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CONTO DE RENATA PARA UMA PAISAGEM DE SÃO PAULO: CHÃO

Valquiria Farias*

Renata Pedrosa constrói com o seu trabalho a narrativa visual de um lugar específico da cidade de São Paulo: o chão. Seus desenhos e projeções deste podem ser vistos como operações de uma arquitetura real; e do contrário também. É possível pensar como seus desenhos contam uma mesma história. É como se Renata houvesse caminhado sobre o chão desse lugar específico da cidade que há anos observa.

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Chão é uma exposição para se pensar em como e quando podemos ainda pisar no solo nu. Isto é, em um chão desnudo de construções de toda sorte nos impondo seus valores referenciais, significativos do sentido de propriedade e de mercadoria. Uma tarefa dificílima já que o tempo todo consumimos e somos consumidos pela ganância da produção capitalista.

Mas podemos?

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Nesses trabalhos, que transitam do papel ao espaço expandido da tecnologia, reflexões são possíveis, sim. Eles são um puro exercício visual, uma experiência estética proposta pela artista para ser vivenciada por quem for visitá-los na Galeria Virgilio.

Nesses trabalhos, Renata Pedrosa busca um refluir da paisagem de São Paulo ao criar projeções ampliadas dos desenhos que faz da cidade, por meio da sobreposição de suas diferentes vistas — encontradas em imagens apropriadas da Internet —, que dão a sensação de se estar caminhando no solo limpo, pisando o chão, sem que haja obediência alguma a comandos impositivos de operações políticas, próprias do lugar.

Na busca desse refluir da paisagem da cidade, antes inexplorada, uma imagem aérea, de 1958, de Paraisópolis compõe os frames da instalação Chão (projeção de vídeo sobre peças de gesso), que articula os outros cinco trabalhos expostos: Cidade Paraíso (desenhos); Ão Chão (vídeo e desenhos sobre papel quadriculado); Eletricidade (projeção sobre parede); Caixa-d’água (impressão sobre papel de outdoor) e Torres (objetos).

Os procedimentos formais que Renata utiliza para costurar sua narrativa do solo livre, porém agora tomado de construções diversas e problemáticas diversas estão assimilados nas coisas simples e cotidianas — palitos de fósforo, lâmpadas incandescentes, pequenas peças feitas de gesso, etc. — de que faz uso nos objetos que cria. Destituídos do rigor, na maneira como estão distribuídos pela Galeria, compondo com desenhos e vídeos, esses objetos são impressões da grande fragilidade social e econômica com que se sustentam alguns prédios e moradias de Paraisópolis em detrimento de outras construções robustas e grandiloquentes ao seu redor e sobre o mesmo chão.

A experiência do solo livre é válida para qualquer ponto da cidade, onde quer que se esteja na exposição.

São Paulo: uma cidade, um paraíso de grandes contradições culturais, sociais e econômicas que parecem não ter fim. Contando, Renata lança seu olhar e gesto para os quadros de desigualdade das relações humanas por entre estruturas fincadas sobre o solo circundante. Em seguida, dispõe tudo em frames que se repetem e se repetem…

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Aqui vale dizer que, nesses trabalhos, o papel quadriculado de desenho é suporte para marcar não uma cartografia do caminho percorrido pela artista, mas para contar o solo sobre o qual tudo se ergue e se destrói simultaneamente por meio do sistema do capital que inventamos. Por séculos estamos enrolados nesse sistema…

A ação de repetir é, assim, traumática de algo que não pode ser representado, Lacan; aqui, são as sensações contidas no conto visual de Renata Pedrosa.

Com efeito, podemos imaginar Renata andando nas ruas de Paraisópolis em busca do que agora nos apresenta. Também é possível nos imaginarmos nessas ruas ou em qualquer outro ponto do País. O solo é sempre um.

O que dizer da imagem de uma caixa d’água destacada pela artista em papel de outdoor?

Lara Almacegui, na apresentação de seu Guia de terrenos baldios de São Paulo, proposto para a 27ª Bienal de São Paulo, diz: “Os terrenos baldios são lugares em que quase tudo é possível, porque neles não há nada, são lugares de possibilidade em que o cidadão pode se sentir livre”.

Talvez seja essa a mesma linha que flui do conto de Renata Pedrosa sobre a paisagem de São Paulo, mas foram os versos da música Chão, de Lenine, que provocaram na artista a vontade de “nomear” a possibilidade de o “cidadão se sentir livre” no chão de que faz uso.

ps: este texto é apenas o início de uma longa conversa com Renata.

FOTOS: LUISA MEYER

*Curadora e crítica da arte.

 

 

 

* Este texto é inédito e exclusivo para a  Revista Philipeia.

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