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O FIM DA ARTE E DE SUA HISTÓRIA (II, SEM PRÓXIMOS CAPÍTULOS)

Ana Monique Moura*

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 Dessa vez tomo o tema do “fim” da arte segundo a sua relação com o “fim da metafísica” e, nisto, o enrijecimento do pensamento estético, na contramão do pensamento metafísico tradicional que perde sua “moda”. Tal pensamento deu a amplitude dos meios da crítica da arte na posterior era das vanguardas estéticas. Convenhamos que estatuto do “fim” da arte tem uma relação íntima então com os embasamentos da crítica de arte. Mas esta relação não seria possível sem um dado histórico fundador, que se se firmou como a passagem do discurso metafísico para o discurso estetizado ou estetizante do pensamento filosófico. Portanto, o “fim” da arte, logo, a existência aí inelutável da crítica de arte, mantém relações muito estreitas com a crítica à metafísica encabeçada, em especial pedra de toque, pelo filósofo Kant.

A crítica à metafísica realizada por Kant deu sentido ao que se pode chamar de “Era da Crítica” em fins do século XVIII ao fim do século XIX que, para Nietzshe, trata-se do período no qual filósofo, de modo marcante, sentiu “tragicamente que perdeu o campo da metafísica”.[1] Com a superação da metafísica (leia-se sua impossibilidade), nasce a atenção de Nietzsche e de outros filósofos para a arte como um novo e promissor domínio para a filosofia, que deixa de ser metafísica sonhadora (sem querer dizer aqui que qualquer metafísica seja assim), para ser mais pensamento crítico. Não que a metafísica tenha falido, mas é como se ela tivesse migrado para aspectos próprios de um pensamento estético & crítico.

A era dos discursos metafísicos (Antiguidade grega, Idade Média e Renascimento) prezava não a pergunta pela arte, mas o “devir” normativo da arte. Mas talvez essa não seja mais a grande questão, a arte não recebe mais normatividade, recebe, ao invés disso, dúvida sobre a própria normatividade da arte, e isto marca uma nova pergunta pelo seu “porvir” dentro da negação de seus devires desejados no passado. A crítica à metafísica dá uma nova forma de crítica da arte, depois que a filosofia ganhou um discurso estetizante em um mundo no qual o cotidiano, com o cinema e, agora, com os pós-virtual, tem se tornado arte, na medida, ”enfim e por fim”, em que tudo talvez possa ser arte. Será? Percebam que percorri até aqui uma abordagem dialética positiva. Mas, se pegamos a dialética negativa, isto tudo cai por terra. Numa dialética negativa, a arte, digo com Adorno, se expressa como uma antítese social da sociedade.

A filosofia tem tido e tem um peso sobre estes problemas porque ela não é outra coisa que um pensamento interpretador dos problemas do mundo. Só a partir de um pensamento que interpreta o mundo é possível tentar interpretar a arte.

Depois de Kant, o maior defensor do método crítico do pensamento, a estética veste a indumentária da reflexão e da crítica ao invés de uma isolada contemplação da arte. Mas o dizer de Gianni Vatimo, ao pensar Kant,  parece obsoleto, quando anuncia que estamos numa cultura “em que o prazer estético não se define tanto como o que o sujeito experimenta em relação ao objeto, mas como o prazer que deriva de constatar a própria pertença a um grupo – em Kant, a própria humanidade como ideal”.[2] Vivenciamos, ao contrário e com mais força, um momento em que as discussões sobre o ideal de humanidade são arrastadas e negadas por novas reflexões sobre pós-humanismo e desconstruções aderentes como arautos da desumanidade, bem discutidos, por exemplo,  por Ortega y Gasset em A desumanização da arte (1924).

No “fim” da metafísica pensou-se aí o “fim” da filosofia e foi neste “fim” se pensou a potencialidade do discurso estético em lugar do pensamento metafísico. Esta passagem marca o período em que a arte também ganha alcunha de “fim”. É natural que, com o “fim” da metafísica, tenha nos chegado a estetização do discurso, já que à arte não cabe anseio de verdade universal, e também parece natural que a crítica e as curadorias tenham aí todas as suas sementes então, e tanto mais agora, espalhadas, já que o ofício de criticar a obra de arte não é, claramente, o ofício nem de um cientista, nem de um religioso. 1º dado banal, mas relevante: a filosofia reside na crítica da arte não como ofício, mas como suporte. O ato de “pensar a mais” constitui uma atividade filosófica.

