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DO MORRER POR AMOR: UM EQUÍVOCO

Patativa Moog*

 Death-of-love

Quando Eco viu Narciso, moço lindo como Apolo ou Dionísio, enlouqueceu: estava apaixonada; estava perdida. Por quê? Porque amor é desejo, e desejo é falta, e falta é sofrimento. É Sócrates quem diz, n’O banquete: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”1; e Sartre: “O homem é fundamentalmente desejo de ser”, e “desejo é falta.”2

“Todo sofrimento vem do amor e da inclinação [desejo].” Mestre Eckhart ensina3. “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.” É doutrina budista, simplificada na letra de “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, de Renato Russo4. Os dois ensinamentos dizem a mesma coisa, embora as perspectivas distintas.

Tão logo nascemos somos doutrinados a acreditar que a ausência da dor seja uma felicidade5, e que a verdadeira felicidade é prêmio do amor, resposta positiva ao Amor6. Assim, no que tem de puro e venturoso, o amor mundano é reflexo imperfeito e difuso daquele Outro, supramundano, perfeito e eterno. “Mas”, alguém pode dizer, “você está confundindo amor com paixão; e amor não é paixão”. É o mesmo alguém que, de tantas certezas quanto à diferença, vacila duvidoso quando procura conceituar o que seja esse mesmo… “amor”, e também a paixão. Quem pensa assim, comum das vezes, garante que amor é coisa divina (e daí procedente), diferentemente da paixão, que é coisa rasteira, cá da terra, dos homens. Tal vício e engodo vêm de longe, e parece que durará para sempre – pois o amor romântico é um ótimo produto para o mercado literário7 e cinematográfico, e para a Indústria Cultural, em seu sentido mais abrangente.

Na segunda das Quatro Nobres Verdades do Budismo, “a causa do sofrimento é o desejo ardente da vida individual”, ou do Eu consciente-individual: “toda a nossa infelicidade decorre de um eterno querer-viver”8. Na lição de Panchadasi, o resultado do desejo realizado, é o retorno ao Eu – e ele não é um lugar feliz: “Como farei para agarrá-lo? [O objeto do meu desejo…] Não o agarre. O que sobra, quando não se agarra mais nada, é o Eu.9” Comte-Sponville cita George Bernard Shaw: “Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.10” Não há saída. A não ser que não exista mais o Eu… Mas aí, consequentemente, não haveria a minha consciência sobre o prazer ou a dor. No mundo, e somente nele, conhecemos o céu e o inferno: em nossos sentidos, em nossa consciência. Depois é o vazio, o silêncio, o nada (do Eu). Nada de desejo, nada de sofrimento, nada de amor, nada de paixão.

Conceitualmente falando, a “paixão” somente surgiu no segundo século, quando o satírico e médio-platônico Lucius Apuleio, no De Deo Socratis, escreveu sobre a possibilidade da alma, e sobre as perturbações que ela sofre, advindas do mundo externo11. Derivado de pati (suportar, sofrer), passio nomeia o πάθος (de onde “patologia”): a afecção acidental que o corpo (ou a alma) suporta. É esse sofrimento que, às vezes insuportável, enlouquece os apaixonados, e os condena. Veja Tristão, veja o pobre Werther, veja o infortunado Romeu, veja Édipo, Orfeu, Pedro Abelardo; veja… Eco.

Πάσχειν (sofrer) é o estado natural (logo espontâneo) do animal que responde aos impulsos da Vontade, obedecendo-lhe cegamente. Na natureza, onde não há o pensamento, tudo é πάσχειν, e o desconhecimento do seu conhecimento, das fontes do πάσχειν – e, logo, um “απάσχειν”, pela ausência do conceito. As criaturas racionais ou são levadas pelo impulso (Trieb) que lhes impele ao outro, objetivando-se – e às falas12 que narram tal impulso, no caso das racionais –, ou condicionadas cegamente, pela necessidade, à ação irrefletida da Vontade (Wille): pura paixão, pura animalidade, no caso das bestas. No processo civilizatório, tal animalidade foi domesticada, amansada, tornada servil às ideias e ideais superiores, supramundanos. Assim se falseou a realidade (crua) pela ideia de outra verdade melhor que… esta. Autores mais ortodoxos – como Gianni Vattimo, por exemplo – veem tais provocações como coisas perigosas, “tentadoras”, dizem. O realismo: uma tentação.13

