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DA APELAÇÃO ESTÉTICA, DO SEXO E DA MORAL RELIGIOSA (PARTE 1)

Patativa Moog*

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As Alegorias do amor (Bronzino, séc. XVI)

 

Nada do que foi feito de grande ou pequeno, na arte, na política, na religião, no mundo ou na história do mundo, se realizou sem amor; e, sem ele, nada do que foi feito se fez. O único problema nisso, realmente, é compreender claramente o que se diz ou se quer dizer com “amor”, ou “o amor” – a grande palavra encobridora, com ou sem o artigo definido. Definido… Como?

O maior, melhor e mais claro tratado já feito sobre ele veio a lume em 1818, pelo gênio de Arthur Schopenhauer1, antecipando algumas teses de Charles Darwin e mergulhado em um “novo budismo” reexaminado, contextualizado sob o título Die Welt als Wille und Vorstellung, “O mundo como vontade e como representação”2. Nietzsche, em posse do referido e fascinado com o que lia, reverenciou o autor como sendo o seu “primeiro e único educador”, embora tenha se distanciado dele depois, por questões que, por hora, não vêm ao caso. “Nietzsche relata que seu encontro com O mundo como vontade e como representação, obra máxima de Schopenhauer, se deu ao entrar num antiquário em Leipzig, ano de 1865, e ter sua atenção chamada para o livro ali exposto. Comprou-o e teve a sua vida mudada para sempre. Ao iniciar a leitura, não mais conseguiu se desapegar das páginas. Sentia-se embriagado com as revelações ali feitas. Encontrara o seu ‘primeiro e único educador’, que tinha escrito aquele livro para ele e lhe falava intimamente numa linguagem perfeitamente clara. Sua confiança naquela forma de pensamento foi completa.”3

Tudo o que Nietzsche, Lou-Salomé ou Sigmund Freud dirão sobre Desejo, Eros, Vontade ou Pulsão, é mera repetição e/ou acréscimo àquilo que já foi dito por Schopenhauer… quando não descarrilam para afirmações pioradas. E Darwin, quando fala sobre a luta das espécies por sua preservação, somente amplia o que também já havia sido mostrado por Schopenhauer, quando tratava sobre o instinto sexual nas criaturas, a beleza na natureza, etc.

Recentemente, no Brasil, foi publicado um excerto de A origem das espécies (The origin of species, de 1859), pela Pocket Ouro, com o título: “A luta pela sobrevivência”. Nas 265 páginas do livreto, Darwin explica porque prefere esse termo e não o de Herbert Spencer4, “a persistência do mais apto”, embora a considere “mais exata e algumas vezes mais cômoda”5. “Nada mais fácil que admitir a verdade deste princípio: a luta universal pela sobrevivência; nada mais difícil – e falo por experiência – do que ter este princípio sempre presente no espírito, pois, caso contrário, ou se vê mal toda a economia da natureza, ou se atribui sentido errado a todos os casos relativos à distribuição, à raridade, à extinção e às variações dos seres organizados.”6

