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O SENTIDO DA VIDA EM “MORTE E VIDA SEVERINA”

 

A Jessé e Iago, que ensinam-me o sentido da vida!

Jomar Ricardo Silva*

 

João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999), poeta, diplomata pernambucano, filho de proprietários de engenho, permanece em São Lourenço da Mata e Moreno, Zona da Mata, até aos 10 anos de idade, quando muda-se para a cidade de Recife. Primo do sociólogo Gilberto Freyre e do poeta Manuel Bandeira. Em 1942 estabelece residência no Rio de Janeiro, onde publica seu primeiro livro de poesia, Pedra do Sono. Sua obra mais divulgada, Morte e vida Severina: auto de Natal pernambucano (1954-1955), recebeu publicação em 1956.

Nosso objetivo é realizar uma reflexão sobre temas que perpassam a escrita desse poema. A saber, questões de caráter existencial, como a morte, a transcendência, o suicídio e de aspectos sociais, informadas pelas diferenças de classes, latifúndio, exploração e dominação interpessoal.

Inicialmente, Severino, o protagonista, tenta apresentar sua identidade, dizendo o nome próprio, homônimo de santo, com o qual foi batizado: “ – O meu nome é Severino / não tenho outro de pia.” Todavia, resvala em outra dificuldade, em razão da sua graça ser muito comum na região em que nascera. Portanto, passa a se chamar Severino de Maria, por conta de sua mãe, que existem amiúde muitas atendendo por este nome. Dessa forma, apela ao nome do pai, finado Zacarias, fracassando mais vez na autodenominação:

“fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.”

Severino revela uma característica da sociedade brasileira, no tocante a uniões conjugais informais e poligâmicas, praticadas por pessoas do gênero masculino, com poder econômico, em relação às mulheres empobrecidas. Essas cópulas não concediam direitos de propriedade às genitoras, tão pouco de herança aos seus descendentes. Seu pai, supostamente um coronel Zacarias, latifundiário, tenha conhecido muitas Marias, moradoras de suas terras, submetidas a condições de exploração que ultrapassavam as relações de trabalho. As relações de dominação se reproduziriam por gerações, entre os Zacarias legitimados (filhos, netos e bisnetos) e os filhos (Severinos) e filhas (outras Marias) deserdados de Maria.Morte e vida

A realidade da qual Severino seria consectário, anula o poder das palavras para designá-lo. Então, ele pára de dizer quem é, porque quanto mais de si dizia, mais niilificava-se, devido a sua individualidade estar diluída entre tantos Severinos, “iguais em tudo na vida.” Na impossibilidade de não ser, Severino parte para outra maneira de se dizer, através de sua trajetória existencial:

“Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra”.

A existência de Severino, em suas particularidades, possibilita as condições para sua realização no mundo. Seu passado, marcado pela cultura em que emergiu, torna-se elemento importante para sua compreensão presente. Mas Severino é um ente que, de forma contínua, se faz em ser, sem a separação de essência e existência. Essas constituem-se na medida em que o indivíduo se depara com as condições de realização das ações. Em uma palavra, somos o que fazemos na vida. Enquanto a plena liberdade apenas se efetiva com a morte.

A morte motivo maior de seu êxodo, companhia constante da peregrinação, resulta do contexto social, mais precisamente, da miséria que dissipa as pessoas pobres da região Nordeste do Brasil termina por encarnar-se em forma de violência e fome.

“que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).”

A trajetória de Severino, marcada por diálogos com os vivos e reflexões diante dos mortos, enfim sua história circunstanciada, ao longo da caminhada, obriga-lhe a busca pelo sentido da vida. Nessa acepção, a morte do outro, seu igual, pois a morte nivela todas as diferenças, é a grande mestra da vida. Todavia, as formas de morrer perdem suas abstrações e ganham materialidade por virem a ser conseqüências das diferenças sociais. O irmão das almas é denominado “um defunto de nada”, pressupondo a posição no sistema de classes que na vida ocupava. Severino Lavrador, pelo nome um agricultor, morreu de morte matada, de bala, numa emboscada, cuja justificativa de morte foi “- Ter uns hectares de terra, / irmão das almas, / de pedra e areia lavada / que cultivava.”

Uma terra infrutífera, qual motivo de matar a ave-bala, por que matar por tão pouco? A resposta está na ganância dos grandes proprietários que querem espalhar-se como donos, confundindo a necessidade de realização do ser com a opulência do ter. Produto dessa alienação, uma tensão existente na sociedade capitalista, leva os detentores da acumulação à condenação (não realização), e a negação à vida de muitos, que não se realizam por faltarem-lhe os bens mínimos para sobrevivência. Na arena social, o mais forte elimina de modo simbólico, real e físico os menos aquinhoados da riqueza proveniente do trabalho, pela impossibilidade de erigir-se um Estado para arbitrar, com isenção, os direitos das partes em conflito.