O idealismo foi, desde cedo, o modo mais seguro de mascarar o real, concedendo-lhe o status derivativo de melhor, do mais verdadeiro e, por isso, “menos pior”, menos falso. Feuerbach enxergou tal inversão (“A religião é a cisão do homem consigo mesmo…”)14, e o jovem Marx o seguiu, contra Hegel15; e depois Nietzsche, contra tudo o que representava o espírito cristão16; e depois Unamuno, sumariado por Rubem Alves17; e Thomas Paine, para quem a única Igreja viva e verdadeira era a sua própria mente, sua lúcida consciência18; e mais uma plêiade de pensadores que ousaram ir além do idealismo socrático-platônico… E todos eles pagaram, cada qual à sua maneira, pela posição de vanguarda, e do pensamento livre – contra a tirania ideológica de uma “razão” envenenada, enlameada e entorpecida no vinho santo da santa ceia cristã: “Fazei isto em memória de mim.19” No banquete cristão, o amor mesmo está presente, encarnado, diferentemente daquele de Platão. O Ágape cristão, nisso, teria sobrepujado o Eros pagão. Modelar, o Ator deve ser imitado e, sua ação, final – do Amor por amor –, repetida “até que venha o Reino de Deus”20. A memória e o conteúdo do banquete cristão (amor, entrega, participação) se amplia e se estende, na intenção de manter a coesão teológico-moral daqueles e daquelas que participam do corpo de Cristo (na fração do pão e do vinho), lembrando-lhes severamente de como devem ser, pensar e agir neste mundo, com vistas ao que podem receber, no glorioso porvir.21

Deus, ao homem de fé, como o amor (do qual ele é fonte22, na teologia cristã), também é objeto23; e sendo desejo, é falta. Não procura Deus aquele que já o tem. Enquanto pré-sença, Deus também é ausência. “É a eternidade do desejo, a imensidão da nostalgia, os espaços sem fim. O Pai nosso quem ora nos céus, onde voam as aves, espaço vazio, pura permissão, ausência. Presença de uma ausência.24” E possível falar de Deus para além da licença poética? Teopoesia. Parece que aí, no mágico-poético, que é onde está a casa da palavra, também a do amor romântico: modo enviesado de falar do homem mesmo, vendo-se e descrevendo-se em um reflexo invertido. Sim, a relação Deus/Amor, para o cristão, é a relação Desejo/Amor, para Platão, conforme vemos n’O banquete, em que Sócrates reproduz o discurso de uma mulher, Diotima25. Mas, sendo a fé paradoxal ao pensamento – à Vontade, não –, há conflitos, bem muitos. O pensamento, aplicado à Vontade, que mascarada no ideal romântico, funciona perfeitamente. É o que nota Comte-Sponville: “Em outras palavras, o amor [romântico] só é salvo pela religião – eis o segredo de Diotima, eis o segredo de Platão: se o amor é falta, sua lógica é sempre tender mais para o que falta, para o que falta cada vez mais, para o que falta absolutamente, que é o Bem (de que o Belo nada mais é que a deslumbrante manifestação), que é a transcendência, que é Deus, e aí se abolir, enfim saciado, enfim apaziguado, enfim morto e feliz! Ainda é amor, se mais nada lhe falta? Não sei. Platão talvez diria que então há apenas a beleza, como Plotino dirá que há apenas o Uno, como os místicos dirão que há apenas Deus… Mas, se Deus não é amor, para que Deus? E do que Deus poderia ter falta?26

