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                            APOLOGIA DA ARTE “ALIENADA”

Beano Regenhaux*

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Piero Manzoni, 1961.

Haja vista que muitos frankfurtianos tendem a querer subordinar a dimensão estética das obras de arte a um conteudismo que visa esclarecer mecanismos de dominação ideológica, e que tal perspectiva é muito bem recebida num nível de análise acadêmico nas ciências humanas, verifico um ensejo para propor uma reflexão crítica no nível da fruição do estético, a despeito dos libelos de “arte pela arte”, “sujeito ludibriado pelos estetas que se recusam a ver os determinantes da esfera de produção”. Como se a experiência de apreensão estética estivesse determinada pelo conjunto de ideologias de classe que envolve a biografia dos artistas e não pudessem ser transgredidos pela acepção do espectador de uma cultura distinta; a obra de arte e sua interpretação como propriedade de uma ideologia, de um artista ou de uma tradição, o que denota a reivindicação eletiva de uma perspectiva de análise sobre os produtos estéticos por parte de uma classe intelectual. Antes de sustentar uma posição que justifica a opção de um purismo, da arte pela arte, denuncio o purismo da ideologia de classe que se realiza por ela mesma, concentrando as atenções para um esgotamento da práxis ad hoc e que ignora o resíduo barthesiano (e suas possibilidades) da experiência estética.

Esta minha inquietação justifica-se pelo motivo de que abundam tais posições no meio acadêmico e que há uma cruzada “anti-ilusionista”, pretensiosamente iconoclasta, assumidamente “desmancha prazeres” – conforme Bourdieu detecta em seu A Dominação Masculina -, por parte dos estudiosos do pensamento social, investidos no desencantamento weberiano e no gozo aurático, por ser, supostamente, um “privilégio” único da categoria em seu exercício da desnaturalização das disposições sociais. Ora, pelo ponto de vista sociológico mesmo, depreende-se que a (hiper) especialização dos campos (arte, ciência, profissional) é uma implicação mesma da complexidade da estrutura social da sociedade ocidental, do acúmulo de saberes, do excedente técnico e material, algo que já fora há muito identificado seja por Durkheim ou Norbert Elias na psicogênese dos indivíduos e na sociogênese desses campos.

A disposição de isolamento, de autonomia do campo por si mesmo, aliada ao individualismo ocidental manifesta-se não só na assunção “burguesa” e “elitista” da arte pela arte, mas também no estilo das obras, na percepção e em suas concepções, na busca de uma forma pura e visionária, como Mondrian e os neoplasticistas assumiriam. O libelo dos obcecados por extrair ideologias ou esquemas logísticos de produção material das obras, bem como a sua repercussão na estratificação social, não se sustenta ao acusar um obscurantismo ou mistificação das relações de dominação ou na crença no “gênio” do artista e na originalidade do estilo e das formas puras acionadas pelos indivíduos artistas. Edgar Morin[1] em O Cinema ou o Homem Imaginário já assinalou o quanto o cinema representa em suas exibições ficcionais, uma mitologização do cotidiano da práxis, um arranjo, longe de ser puramente abstrato ou realizado num outro plano da realidade, que se constitui numa linguagem próxima dos mitos ou dos rituais religiosos. A noção de pessoa individual, atomizada e única, enquanto herança do modelo de pessoa cristã[2], afirmada na ideologia protestante ou capitalista pode ser convergida e concentrada naquilo que os marxianos, reconhecem como superestruturas, o simbólico e o ideológico, que se precipitam e se reforçam na esfera artística e religiosa.

A despeito do encantamento, da catarse transcendente, das sensações extáticas/estáticas aduzidas do nível estético, que tendem a ser associadas, pelos estudiosos das ideologias, à alienação, um estatuto de profunda distância da realidade e camuflagem das posições dos indivíduos na estrutura de produção, a reflexividade do/para o estético proveniente da concepção estilística, pressupõe o distanciamento, o estranhamento das disposições “naturalizadas” e naturalistas, tal qual o empreendido pelos sociólogos e estudiosos do habitus social.

O caráter consciente e enunciador de teorias ou pontos de vista criativos e vanguardistas, presentes na arte moderna e contemporânea, antes de ser um formalismo inócuo ou dispositivo mistificador que reflete a dominação e a estratificação social, trata-se de uma construção inovadora que visa transformar o social, adicionando-lhe novos conteúdos e planos de referência. Conforme Ortega Y Gasset[3] previra, a desumanização da arte é um distanciamento das disposições realistas, naturalistas e românticas que se cristalizam numa arte figurativa, a “vontade de estilo” para ele é necessariamente, uma deformação do real, um distanciamento-estranhamento que se apropria das técnicas e do real para transformá-lo, arrisco a dizer, micropoliticamente.

