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Zé da luz, dono de uma escrita acima das tradições gramaticais, sem a qual não seria possível trazer nos seus poemas tantos motivos para uma “antropologia poemática” sertaneja. Como dizia Adoniran Barbosa: “falar errado é uma arte, senão vira deboche”.

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Índice

Severino de Andrade Silva, mais conhecido como Poeta Zé da Luz, nasceu em Itabaiana – PB no ano de 1904 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1965.

IMAGE DE CAMPINA

Campina Grande, Campina
Vou dizê sem pabuláge
O qui tu tem de belêza,
O qui piçúes de grandeza.
Im redó da tua imáge.

Sois a porta de entrada
Dos sertanejo de riba,
Sois a “Cidade argudão”,
A rainha dos sertão,
Orgúio da Parahiba.

Sois a cidade feitiço
Dos fio das outras terra,
Qui aqui vem fazê morada,
Levando a vida forgada,
Na vida qui tu inserra.

Sois a cidade “faloprada”
Sois a cidade sustança!
Riúna dez cidadinha,
Qui tu Campina, sosinha
Pesa mais numa balança.

Campina Grande, Campina,
Sais a cidade “Pae D’égua”
Dos sobrado dos ricaço,
Dos “Bangalbu”, dos palaço
Das rua de meia legua!

Campina Grande, Campina
O teu comerço famôso
Faz a gente se alembrá
Das coisa discumuná
Das istora de trancôso.

Sois a cidade ingraçada
Das briga de fim de fêra,
Mode um cachimbo de fumo
Um bêbo fora de prumo
Barre mão da “lambedêra.

E lá vai faca pra riba!
Arreda pra lá mundiça
Qui eu hoje tou é danado!
Dipressa chega o sordado
Leva o bêbo pra puliça.

Sois a cidade infeitada
Na festa da Cunceição,
Na festa da Padruêra
Onde se vê “beradêra”
Bunita qui só o cão!

Sois branca cumo a Sodade
Irmã da rescordação,
Quando a rua das Areia
Tá intupida, tá cheia,
Só de saca de argudão

Sois verde cumo a Isperança
Essa grande arcuvitêra
Quando o verde das verdura
Enche as ruas cum fartura
Nos banco das verdurêra!

Duvido, Campina Grande,
Tê cidade qui se afôite
A tê noite cumo as tua
Quando o arfange da lua
Corta a mantía da noite!

Purisso, Campina Grande,
Tu sois a grande cidade,
Sois a cidade maluca
Onde armei minha arapuca
Prá pegá Filicidade!..

***

Manuscrito do poema "O sertão em carne e osso" 1954

Manuscrito do poema “O sertão em carne e osso”.

 SERTÃO EM CARNE E OSSO

No romper das alvorada,
Quando alegre a passarada
Se desmancha em cantoria,
Anunciando ao sertão
A sua ressurreição
No despontar de outro dia!

Nos galho das baraúna
Os magote de graúna
Quando o seu canto desata,
Parece uns vigário véio
Cantando o santo evangéio
Na igreja verde da mata!

Canta nas tarde morena
Quando o sol vai descambando,
Se despedindo da terra,
Beijando a crista da serra,
Deixando o céu tão bonito,
Que o sol redondo e vermêio
Parece, mal comparando,
Um grande chapéu de couro
Na cabeça do infinito!

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