não é e nem pode ser argumento, uma vez que, como nota Kierkegaard, é paradoxo: o grande Paradoxo, o Paradoxo Absoluto27. Do “Deus é”, não se pode falar senão como “eu acredito que seja”; e o “não-é” (“eu acredito que ele não seja…”) é o seu contrário. No mais que isso, é somente “eu desejo que seja”, “eu desejo que não seja”. “Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele”, diz Riobaldo, teologizando28. Poesia, literatura romancesca… Na filosofia, porém, não se deve ir a tanto. A fé é o contrário da filosofia, do filosofar – São Paulo e Tertuliano, nisso, são consentes, contra a “fé pensada” da/na Igreja, na Patrística, Idade Média e até hoje. Agora, porém, não se trata mais de um “milagre da fé”, mas do milagre na fé, na inversão e invenção de um sentido para os tantos sem sentidos do mundo, do Eu (res cogitans) no mundo. O mesmo Eu que, de si para si, procura apaixonadamente por seus sentidos. Uma tola procura. Mas, quem consegue viver sem alguma paixão, sem alguma loucura?

No humano, a passio responde ao Eros Vulgar (πάνδημος ἔρως) – não mais que um conceito contra a nudez da pulsão (Trieb) primitiva, feia, fria, crua, bruta, “incivilizada” –, efeito de sua causa. Em resposta ao Eros Vulgar, o humano entrega-se àquilo que o atrai, em, pelo mesmo caminho das bestas, resposta à Vontade – em sua voluptuosidade, no entorpecimento dos sentidos. Passio, paixão, passional. Contra os excessos da Vontade, e ainda mais contra tal entorpecimento, a doutrina moral cristã, principalmente, procurou sublimar o conceito de “amor” ao plano do ideal (puro, perfeito, etc.), tratando (ou maquiando) as manifestações eróticas como derivações imperfeitas do perfeito Ágape, por quem (e a partir de quem) deveriam endireitar-se, corrigirem-se, serem mensuradas na matemática do mais ou menos, no verdadeiro, no puro e no bom29. Assim, e pelo enorme sucesso que a doctrina christiana obteve – principalmente do século II em diante –, o Eros Vulgar foi relegado a um plano ainda mais vulgar, inferior. No Novo Testamento, Eros é preterido em favor de ágape – que é, no conceito, uma “atitude afirmativa total” de Deus. “Supõe-se que o conceito de ágape exclua até mesmo a menor mescla de apetência ou vontade-de-ter-para-si. Desta constatação depende muita coisa. Para o pensamento platônico um deus ‘amoroso’ representa um contra-senso, uma vez que o amor (entendido como ἔρως) tende (com apetência) para aquilo que não possui, sendo que tal tendência por definição não tem cabimento na esfera da divindade.30

O erótico – referente a Eros, naturalmente – foi tomado não como alguma boa beleza, e saúde do corpo e da mente (um corpo belo é um corpo saudável, e mens sana, corpore sano), mas como libidinagem pecaminosa, doença da alma sensualizada, corrompida, entregue ao apetite carnal, vontade-de-ter-para-si, etc. Daí não ser estranho que o “hedonismo” epicurista tenha sido, no Ocidente cristão, satanizado pelo senso comum; e a eudaimonía (“ter um bom demônio-guardião” junto a si)31 não soa bem até hoje, aos cristãos menos dados ao pensamento. É mais conveniente falar em bem-aventurança, beatitude, etc. Ora, “afirmar a bondade do prazer é escândalo no Ocidente”, Octavio Paz32 afirma. E Rubem Alves: “A espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer. As feridas e lacerações que a espiritualidade católica elegeu como objetos de adoração são expressões plásticas desse fato. E o ascetismo e disciplina de trabalho, virtudes supremas do protestantismo, são a sua manifestação racional e moral.33

Mesmo o Eros Celeste (οὐράνιοςἔρως), superior ao Vulgar – como n’O banquete –, não escapou dessa sublimação divinatória; aliás, serviu-a muito bem, com ligeiras e sutis adequações. O mesmo se fez ao Hades/inferno, à relegio/religião34, à psyché/alma, etc. A análise histórico-filológica desses termos mostra a crueza (nada cristã) de seus primeiros sentidos e utilizações, sem máscaras.