 A “A luta pela sobrevivência”, aqui, é a “Vontade de vida”, ali (em Schopenhauer), partindo de um aspecto menos científico – no sentido de a posteriori. Schopenhauer vê a Vontade geral (consciência geral subjetiva: a espécie) à luz do individual, mais fácil da análise objetiva. Na descrição do “amor” que os animais têm por suas crias, ao ponto de, por elas, sacrificarem-se, é essa “consciência geral subjetiva” que aparece, e não há amor nenhum aí – não no sentido romântico do termo7. No animal irascível não há amor porque não há a noção conceitual, estranha às criaturas meramente sensitivas; o que há é instinto, pulsão cega, etc. Em nós, além do instinto, o pensamento sobre o instinto, etc. Daí a subjetividade afetiva, o ideal subjetivo-sublimado de um Bem maior e final que seja fonte e medida de todo bem menos, animal – como o amor que um pai sente por ser filho, a mãe pelo pai, etc. O amor é amour de soi, amour-prope, amor a si mesmo – ou pela espécie humana, por sua preservação, no mais das vezes de modo inconsciente. Nisso, e em consequência, é sempre equivocado o pensamento que afirma um amor do tipo “altruísta”. A palavra “altruísmo” é talvez a palavra mais equivocada de todo e qualquer dicionário, em qualquer língua. No amour de soi, amour-prope, amor a si mesmo, o que há, ainda e inescapavelmente, é a Vontade agindo, no instinto, cego ou não. Deveras, o suicídio – como já foi dito com a citação de Pascal8 – não é uma demonstração de desapego à Vontade (de vida), mas ao contrário: demonstração da Vontade no limite de uma experiência finalíssima. Um trecho do Livro terceiro (“Do mundo como representação”) de O Mundo como Vontade e como Representação: “Nada mais difere tão amplamente da negação da Vontade de vida exposta suficientemente nos limites do nosso modo de consideração, e que constitui o único ato de liberdade da Vontade a entrar em cena no fenômeno, […] do que a efetiva supressão do fenômeno individual, na efetividade, pelo SUICÍDIO. Este, longe de ser negação da Vontade, é um acontecimento que vigorosamente a afirma. Pois a essência da negação da Vontade reside não em os sofrimentos mas em os prazeres repugnarem. O suicida quer a vida; porém está insatisfeito com as condições sob as quais a vive. Quando destrói o fenômeno individual, ele de maneira alguma renuncia à Vontade de vida, mas tão-somente à vida. […] A Vontade de vida aparece tanto na morte auto-imposta (Shiva), quanto no prazer da conservação pessoal (Vishnu) e na volúpia da procriação (Brahma).”9

Se o suicídio é a única questão filosófica realmente séria, como Camus afirma10, a resposta à continuidade da vida – qualquer que seja ela – é uma resposta à Vontade; e a Vontade, que é, precisa da continuidade da espécie além do indivíduo. Se “no um está o todo”11, é de modo genérico-representativo, na individualidade da espécie enquanto representação da cadeia de cadeias ligadas a grande trama (ou reino) das coisas que são no mundo, vivas. Assim, e “por mais desinteressada e ideal que pareça [a] admiração por uma pessoa amada, o alvo real é a concepção de um novo indivíduo de determinada natureza.12” Nisso, a beleza do corpo é propaganda da sua saúde, da aptidão genética à geração de um novo indivíduo, resultado do intercurso sexual: “A inclinação amorosa, antes de mais nada, procura no sexo oposto um corpo sadio, forte e belo e, por conseguinte, juventude. A Vontade deseja representar, antes de tudo, o caráter geral da espécie humana, como base de toda individualidade.”13

Quando Nietzsche fala da antinatureza cristã, em sua grande crítica ao cristianismo, não é sem considerar tais fundamentos. O ágape, ou o amor ao feio, ao débil, ao aleijado, ao corpo velho, et cetera, é a subjugação do real pelo ideal: a naturalidade invertida, a mentira do romantismo ingênuo da pia moral cristã. “O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, malogrado, transformou em ideal aquilo que contraria os instintos de conservação da vida forte”, ele diz; e continua: “O cristianismo corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes de espírito, ensinando-lhes a perceber como pecaminosos, como enganosos, como tentações os valores supremos do espírito. E exemplo mais lamentável – a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção de sua razão pelo pecado original, quando ela fora corrompida apenas pelo seu cristianismo!”14

