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ACORDEI CEDO DEPOIS DE DORMIR MAL

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 Sidney Summers*

A forma mais fácil de enlouquecer continua sendo a mesma, a longa estadia sob os cuidados do isolamento, a entrega incondicional e involuntária à solidão. As vezes esse é o caminho mais agradável e nem chega a ser difícil. Os yogis e ascetas até apostam, barganhando com a fé, que ganharão poderes ou evoluirão com a privação. De qualquer sorte, este não é o único meio. Bem o digam os santos anacoretas que se banharam na lama e na podridão para se purificarem. Paulina estava no meu quarto, literalmente, debruçada sobre meu mapa astral. “Uma lua dignificada em câncer, que problemão voce tem” e continuou: “Venus em aquário na casa três? Casa natural de gêmeos, sujeito inconstante no amor, voce…” Fui ao banheiro. Admirei minha cueca quando defrontado ao espelho. Era cor de vinho. Comprei-a com a certeza que sua cor era viva e atraente, mas ela era de um verde musgo meio morto e nojento, um equívoco na tradução daltônica dos meus olhos. Melhor continuar com o latim.

Eu estava pronto para mijar quando notei a presença que me encarava à direita do vaso. Tentava me intimidar, suponho. Outra, mais tímida, permaneceu escondida detrás da latrina, cúmplice dos auguriosos protestos do inseto líder. Talvez fosse apenas um jovem casal cuja foda fora interrompida. Aqueles eram os melhores momentos. Retirei-me do cômodo me dirigindo ao quarto. Paulina estava ainda na mesma posição, ainda estava entretida com o meu mapa. “Plutão dignificado, regido por escorpião, percebo aqui uma tendência a autodestruição. Thanatos subjugaria facilmente a Eros se não fosse essa sua simpática venus associado ao seu marte também em escorpião. Mas pelo que, até então, conheço, voce só desenvolveu as características negativas e impulsivas dos seus signos regentes. Seu marte natal na casa três ou quatro…”.

Sensação estranha. Acho que não conseguiria manter mais qualquer segredo oculto da Paulina. Ela tinha uma missão: me dissecar astrologicamente. Finalmente eu seria decifrado economizando a fortuna necessária para que o analista fizesse o mesmo. Cada um vive sua realidade. Parte por escolha, parte por imposição, decolando em livres vôos pelas prisões inescapáveis do nosso momento histórico. A minha consistia em dirimir o prazer dos insetos. Ao menos, naquele momento. O inseticida corrompe a moral humana. Mesmo Rousseau reformularia sua perspectiva acerca da bondade natural do homem se, ao advento do inseticida, presenciasse. As cubro com a nuvem de brancura e morte, espectador do estertor que se aproxima decisivo. Aranhas, formigas grandes, baratas… Qualquer coisa serve. E sempre sobra um agradabilíssimo aroma de eucalipto.

“Sol em aquário com ascendente em peixes. Acho lindo quando voce não funciona bem de acordo com a realidade”. A realidade é como chamamos esse sonho absurdo em que absurdamente existimos! – penso. Talvez eu te ame mais do que imaginas, Paulina. Mas não é por falta de coragem que não assumo isso. Uma boa crusta é necessária para proteção. Uma boa casca serve para amenizar as quedas, até que uma ponta de nariz frio revele um sentimento, até que o tremor de uma perna numa noite quente denuncie uma emoção. Procuro pelo capítulo do Grande Inquisidor, Irmãos Karamazov.

***

* Escritor soteropolitano, nasceu em 1986. Co-autor dos livros “Ratos com Asas” (Clubedeautores) e “Pão com Recheio de Sobras” (ainda inédito), autor de “Prazer, Sid!” (AgBooks), “Como os Velhos Cães” (Coisa Edições) e “Os Dias Quentes se Arrastam Mornos” (coletânea a ser publicada também pela Coisa Edições). Tem textos publicados em diversas revistas nacionais (Ellenismos, Cruviana, Jornal Relevo, Desenredos, Cinzas no Café, Verbo 21, dentre outras) e internacionais (Moçambique, Argentina, Portugal, Suiça e México). Como roteirista trabalhou nos curtas “Olho Mágico”, “Aroma Café com Cinzas” e na web-série de quatro capítulos “Mata Alta”. É co-editor da revista Evoé, membro do conselho editorial da revista Cruviana (6° edição) e estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA.

 

 

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