Ao se introduzir (e conceituar) o ágape (ἀγάπη) no Novo Testamento, em substituição a Eros (ἔρως), fez-se, muito provavelmente, o maior de todos os desvios conceituais que um termo já teve na Grande História do Ocidente; que estendeu tentáculos etimológicos e filológicos por onde chegou. A Divina comédia e o Banquete (Il convitto), de Dante Alighieri, elogiam e estabelecem, de uma vez por todas, enquanto súmulas do ideal cristão, esse desvio – já fartamente sistematizado nas teologias do século XIII35. Ágape: celeste, perfeito, modelo; Eros: mundano, dado aos enganos das paixões, eà corrupção dos sentidos. Por ágape – no qual e pelo qual tudo deveria ser mensurado como bom ou ruim –, era legítimo viver, era legítimo morrer36. O próprio Filho de Deus… que maior e melhor exemplo?37

Acontece que Eros está em tudo e, em tudo e por tudo, manifesta-se – principalmente no inevitável stergein (amor próprio): o combatido egoísmo; que é a perversão de ágape, da sua imagem distorcida, como em um espelho mal polido… o espelho da fé38. Enquanto o ágape recomenda um ideal que resumiria toda a doctrina: “Toda a lei se cumpre numa só palavra, a saber: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”39, Eros aproxima-se do real: “Não é, com efeito, o que é seu que cada um estima?” É Diotima, perguntando a Sócrates, e respondendo logo em seguida: “Pois nada mais há que amem os homens senão o bem; […] por amor a si mesmos.40” Para que a “realidade mais real” do amor se manifestasse, porém, foi necessário que se esperasse chegar à segunda metade do século XIX, com o inglês Charles Darwin, o austríaco Sigmund Freud e o alemão Arthur Schopenhauer, principalmente; e, depois desses dois últimos, seus discípulos mais brilhantes, Friedrich Nietzsche, Lou Salomé, e os discípulos dos seus discípulos… muito mais que doze.

O amor mundano (erótico-físico), eles dizem de um modo ou de outro, não é mais que uma resposta à Vontade, para a geração e permanência da espécie humana – pois os animais não amam (e, logo, não conceituam suas vontades [pulsões] erroneamente) –; e o amor divino, o perfeito e metafísico ágape, não é mais que um suspiro aflito, daquele ou daquele que está preso às esperanças de um porvir glorioso, ou à fé que transcende a materialidade do mundo fenomênico. O amor perfeito não é mais que, ah!, não é mais que um delírio da razão, o seu sono mais entorpecido.

Assim, e até aqui: ágape foi uma adequação do Eros Urânio, e um desvio conceitual impetrado contra o Eros Vulgar, que é uma resposta positiva à Vontade – evidenciada no convite que a beleza dos corpos propaga, lançando indivíduos contra indivíduos (na paixão), com a finalidade da cópula, para a geração de espécies saudáveis e igualmente belas –, que foi varrida para debaixo do tapete na sala da sra. Mente Superior, que ordenaria a natureza de forma lógica e dinâmica. Esta Mente Superior, amor perfeito e fonte do perfeito amor (a quem os outros “amores” seriam imperfeitos), ordenaria as afecções e as más vontades, premiando-as ou punindo-as.

Foi assim que, no sentido vulgar do termo, Eco amou a Narciso, que era, por sua vez, metáfora do amour de soi, em seu sentido mais pungente. Era o “amor ao outro” contra o “amor a si mesmo”; esse, fartamente combatido na moral cristã, e normalmente aprisionado em nosso Eu inconsciente, mas sempre muito ativo em nossas maiores ou menores ações. De um modo ou de outro, e como já foi dito, era o Eu encontrando-se com o Eu, mesmo quando equivocado sobre o encontro com o (ou no) Outro. Não poderia haver um final feliz, evidentemente.

