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LIMINARIDADE, MARGEM CRIATIVA E A LÓGICA CONSTITUTIVA DA APRECIAÇÃO ESTÉTICA

 

Beano Regenhaux*

Ao presenciar comentários de espectadores de filmes em sites como o filmow, deparo-me com expressões tipo ‘’formalismo’’ e ‘’hermetismo’’ para certas obras com teor um tanto autoral e experimental. Isto me provoca um ligeiro mal estar, pela disposição repetitiva de tais formulações, munidas de nenhuma exploração argumentativa a respeito das alegações embutidas. São fórmulas fáceis para indicar estranhamento perante a apreensão dos dados filmicos, implicando em uma quebra de expectativas na performance exigida para o momento de apreciação da obra. Devido a esta minha inquietação, decidi escrever este texto para refletir a respeito da lógica constituinte dos juízos de apreciação estética dos espectadores, tanto leigos quanto estudiosos de cinema, visando expor o condicionamento que promove tal postura convergente de suas disposições.

Centralizando a discussão acerca dos libelos “hermetismo” e “formalismo”, gostaria de desconstruir essas noções envolvidas no que tangem ao princípio de concepção artística e a fenomenologia da experiência de apreciação, uma vez que, segundo esta perspectiva, tanto a concepção quanto a apreciação nunca serão esgotadas pelo autor, nem pelo público a despeito dos momentos históricos e culturais específicos. E ulteriormente tomo de empréstimo as noções relativas à liminaridade – as dimensões liminal e liminoide – desenvolvidas pelo antropólogo Victor Turner, cujas formulações destacam as diferenças de experiência na lógica   – sintaxe e semântica – da composição ritual nos contextos das sociedades tradicionais e complexas.

Parto do pressuposto que a acusação de formalismo resulta da exigência de certas formalidades implícitas, que condicionam a apreciação estética pelo exercício de exposição continuada e naturalização e sob um monopólio tributário de uma lógica que submete as sensações e a cognição ao plano da linguagem verbal. Tais princípios responsáveis por esta lógica são o da narrativa linear, sublinhados pela coesão e coerência dos elementos contidos na obra audiovisual, de forma que o filme reproduza e alinhe o seu processo de sua construção ao de um texto escrito; sintática e semântica unilaterais, sentidos direcionados para um máximo índice de convergência entre autor e público, o filme reduzido a um simples veículo de mensagem e deslocado de suas propriedades criadoras. Tais configurações representam em grande parte o triunfo da gramática hollywoodiana no cinema sobre o jugo estético dos espectadores e de setores da crítica especializada

Discordo da atribuição de ”hermetismo”, por alguns críticos, para a obra de Glauber Rocha, por exemplo, pois o verdadeiro formalismo é a formalidade proveniente da cristalização pedagógica do formato linear hollywoodiano, a partir de uma concepção única que exige uma aproximação com o formato do texto contínuo e horizontal da prosa, na qual a transmissão do conteúdo verbal e a montagem se subjugam a esse ritmo uniforme, que visa uma doutrinação e condicionamento da apreensão estética dos espectadores.

O  verdadeiro hermético é aquilo que exige cortes na pesquisa formal e na inspiração do autor. A obra não pertence ao público, nem ao autor, este último apenas apresenta um olhar sobre a realidade de forma estilizada, expressando vieses possíveis sobre o real. O essencial no cinema é o olhar que se lança sobre a realidade, como matriz expressiva e estilística, e não a representação fiel, monolítica, de um assunto ou a sua redução à narrativa verbal – chamo isso de um vício de avaliação da arte, que é uma expectativa ou exigência criada diante da obra que desconsidera totalmente sua especificidade.

Quando a dimensão mercadológica e profissional dos imperativos do sistema de produção e a de alinhamento com a estrutura política e jurídica da sociedade determinam as disposições e ações dos sujeitos, entra em vigor o que Victor Turner delimitou como a esfera liminal da atividade ritual, que neste caso é substituída pelas “opções de lazer e entretenimento” nas sociedades complexas. A distinção entre as esferas liminal e liminoide segundo Turner consiste no caráter obrigatório da primeira e no de opcional na segunda, sendo esta última despojada do compromisso com o reforço e a reprodução das instituições sociais. A inversão temporária das regras e o gérmen para inovação e subversão presentes no contexto ritual podem tanto reafirmar a estrutura social e leis vigentes (como no contexto liminal, e cito o exemplo de formas de expressão tributárias dos rituais sazonais como o carnaval), como apresentar lógicas alternativas e questionamentos aos construtos sociais – contexto liminóide). O desenvolvimento da esfera liminoide é sublinhado pelo autor para as sociedades complexas, onde se disseminam o individualismo ocidental, o pluralismo de conteúdos simbólicos e informativos e em suas opções expressivas de entretenimento e atividades de desopilação, quando envoltas em micropolíticas do sujeito. Fazendo a interface entre as esferas liminal e liminoide e a acusação de formalismo que repousa em exigências formais, percebo um exercício obstrutivo do conceito liminal se inserindo na potencialidade expressiva liminoide, presente nas vanguardas estéticas.

Ainda a respeito da intromissão da dimensão liminal na liminoide presente em vanguardas estéticas, o autor afirma: “the so-called “high culture” of complex societies liminoid is not only removed from a rite of passage context, it is also “individualized”. The solitary artist creates the liminoid phenomena, the collectivity experiences liminal symbols. This does not mean that the maker of liminoid symbols, ideas, images, etc., does so ex nihilo; it only means that he is privileged to make free his social heritage in a way impossible to members of cultures in which the liminal is to a large extent the sacrosanct” . Destaco neste trecho transcrito a disposição para o fator de consagração e sacralização da estrutura social, frisada para sociedades em pequena escala ou em setores conservadores, o que está longe de atender a demandas e privilégios “burgueses” que preconizam e valorizam a autonomia da arte por si mesma, “sem funcionalidade social”, segundo uma acusação tipificada proposta por um suposto “bolchevismo estético’’. O ataque conservador e liminal aplicado às vanguardas expressivas da sociedade são irradiados de preocupações uniformizantes provenientes, seja de setores estatais como foi na Rússia bolchevique, seja de corporativismos mercadológicos e oligopólios midiáticos que visam cristalizar um padrão formal de estilo e transmissão de conteúdos simbólicos. Tais boicotes se aproximam de requisições formais e rituais das sociedades tradicionais a partir da dimensão liminal, os quais representam não uma falha comunicativa das vanguardas mas sim um temor pela alteridade expressiva, uma vez que subestimam a capacidade de apreciação estética dos espectadores ou são oportunistas por aproveitar de um contexto desprovido de informação variada, disputando ou monopolizando atenções e pleiteando um exclusivismo condicionante das disposições destes últimos.

Citação: TURNER, Victor. Liminal to Liminoid, in PlayFlow, and Ritual: An Essay in Comparative Symbology. New York: Performing Arts Journal Publications, 1982.

* Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB.

 

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