Schopenhauer, Darwin, Freud, Lou-Salomé… Nietzsche. É bom que o leitor tenha essa ordem em mente, para o que será dito daqui por diante. No mais, a emergência do indivíduo e do individualismo egoísta15, desde o século XVIII para cá, somente veio somar pontos ao que fora exposto pelo velho mestre alemão, sobre o Eu individual e sobre a Vontade de vida, a quem me dou como quem abduzido, hipnotizado, por amor a mim mesmo, em obediência à Vontade, às vezes consciente, às vezes não. A nossa tagarelice sobre o que seja ou não seja “[o] amor”, ou “aquilo que acreditamos sentir por uma pessoa amada”, é sempre e ainda resposta à Vontade que está oculta na presença enganosa da ação afetiva em relação ao Outro, de um jeito ou de outro, na intenção de que continuemos, sem o escape que o suicídio parece insinuar, enganosamente – “O desespero não tem fim & o suicídio não acaba com ele…”, Wittgenstein diz em seu Diário16. Sim, pois a vida quer, acima de tudo, viver. E mesmo que eu acabe com a minha vida, a vida segue adiante, e o desespero.  Quando insistimos no erro de pensar em um amor ideal, transcendente a nós, não é por amor ao erro ou ao Outro que insistimos, mas por amor a nós mesmos. O Eu, aí, está além de qualquer moral, sempre além do bem e do mal.

* Mestre em Filosofia (UFPB) e doutor em Teologia (PUC-RS)

NOTAS:

1 Arthur Schopenhauer (1788-1860). Gênio que não foi reconhecido por sua mãe, por exemplo. Consta que, em 1813, depois de redigir e publicar a tese A quádrupla raiz do princípio da razão suficiente – que será, depois, completamente absorvida em O mundo como vontade e como representação –, ouviu a mãe (Johanna Henriette Trosina) zombar do conteúdo, dizendo que a obra não era mais que um livro para farmacêuticos. Schopenhauer reagiu dizendo que os romances dela não sobreviveriam à posteridade, e que ela somente seria lembrada por ser “a mãe de Schopenhauer”. Parece que ele, afinal, também nisso, tinha razão.

2 Há duas boas traduções para essa obra, no Brasil. A melhor, sem dúvida, é a de Jair Barbosa: SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação, I tomo. São Paulo: Editora UNESP, 2005. 695 p. É a que utilizo.

3 BARBOSA, Jair. Apresentação: um livro que embriaga. In: SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação, I tomo. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 7.

4 O britânico Herbert Spencer (1820-1903) é um dos mais ilustres representantes do positivismo. Admirador da obra de Darwin, Spencer cunhou o termo “sobrevivência do mais apto”, aplicando um darwinismo às vezes bem pessoal, pelos níveis que propunha às análises que fazia da atividade humana. Por isso, e embora não tenha falado de um “darwinismo social”, o termo veio a calhar à sua própria obra – pela tentativa de justificar a divisão social (classes) com base na seleção natural.