Onde quer que Narciso fosse, Eco o seguia – mesmo que tão somente para ganhar um pálido raio do seu olhar –, arriscando-se. Narciso, no entanto, apenas amava a si mesmo, a sua imagem refletida nas cristalinas águas de uma fonte. Não vendo o seu amor correspondido – pois que os amores nunca são correspondidos, quando confiados à resposta positiva do Outro –, Eco retirou-se para uma caverna, desolada, humilhada. Aí definharia, até o fim. Dela, restaria somente uma voz triste e distante, perdida pelos espaços ermos.

Na mitologia, Eco torna-se a repetição de si-mesma, não sendo a própria, porém. Do mesmo modo é o amor que dizemos sentir por outrem. No amor ao Outro (ou “pelo Outro”), ele não é casa, não é porto e nem destino, mas um abismo do Eu que aponta para o Super-Eu, para um cair-em-mim. No final das contas, e quando penso que o Outro é meu objeto (a quem devo amar, ou amo), vejo-me aqui, em mim mesmo, qual sonâmbulo despertado diante do espelho: reflexo difuso, eco dissonante. O que eu amava no Outro era, afinal, o reflexo de mim mesmo. Daí que, afinal, ninguém morre por ninguém, por amor a esse alguém. Todo morrer de amor, ou por amor, é um morrer por si mesmo, por amor a si mesmo. Nada mais egoísta que o morrer por amor.

O “estar preso a alguém”, por isso, é outro equívoco conceitual.

Sim, estou condenado a mim mesmo e ao meu próprio amor – que não posso jamais, e mesmo que desejasse, dispensar a outrem, ao meu “próximo”: ele ou ela. “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não salvo a mim.”41

Descumprir a lei evangélica não é um pecado, é uma inevitabilidade.

1 O banquete, 200 e. PLATÃO. O banquete. In: _____. Diálogos. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores).   30.

2 SARTRE, Jean-Paul. L’être et néant. Paris: Gallimard, 1969. p. 652.

3 “Portanto”, ele continua, “se sofro por causa de coisas transitórias, a razão disso está em que eu, com meu coração, continuo a amar e pender para [essas mesmas] coisas.” (ECKHART, Mestre. O livro da Divina Consolação e outros textos seletos. 5. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005, p. 58. [Col. Pensamento Humano]).

4 RUSSO, Renato. Quando o sol bater na janela do teu quarto. In: Legião Urbana – As quatro estações. São Paulo: EMI Music Brasil Ltda., 1989. 1 disco sonoro. Faixa 4 (3 min 10 s). No encarte, Renato faz a seguinte notação: “Todo hotel que se preze tem catálogo telefônico na gaveta perto do telefone e Bíblia. Só teve uma vez que no hotel não tinha nada, outra que em vez da Bíblia era o livro de Mórmon e um belo dia chegamos em… (não me lembro) e o que tinha junto com o TELESP (?) era A doutrina de Buda. Gostei tanto que quis levar um exemplar para casa comigo. (Era um hotel grande, eles deviam ter centenas de doutrinas de Buda). E por algum motivo, em vez de roubar um (levar sem avisar) desci até a recepção e perguntei do livro e eles disseram: tudo bem. Pode levar um com você. […] Toda parte sobre dor e desejo de ‘Quando o sol’ é do livro.”

5 Como diz Epicuro em sua carta A Meneceu, defendendo sua doutrina: “Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas o prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.” (EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Editora UNESP, 1997. p. 43). E ninguém duvidaria que, em relação às perturbações da alma, as coisas do amor sejam as que mais se apresentam.

6 É assim em Agostinho, o mestre do ocidente (como dito por: HIRSHBERGER, Johannes. História da filosofia na Idade Média. 2. ed. São Paulo: Editora Herder, 1966. p. 29.): “Tu nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti.” (Conf., I, I,1), e “a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.” (Conf., X, XXII,32; AGOSTINHO, Santo. Confissões. Lisboa: Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira / Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. p. 5, 257, respectivamente. [Col. Clássicos da Filosofia]). “Depois de São Paulo”, Le Goff afirma, “Santo Agostinho é o personagem mais importante para a instalação e o desenvolvimento do cristianismo. É o grande professor da Idade Média.” (LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 31).

