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O NEO-PARNASIANO E O NEOSSIMBOLISTA NA IMAGEM CONTEMPORÂNEA – I

Ana Monique Moura* 

Dizer aqui “isto é neo-parnasiano” ou “isto é neossimbolista” não seria um julgamento gratuito. Ao dizer que algo tem característica neo-parnasiana, me refiro ao excesso de intensidade concedida em alguma arte ao sensualismo, ao preciosismo marcante, em especial ao feminino, uma contemplação quase “absurda” (sem aspecto pejorativo), como a um paralelepípedo que é fotografado e enaltecido, tal qual os mármores contemplados pela poeta parnasiana Francisca Araújo. Se falo em neossimbolista, me refiro à “áurea forçada” na imagem, à concessão de importância dada ao caráter sentimentalista, quase romântico, de uma imagem, uma cena quase rimbaudiana, um recurso sonhador ao próprio sonho etc.

Convivemos o tempo todo com estes elementos poéticos, contudo não sejam elementos estritamente do Kitch. A diferença entre as poéticas neo-parnasianas e neossimbolisas e o Kitch é que este procura ser uma arte da felicidade declarada – na clara definição de Abraham Moles – e está carregada de certa funcionalidade, ao contrário daquelas. Ele é elaborado com a ideia de utilidade, embora seja ele completamente inútil. Ao lado disso, ele se realiza enquanto cópia de algo. Aqui, a diferença entre o falso e a cópia é que o falso é mentiroso, ao passo que a cópia se revela como algo se quer mostrar, na realidade, como declaradamente irreal, eis uma das manifestações basilares do Kitch.

É preciso pontuar, além disso, que o artista não vivencia a arte coletivamente, como outrora. As relações coletivas de um neoliberalismo cultural contemporâneo são diferentes das relações entre escolas artísticas de outrora. Hoje, guardamos o que as escolas literárias nos insuflaram, sem dúvidas. Neste caso, a atitude não é coletiva, mas advém de um, em termos junguianos, inconsciente coletivo, que guarda resquícios das escolas. Claro que isto não serve apenas para quem trabalha com arte, é digno dizer.

O que distingue um movimento de uma atitude estética é precisamente que naquele há coletividade e neste a individualidade como ponto de partida. Por isso, definir as situações que muitas vezes denominamos como, por exemplo, neo-parnasiano na contemporaneidade, soa um tanto estranho, já que não se trata de uma “Escola Parnasiana”, mas de lapsos e recortes de obras individuais que trazem em nosso memorial estético os princípios de um Parnasianismo.

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Ouvimos falar em “estetização do cotidiano”, tema caro para filósofos como Gianni Vatimo – sobre o qual pretendo ainda problematizar; E há quem diga que nem mesmo o cotidiano exista, como fez o poeta Alberto Martins.[1] Em cotidiano estetizado, ou inexistente, fato é que estamos em uma era explosiva de imagens diferentes, que surgem dessa miscelânea de atitudes individuais para a elaboração da arte, mesmo quando a intenção não seja realizar, exatamente, a arte.

O parnasiano parte sempre de um estado contemplativo. Walter Benjamin chegou a elaborar uma boa tese sobre o fim da atividade contemplativa na nossa era de reprodutibilidade técnica, mas ele, raro foi atinado a isso, esqueceu de pensar sobre a contemplação residual. É possível pensar que permanece uma estética do resíduo, que exige uma espécie de contemplação daquilo que resiste, isto é, enquanto resíduo. O Neo-parnasianismo assenta-se nesse tipo de contemplação, sem dúvida.

Está muito bem declarado (quando não de selfies e pessoas) nas fotografias de lugares, alimentos e objetos através do Instagram, e isto não serviria como um mero exemplo, mas como a constatação do próprio Neo-parnasianismo imagético contemporâneo no virtual. A grande diferença é que aqui o Neo-parnasianismo se expressa de maneira hedonista – a cereja do bolo do Kitch. As pessoas capturam imagem de coisas, aparentemente banais, que ganham, enfim, um caráter enaltecedor e sorridente. Desde um pequeno guardanapo ao um céu no por do sol, passando por cerâmicas, calçadas, ruas, letreiros, etc. São congelamentos de contemplação daquilo que, em suma, assim parece propor o Instagram, não podem passar de maneira alguma despercebidos, nem frente ao velho nem frente ao novo. Portanto, ao neo-parnasiano, por mais que a contemplação do céu seja antiga, não devemos nos cansar dela.

Sendo assim, o mundo se carrega de imagens autodeclamativas. Trata-se de uma masturbação poética do mundo para o próprio mundo, dentro uma “cultura mundo”, segundo o termo bem utilizado por Gilles Lipovetski.

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Instagram Art Gallery – Fotógrafo não divulgado

Nas redes sociais, com páginas de divulgação para novíssimas fotógrafas, como Masha Sardari, Aëla Labbé, Francesca Woodman, Silvia Grav, dentre outras, parece perceptível no trabalho delas um resgate do Simbolismo, ao lado dos aspectos sensualistas, preciosistas e melancólicos comuns ao Parnasianismo. A poética neossimbolista migra declaradamente da poesia escrita para a fotografia, assim como ocorre com o neo-parnasiano.

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Por Francesca Woodman

Uma das marcas do Simbolismo e, seguidamente, do Neossimbolismo imagético, se exprime no resgate de um caráter metafísico e, ainda, onírico da arte. Isto chega a ser tão forte que essas fotografias perdem o próprio aspecto da fotografia que se apresentava no período pós-guerra, o de ser um retrato da realidade, e vem a corroborar isso, mesmo sendo uma imagem que se revela tão só como técnica. Aqui a tese de Vilém Flusser ganha sentido, quando defende que a imagem técnica guarda, em verdade, um caráter místico. Não que ele tenha pensado no caráter místico de uma fotografia que buscasse uma técnica simbolista, mas ele pensou que o retrato em si não é a realidade em si – algo básico, mas pouco aceito.

Ao neo-simbolismo imagético é possível fotografar o invisível. Não com a intenção de conceber o invisível como real, mas de tornar possível o invisível na própria realidade das coisas, que só podem ser concebidas, em matéria de arte, a partir de um tipo de contemplação nova.

A convivência entre a categoria neo-parnasiana e a neossimbolista deve trazer alguns novos questionamentos para a estética. Há uma série de problematizações inevitáveis para isso. Até aqui o que trago não passa de um comentário expositor.

* Mestre e doutoranda em Filosofia.

NOTAS:

[1] Em recente entrevista ao Jornal Rascunho, Junho 2014, sob o título “Poeta-escavador”.

 

 

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