Nasce conseqüentemente a injustiça, por não haver reparação dos danos materiais e impetrados contra a vida, o bem maior, daqueles expropriados. O sentimento de justiçaecoa com sutileza dos versos do poeta, ao denunciar a impunidade: “- E agora o que passará, / irmãos das almas,/ o que é que acontecerá / contra a espingarda? / – Mais campo tem para soltar, / irmão das almas, / tem mais onde fazer voar / as filhas-bala”.

Diante da realidade hostil, Severino tem a morte não como algo distante e estranho, como querem compreender as instituições sociais, que tornam o morrer um fenômeno privado em CTIs hospitalares.Tornam a morte um mistério e dando a conotação, quando do desfalecimento de um parente, de choque emocional, em que se vai recompondo aos poucos, por não ter havido a assimilação anterior do processo, em elaboração na mente e no corpo, durante todas as experiências vivenciadas. Em estado psicológico normal, não pensa-se na morte, ela é evitada e o medo que se tem dela resulta da ignorância a respeito, entendendo-se que ela faz parte da realidade somente do outro. Apenas quando sentida a dor da perda de alguém, se é levado a pensar, através dessa morte, na vida. Por isso ela ensina a viver.

Severino, como se vê desde o início do poema, é projeto inacabado, que vai se tornando ao saber o que representa a vida através da morte. Nessas situações, ele se depara com a necessidade de transcender, impulsionado a ser aquilo que ainda não foi, pois: “quem pensava encontrar vida, / e o pouco que não foi a morte / foi de vida severina / (aquela vida que é menos / vivida que defendida / e é ainda mais severina / para o homem que retira).” As situações limites levam o homem a encontrar forças para continuar vivendo. .Pujança que ele admitia não
possuir. Severino vence a fatiga, sede, a falta de trabalho que tanto procurava e segue a jornada.

Ao chegar em Recife, Severino descansa ao pé de um muro branco e escuta a conversa de dois coveiros. Esses auxiliadores da morte ensinam-lhe as diferenças existentes na vida em sociedade. A morte é uma representação em que as classes abastadas a levam a cabo através das distinções que notabilizam o cemitério dos ricos, localizado no “bairro dos usineiros, dos políticos, dos banqueiros, e nos tempos antigo, dos bangüezeiros”. Em determinados cemitérios “para lá vão os jornalistas, os escritores, os artistas, bancários, comerciários, lojistas e boticários.” No subúrbio se enterram os industriários, ferroviários, rodoviários e praças – de – pré dos comerciários. Ainda há os arrabaldes dos indigentes:

“- É a gente sem instituto,

Gente de braços devolutos;

são os que jamais usam luto

e se enterram sem salvo – conduto.

– É a gente dos enterros gratuitos

e dos defuntos ininterruptos”

Severino fica de oitiva na conversa dos coveiros, tomando conhecimento do que a população da capital pensa sobre pessoas iguais a ele. Fica ciente do que lhe espera de trabalho no manguezal e da comida, tirada da lama, que lhe sustentará.

“— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.

Escuta não apenas a respeito da dura realidade que se avizinha, ele tinha superado coisas mais duras, mas sente compungido, as palavras de desprezo proferidas pelos enterradeiros, dizendo como deveriam tratar os retirantes no enterro. Os juízos que eles fazem sobre indivíduos de sua estratificação, ferem-no profundamente, a ponto de interrogar-se sobre o porquê continuar vivendo. Em diálogo com Seu José mestre carpina, alusão ao nome de José, pai de Jesus, Severino externa seu propósito de pôr fim a vida:

— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

Todavia, surge nos entremeios da conversa entre os dois, uma mulher que anuncia o nascimento do filho de José, mestre carpina. Possivelmente é uma resposta, com a própria vida, a pergunta feita por Severino a mestre carpina:

“ – Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.”

O auto de Natal chega ao fim, depois de discorrer uma vida negada a todo instante, com o princípio da vida. O nascimento do filho de mestre carpina é o grito esforçado da vida que insiste em ser, apesar da irracionalidade e absurdo que ela parece, quando confrontada com a morte. Dois aspectos entram decisivamente para justificá-la. O cuidado, representado na solidariedade dos consortes que chegam da vizinhança, trazendo ofertas ao recém-nascido e a esperança demonstrado pelos prognósticos das ciganas. A vida vale a pena ser vivida? O final do poema Seu José carpina responde:

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

 

* Sociólogo e professor da UEPB.

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