7 Inclusive nas obras que, aparentemente, nada têm a ver com romantismo: de matemática e/ou arquitetura, por exemplos. Em respaldo ao afirmado, nem é preciso grande esforço. Dois livros de Alain de Botton tratam sobre isso, magistralmente. Cf. BOTTON, Alain de. Desejo de status. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. 301 p; _____. A arquitetura da felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 271 p.

8 Cf. ARVON, Henry. O budismo. Lisboa: Publicações Europa-América Ltda., [s.d.]. p. 44-5. (Col. Saber). O Eu é a consciência (do Eu). Se há pleonasmo, aí, é na intenção de facilitar o sentido restrito à percepção imediato-existencial do sujeito pensante, coisa pensante (res cogitans); ou do pensamento que se volta sobre si mesmo: um cérebro em um corpo, do qual se serve e é parte.

9 Citado em: HUXLEY, Aldous. A filosofia perene. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 248. Panchadasi é um livro de textos (organizados em 15 capítulos) de Swâmi Vidyaranya, para esclarecimento e aprofundamento do Vedanta, à semelhança dos Upanishads.

10 COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 36.

11 Lucius Apuleius foi um escritor Berbere, nascido em Madaura (atual Argélia), por volta de 125, antes de Cristo. Em Cartago, estudou gramática e retórica; e em Atenas, Platão e Aristóteles. Aí, casou-se com Pudentila, uma viúva muito rica. Por isso, e pelos parentes da mesma, foi acusado de utilizar-se de magia para conquista-la. Sua defesa está na Apologia, obra que está conservada até hoje. Ainda jovem, regressou a Cartago, onde morre, por volta de 180.

12 Como demonstrado na empolgada reação do Sargento – na novela de Trevisan –, ao ver Maria, sua ex-namorada, descendo as escadas metida em um minúsculo short, antes de saírem para passear: “Você me atiça. Que boa você assim. Como é gostosa.” (TREVISAN, Dalton. Nem te conto, João. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 107. [Col. L&PM POCKET, 934]). Os itálicos são do próprio autor.

13 VATTIMO, Gianni. A tentação do realismo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed.: Instituto Italiano di Cultura, 2001. 57 p. (Col. Conferências Italianas, 1).

14 “A religião é a cisão do homem consigo mesmo: ele estabelece Deus como um ser anteposto a ele, Deus não é o que o homem é, o homem não é o que Deus é. Deus é o ser infinito, o homem, finito; Deus é perfeito, o homem imperfeito; Deus é eterno, o homem transitório [etc.]. O que deve ser demonstrado é então que esta oposição, que esta cisão entre Deus e homem, com a qual se inicia a religião, é uma cisão do homem com a sua própria essência.” (FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 77).

15 “No que diz respeito à Alemanha, a crítica da religião está, no essencial [com Feuerbach], terminada, e a crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica. […] O fundamento da crítica irreligiosa é: foi o homem quem fez a religião, não foi a religião que fez o homem. Realmente, a religião é a consciência de si e o sentimento de si que possui o homem que ainda não se encontrou, ou que se tornou a perder. Mas o homem não é um ser abstrato escondido algures fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este estado, esta sociedade, produzem a religião, consciência invertida do mundo, porque eles próprios são um mundo invertido.” (MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: _____ & ENGELS, Friedrich. Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1975. p. 47-8). E, noutra parte: “Até aqui, os homens têm sempre criado representações falsas sobre si próprios, e daquilo que são ou devem ser. Segundo as suas representações de Deus, do homem normal, etc., têm instituído as suas relações. Os filhos da sua cabeça cresceram-lhes acima da cabeça, diante de suas criaturas. Libertemo-los das ficções do cérebro, das ideias, dos dogmas, das essências imaginadas sob cujo jugo se atrofiam.” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Do prefácio. In: _____. A ideologia alemã – 1º capítulo, seguido das teses sobre Feuerbach. São Paulo: Centauro Editora, [s.d.]. p. 7).