Walter Benjamin já havia tentado pensar as relações entre crítica de arte com o seu “fim”, mas aqui o “fim” foi pensado enquanto “finalidade”. Neste caso, a “finalidade” ou o “fim” da arte estariam postos como jamais unívocos. A arte compõe finalidades diversas que, por outro lado, só podem ser expressas por meio da realização de uma rede de críticas possíveis. É como se a crítica fornecesse à arte um espírito, uma finalidade possível para a qual ela é conduzida a abrir lugar. Na esteira dessa discussão cabe incluir ou lembrar que Benjamin viu neste cenário o fim da áurea da obra de arte, que não seria outra coisa que o fim do caráter metafísico da obra artística – o que é um problema para pensar também, já que certas categorias estéticas da arte contemporânea tem primado por identidades metafísicas, haja vista o preciosismo na fotografia, tema de uma próxima discussão que pretendo trazer.

Vivenciamos isso numa época de herança das especulações sobre uma Estética da Recepção de Wolfgang Kaiser, e da atitude de pensadores como Barthes, que defendeu a “morte do autor”, tudo após Kant ter insistido na ideia, no parágrafo 333 da sua Crítica da Razão Pura (1781), de que sobre as coisas em si mesmas não podemos, nem precisamos nada saber. Portanto, não parece em vão que este pensador tenha concluído o sistema de seu pensamento com uma obra sobre estética e nesta colocou que o autor da arte, se existe, não compreende as regras que transpõem o conhecimento técnico de seu trabalho. Nem conhecimento da coisa-em-si (no alemão: Ding-an-sish), nem voto ao autor da coisa. E onde está a origem da arte? Naturalmente que aí o problema do “fim” se mostra tanto mais arguto. Dois pontos inseparáveis.

Percebam que a pergunta pelo “fim” da arte implica na pergunta pela definição cabal do que seja a arte. Neste caso, se, como defendeu Kant e, no seu caminho, Clement Greenberg, que a arte é objeto e julgamento, então tudo é passível de ser arte, como pensou Danto em “Após o fim da arte (2006)“. Mas, quando tudo, ao menos teoricamente, pode ser arte, ainda assim nem tudo é arte, pois há uma diferença dentro deste “tudo ser arte” entre aquilo que recebe o estatuto de arte e aquilo que não recebe. E isto é um problema de ordem histórica. 2º dado banal, porém relevante: a objetividade do gosto estético se dá historicamente. Sendo assim, obras são artes na medida em que, historicamente, são assim tomadas.

Em todo seu manancial de problemas referentes à crítica da arte, “fim” da metafísica no discurso filosófico, rendição da filosofia para a estetização do discurso, “fim” da áurea metafísica da arte, a pergunta pelo “fim” da arte, caída nesse bojo, cala, imediatamente, a necessidade de se realizar a insistência na pergunta pelo o que seja arte. Portanto, se o seu “fim” se propõe lançar a questão por sua ontologia[3], então tal “fim” não apenas incita a pergunta pelo o que seja arte como esta pergunta lança seu próprio calar. A melhor resposta aqui parece ser a pergunta, que jamais se renderá a respostas, já que ela se dá como a própria resposta, plenamente ainda insatisfeita.

 

[1] Friedrich NIETZSCHE. O livro do filósofo. Rio de Janeiro: Centauro, p 5, §7.

[2] Gianni VATIMO. O fim da modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Tradução: Maia de Fátima Boavida. Lisboa: Editorial Presença, 1987, p. 48.

[3] E aí chegamos a evidência da impossibilidade de encontrar para o problema ontológico da arte uma definição. É possível falar em ontologia das obras, para parafrasear Michel Haar, mas não a ontologia da arte.

 

*Doutoranda em Filosofia.

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