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MEMORIALISMO DO CORPO E A RESISTÊNCIA CULTURAL EM RECIFE

 Beano Regenhaux*

 

Carlos Heitor Cony formula que há uma diferença sutil entre nostalgia e melancolia. A primeira, segundo o autor, trata-se de “um saudosismo cretino” que se revela na ‘’saudade de um tempo perdido’’, e melancolia “é a saudade de um tempo que não houve”. Inicio este texto com esta teorização de Cony presente em seu livro de crônicas O harém das bananeiras, para embasar minha reflexão a respeito de um processo que tenho observado em relação ao movimento Ocupe Estelita, o qual visa promover, dentre inúmeras causas, a discussão sobre o uso público e a preservação do patrimônio histórico da capital pernambucana, representando um ato de resistência política e cultural contra a especulação imobiliária e o monopólio corporativo de construtoras que literalmente implodem os direitos urbanos. Ao citar as enunciações de Cony e o movimento Ocupe Estelita, em Recife, gostaria de efetuar um elo entre a campanha contra o Novo Recife (projeto de construção de espigões “torres gêmeas’’ na área do Cais Estelita) e o que chamo de colapsar da “saudade de um tempo perdido” e da “saudade de um tempo que não houve”.

Os sujeitos do movimento Ocupe Estelita, um ufanista ou um bairrista que se apropria ou revive o memorialismo dos livros de Mário Sette ou dos roteiros sentimentais de Gilberto Freyre estão “ocupando” e corporificando a memória de um tempo que não viveram tanto a partir das descrições desses autores, quanto dos dados históricos correspondentes e entrando em contato com formas de vivência passada ao se apropriar do espaço público. E ao mesmo tempo, estão vivendo, sentindo a memória de um tempo vivido atualmente pela experimentação dos vestígios do – desejado – Velho Recife, criando e religando histórias da/na cidade, posturas de ocupação e resistência, restaurando e trazendo à tona existências da cidade extraídas do passado. Eles, primeiramente, evocam um passado distante para, logo em seguida, construir um rearranjo de temporalidade, deslocando um passado recente. Afinal de contas, segundo o antropólogo norte americano Paul Stoller, que encara práticas performáticas da experiência social por uma abordagem fenomenológica, a memória é inscrita no corpo.

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Fotografia: ALEN

Ao reler Mário Sette, tenho acesso a vivências que me são imediatamente ressignificadas ao participar e “ocupar” o Recife, como, por exemplo, ao presenciar um vendedor de pitomba na Avenida Conde da Boa Vista em meio ao fluxo incessante dos ônibus, e incorporando os seguintes versosTrepei na bomba / Comi pitomba; / Atirei caroço /Na maxambomba, presentes em Arruar – Histórica Pitoresca do Recife Antigo.[1] Ou rememorando o Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife[2] de Gilberto Freyre ao diminuir o ritmo de locomoção para contemplar as deusas gregas da Praça da República, sendo um namorado sentimental ao invés de um admirador imediato…

PS.: Em breve farei um guia sentimental por João Pessoa, revivendo Walfredo Rodrigues.

* Mestrando em antropologia pela UFPB.

NOTAS:

[1] Descubra o significado de maxambomba e experimente outras vivências como as vilegiaturas na Caxangá aqui: http://www.mariosette.com.br/obra_arruar.shtml

[2] Experimente https://www.youtube.com/watch?v=OQeDyGirv_c

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