Mesmo que haja uma defasagem entre o plano perceptivo e sensitivo do artista para com as massas – o ritmo de transformação e intervenção no real operado pelo artista contemporâneo tende a comunicar-se com uma população do futuro -, tal diferenciação de apropriação temporal também se esconde na dimensão liminar dos rituais religiosos, em que os sacerdotes e outros agentes dominam as técnicas e a linguagem litúrgica, bem como seus efeitos. Victor Turner[4] expõe o papel de transformação social, tanto da esfera liminar (os ritos que reafirmam a estrutura social, sobretudo nas sociedades tribais), quanto na liminoide (a atividade lúdica e de entretenimento individual especializada na sociedade industrial, e consolidada na de consumo, no Ocidente).

O destacamento da atividade estética contemporânea dos imperativos de institucionalização e do controle políticos oferecido pela complexidade estrutural da sociedade industrial (e depois de consumo) não se trata de um exercício de consciência alienada dos artistas da ‘elite’, nem de um mecanismo alienador do público espectador, mas de um exercício estético (de fruição do estilo) que instaura reflexividade do real (pela diferenciação entre estilo autoral e a redundância do real naturalizado) que se aproxima da atividade ritual enquanto agenciamento de símbolos e ato marcadamente “extraordinário” de separação entre o nível sagrado e o profano. Esta cisão se processa a partir dos elementos de culto: originalidade da obra e do artista enquanto culto e também dos procedimentos formais e a rotina social associada a esse circuito, enquanto atividade eminentemente sublinhada, ou seja, a constituição de comunidades de culto, a formação específica dos connaiseurs e a especialização formal da contemplação em dispositivos e modus operandi para o culto das obras.

Este texto, enquanto provocação anunciada, delimita um pretenso exercício de reificação da atividade acadêmica enquanto monopólio para a ação de reflexividade, por parte dos estudiosos do pensamento social, imbuídos em uma atividade que tende a ser vista e divulgada como imparcial, que pretende uma impressão “nobre” de busca desinteressada pelo conhecimento, mas que deve ser encarada como um suporte de um jogo de interesses e poder de uma cultura de classe, visando a legitimar sua visão de mundo e seus jargões reproduzidos à exaustão (segundo a noção de campo científico em Bourdieu). Um setor da classe dominante (os intelectuais) que se coloca como mais legítimo que outro (os artistas), uma hierarquia entre uma apropriação “masculinista”, portanto séria e sóbria, da razão, em detrimento de um uso desviante da mesma, acessório, cosmético, portanto irracional, alienado ou “feminino”.

Explico-me: a noção marxiana de trabalho alienado, na qual se verifica um exercício profissional deslocado da vida interior dos sujeitos mobilizados, de suas motivações e cuja atividade lhes é totalmente alheia e direcionada, enquanto meio, não como fim em si mesmo, para outra atividade (subsistência, existência), não se aplica ao caso da atividade de produção simbólica e estética, uma vez que esta não se coloca unicamente como um meio para atingir fins, de forma deslocada do engajamento e da vontade do sujeito. A mobilização dos símbolos, dos mitos e dos produtos estéticos, seja pelo autor-emissor, seja pelo público-receptor, na esfera religiosa e artística, se encontra totalmente inserida não só num plano afetivo, puramente emocional “que deturpa a capacidade racional dos sujeitos”, mas no plano de agência e avaliação crítica da realidade: trata-se de uma atividade que oferece reflexividade – situar simbolicamente informações novas nos esquemas mentais de percepção preexistentes -, “alienação” no sentido de “estranhar” e não no sentido de se tornar integralmente alheio à cultura objetiva especializada que lhe é imposta, no sentido simmeliano. O que tanto permite a incorporação dos conteúdos estranhos, quanto um paralelo, como sugere Victor Turner, entre a reflexividade teórica dos cientistas e a reflexividade estética dos artistas e nas comunidades de culto (religioso, artístico).

[1] MORIN, Edgar. O Cinema ou o homem imaginário: ensaio de antropologia. Lisboa: Moraes Editores, 1970.

[2] Ver MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

[3] ORTEGA y GASSET, José. A desumanização da arte. 2ed. São Paulo: Cortez, 1999.

[4] TURNER, Victor. From Ritual do Theatre. New York: PAJ Publications, 1982.

* Mestrando em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

TEXTO INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA / ISSN: 2318-3101.

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