16 “O espírito puro é a pura mentira… Enquanto o sacerdote, esse negador, caluniador, envenenador profissional da vida, for tido como uma espécie mais elevada de homem, não haverá resposta para a pergunta: que é verdade? Já se colocou a verdade de cabeça para baixo, quando o consciente advogado do nada e da negação é tido como representante da ‘verdade’.” (NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 15 [§ 8]). E: “– Volto atrás, conto agora a história genuína do cristianismo. – Já a palavra ‘cristianismo’ é um mal-entendido – no fundo, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz. O ‘evangelho’ morreu na cruz.” (NIETZSCHE, 2007, p. 45 [§ 39]). E: “‘Fé’ significa não querer saber o que é verdadeiro.” (NIETZSCHE, 2007, p. 63 [§ 52]). E, por fim, mas não finalmente, Nietzsche fala da tensão (político-biológico-moral) que o Ocidente europeu herdou da corrupção do socratismo-platônico, através do movimento cristão, e da sua “luta contra Platão, ou, para dizer dizê-lo de modo mais simples e para o ‘povo’, [d]a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois o cristianismo é platonismo para o ‘povo’ – [que] produziu na Europa uma magnifica tensão do espírito, como até então não havia na terra.” (NIETZSCHE, Friedrich. Prólogo. In: Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 8. As ênfases são minhas).

17 “Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. […] Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos tigres são tigres…” (ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 18).

18 “Minha mente é a minha igreja.” (PAINE, Thomas. The Age of Reason. London: Forgotten Books, 1884. p. 18). Publicado em 1794, The Age of Reason foi interpretado como literatura ateísta, tornando seu autor uma figura muito mal vista, principalmente entre os fundamentalistas americanos, e nos círculos de radicais e livres pensadores. Em 1802, numa viagem que faz aos Estados Unidos, a imprensa federalista anunciou-o como “réptil asqueroso”, “besta semi-humana”, dentre outros impropérios. E, conforme Philip Foner – editor moderno das obras completas de Paine, The complete writtings of Thomas Paine, 1945 (2 v.) –, “… sua morte não foi virtualmente noticiada na imprensa Americana.”

19 Conforme a primeira Epístola aos Coríntios, 11, 24. Também em Lucas 22, 19.

20 Lucas 22, 18 (TEB). Idêntico a: I Cor., 11, 26.

21 “Examine-se cada um a si mesmo, antes de comer deste pão e beber deste cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo come e bebe a própria condenação.” (I Cor., 11, 28-9; TEB).

22 Como na pena de João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.” (I João, 4, 7; TEB. Ênfase minha).

23 De desejo, enquanto objeto (objetivo) a ser alcançado.

24 ALVES, Rubem. Da esperança. Campinas: Papirus, 1987. p. 43.

25 O amor, escreve Platão, “ama aquilo que lhe falta, e que não possui” (Ban., 201 b).

26 COMTE-SPONVILLE, André. Amor. In: _____. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 256. (Col. Mesmo que o céu não exista).

27 Exemplificado, por ele, na doutrina da Encarnação do Verbo, “que exige que acreditemos que existe um momento em que o eterno entra na esfera temporal, assumindo as limitações da existência finita, e isso parece envolver uma impossibilidade manifesta, algo que não pode ser acomodado aos limites do pensamento e da compreensão humanos.” (GARDINER, Patrick. Kierkegaard. São Paulo: Edições Loyola, 2001. p. 81 [Col. Mestres do Pensar]). “Nesse caso a Fé não é tão paradoxal quanto o Paradoxo? Precisamente; de que outra forma ela poderia ter o Paradoxo como seu objeto e ser feliz em sua relação com o Paradoxo? A Fé é um milagre em si mesma, e tudo o que é verdadeiro para o Paradoxo também é para a Fé” (KIERKEGAARD, Sören A. Philosophical fragments. New York: Harper and Row, 1962. [Frag. 81]).

28 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 58.

