.sophia.bem-vindo.net/tiki-index.php?page=Ipseidade.

 

 

* Mestre em Filosofia pela UNICAMP.

* Professor do Departamento de Filosofia da UFS.

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