5 DARWIN, Charles. A luta pela sobrevivência. Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009. p. 7.

6 DARWIN, 2009, p. 7.

7 “A lontra, quando perseguida, pega seu filhote, mergulha com seu corpo e enfrenta as flechas dos caçadores enquanto a sua cria se salva. Fere-se um filhote de baleia apenas para atrair a mãe, que acode em seu socorro, e raramente dele se separa enquanto este viver, mesmo que seja atingida por diversos arpões – Na ilha dos Três Reis, na Nova Zelândia, vivem focas colossais chamadas de ‘elefantes marinhos’. Nadam ao redor da ilha em bando organizado e alimentam-se de peixes. Têm, porém, sob a água certos inimigos cruéis e desconhecidos que muitas vezes os ferem gravemente. Por isto, o seu nado em comum exige uma tática especial. As fêmeas dão cria nas margens, e depois, enquanto amamentam, o que demora de sete a oito semanas, todos os machos formam um círculo em seu redor, para impedi-las de ir ao mar, impelidas pela fome. Quando, porém, o tentam, são repelidas a dentadas. Assim, durante sete ou oito semanas, todos juntos passam fome e emagrecem muito, tudo isto para impedir a saída dos filhotes ao mar, antes que sejam capazes de nadar bem e obedecer à usual técnica de natação, que lhes é ensinada a trancos e dentadas. Isto demonstra também, até que ponto o amor dos pais pelos filhos, como qualquer outra forte manifestação da Vontade, aumenta a inteligência. Patos selvagens, toutinegras e muitos outros pássaros, quando o caçador se aproxima do ninho, voam com altos alaridos e se precipitam aos seus pés, esvoaçando de um lado para o outro, como se estivessem paralisadas suas asas, tudo isto para chamar sobre si a atenção do caçador e desviá-la dos filhotes. A cotovia entrega-se ao cão, procurando com isto fazer com que ele se afaste do ninho. Também corças e veados procuram atrair a si a atenção da caçada e fim de salvaguardar os filhos. Voaram andorinhas até casas em chamas para salvas seus filhotes, ou para morrer com eles. Em Delft, uma cegonha deixou-se queimar no ninho, num violento incêndio, para não abandonar seus filhotes que ainda não sabiam voar. Pássaros selvagens, ao chocar, deixam-se apanhar no ninho. A muscicapa tyrannus defende seu ninho com grande valentia, e enfrenta até a águia. Cortou-se uma formiga ao meio e viu-se a sua metade dianteira pôr ainda a salvo os ovos. Uma cadela, de cujo corpo se cortaram os filhotes, arrastou-se moribunda até eles, lambeu-os com amor, e começou só a gemer horrivelmente quando lhos tiraram.” (SHOPENHAUER, Arthur. O instinto sexual. São Paulo: Edições INEDOS, 1951. p. 37-8). O cuidado, aí, é mais à espécie que ao indivíduo – embora seja nele que mais parece aparecer. É de igual modo no homem, e na mulher, e na espécie humana. O impulso não é pela morte, mas pela vida.

8 “Todos os homens procuram ser felizes; não há exceção. Por diferentes que sejam os meios que empregam, tendem todos a esse fim. O que leva uns a irem para a guerra e outros a não irem é esse mesmo desejo que está em todos, acompanhado de diferentes pontos de vista. A vontade nunca efetua a menor diligência, senão com esse objetivo. Esse é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo do que vão enforcar-se.” (Pens., VII, 425. PASCAL, Blaise. Pensamentos. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1998. p. 137. [Col. Os Pensadores]).

9 SCHOPENHAUER, 2005, p. 504 (§ 69).

10 “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” (CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2010. p. 19).

11 Como na referência que Gregório de Nissa (331-394) faz a Demócrito de Abdera (c. 460-370 a.C.), sem mencioná-lo, em que o homem aparece como um microcosmo que traz em si o macrocosmo, em resumo: “[Filósofos] pagãos imaginaram coisas mesquinhas e indignas da magnificência do homem na tentativa de glorificar a humanidade; de fato, disseram, que o homem é um ‘microcosmo’, composto dos mesmos elementos do cosmo e com este nome pomposo quiseram fazer elogio de nossa natureza esquecendo que desse modo tornavam o homem semelhante aos caracteres próprios do mosquito e do rato.” (De opif. hom., XVI; NISSA, Gregório de. A criação do homem. São Paulo: Paulus, 2011. p. 95-6. [Col. Patrística, 29]). O progresso nas ciências biológicas, afinal, daria razão ao pagão Demócrito, fazendo emudecer a oratória eloquente do teólogo e místico Gregório, Padre capadócio.

12 SCHOPENHAUER, 1951, p. 44.

13 SCHOPENHAUER, 1951, p. 46.

14 NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo: Maldição do cristianismo: Ditirambos de Dionísio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 12 (§ 5).

15Penso em Max Stirner, pseudônimo de Johann Kaspar Schmidt (1806-1856), mas falo dele depois.

16 WITTGENSTEIN, Ludwig. Movimentos do pensamento: diários de 1930-32/1936-37. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 90. (Col. Tópicos).

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