29 “A Bíblia não trata dos temas do sexo ou do Éros. Isto não significa que os mesmos sejam excluídos ou descuidados. Pelo contrário, a sã sexualidade, atuada na reta ordem (matrimônio), é claramente reconhecida como dom do Criador. […] Também o Novo Testamento não é inimigo do sexo ou do matrimônio, ainda que considere a virgindade como um caminho de vida mais excelente. Longe disto, é justamente no matrimônio que se realiza o ‘grande mistério’ que tem seu fundamento típico na comunidade ‘esponsal’ de Cristo com a Igreja (Ef 5, 32), de maneira que também o matrimônio adquire um caráter sagrado. Certamente, não é tanto o amor natural em seu valor próprio ou enquanto ligado a esta terra que é aprovado, mas aquele que é redimido, renovado, purificado e ‘levado à plenitude’ pelo ágape, ou seja, por Deus em sua ação na História.” (WARNACH, V. Amor. In: VV.AA. Dicionário de teologia: conceitos fundamentais da teologia atual. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983. p. 66. v. 1. As ênfases são minhas).

30 VV.AA. Compêndio de dogmática histórico-salvífica: a História da Salvação antes de Cristo. In: FEINER, Johannes; LOEHRER, Magnus. (Orgs.). Mysterium Salutis. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1978. p. 257. v. 2/1.

31 Trato melhor sobre o tema em meu artigo sobre O tema da eudaimonía… Cf. SALES, Antonio Patativa de. O tema da ΕΥΔΑΙΜΟΝΙΑ na carta de Epicuro A Meneceu. In: Revista Ágora filosófica: pensamento Antigo-Tardio e Medieval. Recife: Fundação Antônio dos Santos Abranches – FASA. v. 2, n. 2, p. 21-32, 2004.

32 PAZ, Octavio. Los hijos del limo. Madri: Planeta Editorial, 1996. p. 106.

33 ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 83. Em uma nota, Alves diz mais: “Como é bem sabido, segundo Max Weber, o ascetismo intramundano do protestantismo calvinista e a disciplina de trabalho constituíram a essência do espírito do qual o capitalismo nasceu. Me pergunto se essa ideia não lhe veio da leitura dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, de Marx.” (ALVES, 2011. p. 83).

34 Nesse particular, e para que se veja a corrupção do termo e sua adequação à mensagem do movimento cristão, nos séculos I e II: SACHOT, Maurice. A invenção do Cristo: gênese de uma religião. São Paulo: Loyola, 2004. p. 133-50. (Col. Bíblica Loyola, 40).

35 “Na Divina comédia, o eros platônico alça-se, por intermédio da Graça, ao plano da redenção e da vida sobrenatural, transformando-se em ágape. A alma amorosa desprende-se dos liames terrenos, rompe com o sensível e, custodiada pela Providência, que Beatriz representa, como encarnação poética de Maria, eleva-se aos céus. O amor espiritual nasce somente depois que morre o amor carnal, sem que um se conserve no outro.” (NUNES, Benedito. O dorso do tigre. São Paulo: Editora 34, 2009. p. 151).

36 Veja Tristão, Alceste, Werther, Romeu, Édipo… veja o Cristo.

37 “Maridos, amai [ἀγαπάτε] as vossas mulheres como Cristo amou [ἠγάπησεν] a Igreja e se entregou [morreu] por ela.” (Efésios 5, 25; TEB).

38 Após fazer o elogio ao ágape, Paulo confessa que, sobre ele, “agora [na temporalidade], vemos em espelho e de modo confuso; mas então [pela fé, e na eternidade], será face a face.” (I Coríntios, 13, 12; TEB).

39 Gálatas 5, 14; que subscreve Levíticos 19, 18. No Novo Testamento, a ordenança (de amar – como se pode amar em obediência a uma ordem?) aparece em várias partes: Mateus 19, 19; 22, 39; Marcos 12, 31; Lucas 10, 27; Romanos 13, 9; Tiago 2, 8, etc.

40 O banquete, 206 a.

41 ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote. São Paulo: Iberoamericana, 1967. p. 52.

 

* Professor de filosofia da UEPB.

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