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A CRISE LITERÁRIA DO HUMANISMO

foto para rev

Luiz Augusto Crispim*

O homem é um complexo intenso de potencialidades expressivas. Desde as mais remotas épocas experimentou dessa necessidade dominante de comunicar as suas próprias reflexões. A brutalidade intrínseca de princípio não foi suficiente para destruir essa auto-consciência humana que mais tarde haverá de se elevar à categoria de manifestação artístico-expressiva. A partir do momento em que a Arte passa a converter (conscientemente é claro) situações concretas em fenômenos de pretensões críticas, participantes da realidade, começam a se delinear os primeiros limites que irão distinguir dois tipos antagônicos de expressão. Esta integração, ou melhor, esta disposição inicial coincide certamente com o período de intensidade dos métodos capitalistas que florescem vigorosamente nesta última mudança de século. O caso apresentado por Lukács, segundo o qual o romance balzaquiano funda um novo fluxo na corrente ficcional adquire expressão prática quando se enfoca por exemplo a situação de “noveu roman” inteiramente condicionado por uma estrutura social reificante, instalado num contexto de transformação capitalista incapaz de uma identificação essencial humanística.

A arte se submete, desse modo, a uma diversificação intransigente no que se refere à comunicação do conteúdo envolto não raramente no refinamento intraduzível de novas e cada vez mais herméticos padrões formais. Há como que uma região privada no interior da qual se desenvolve o pensamento humano atual. Os limites dessa região vieram se definir com firmeza a partir das primeiras contradições ligadas ao impulso tecnológico e a necessidade de produzir para o mercado nas sociedades liberais. A existência de um sub-contexto desenvolvido no seio dessas sociedades, contudo, não eliminou as fases que determinariam a estagnação de uma certa área da cultura antes mantendo-o afastada de suas perspectivas não só pelo hermetismo da produção como também pelas implicações havidas através das lutas de classe. Com isso, surge a necessidade de conceituar essas áreas culturais.

Antes há que distinguir duas espécies fundamentais de atitudes expressivas, ambas referidas a uma mesma realidade política, entretanto interceptadas em planos sobrepostos e estanques, radicalmente apartadas em seus motivos e mais ainda – em suas formas de comunicação. Essas expressões – erudita e popular – enram em ação conflitiva e exatamente à altura daquela luta armada pela intensidade da produção em face da desorganização de uma classe que não é outra senão o próprio elemento produtivo das sociedades liberais. A classe dominante dispõe, naturalmente, dos meios de divulgação, excluindo com isto tranquila e sistematicamente de seus programas toda e qualquer manifestação pretensamente artística ligada à realidade dinâmica.

Nos contextos subdesenvolvidos, finalmente, dispara o artista com uma problemática formal decisiva no período de formação sócio cultural. Surge, pois, o problema de como usar a forma; já não basta simplesmente participar. Há que estabelecer neste ponto uma razão estética, uma estrutura dorsal de sustentação em torno da qual existirá um verdadeiro complexo artístico daí por diante.

Eis o conteúdo do atual impasse vivido pela arte moderna num mundo em perpétua custódia (de jovens e de vermelhas guardas), num deserto cristão, totalmente desguarnecido, nos sertões nordestinos, ou no caos palustre das Américas vizinhas.

O monopólio da cultura parece realmente se instalar, como assinala Joseph-Emile Müller, com as novas perspectivas da reprodução em série, aspecto aliás, amplamente desenvolvido por Fischer, cuja análise das relações integradas pelos decantados elementos sujeito-objeto-público, recorre ao rudimentar, ao artesanato simples para a compreensão dos motivos que conduzem em última análise, a uma divisão da arte. O controle dos meios de divulgação, a reprodução em massa agravada pela deformação tecnológica e finalmente, como desfecho particular o absurdo da, determinam um estado de necessidade artística quase tão penosa quanto a própria fome talvez muitas vezes mais grotesca que isso. Contudo, como encarar os “mobiles” de Calder, o concretismo cibernético de Max Bense, os “happenings” etc, etc? Não pode haver expressão mais conclusiva da reificação, da esterilização artística que esta manifestada pela difusão do fenômeno estético e do tecnológico num único realismo fenomenológico.

A arte moderna, ou melhor, a produção que a caracteriza, deve sua intensa dinamicidade atual à marginalização dos artistas nas chamadas sociedades de classe. Esta dinamicidade, todavia, não desperta, como seria de esperar, uma corrente de recepção, correspondente a uma necessidade expressiva e com raízes na unidade inconteste das massas. Não. O conceito de arte parece estar aliado em nossos dias a um sentido de dominação político-social, de subordinação mesmo para o qual nem mesmo as estruturas formadas com base no proletariado conseguiram desenvolver atitude crítica coerente. Observe-se, por exemplo, as preferências da juventude atual, não apenas nos países socialistas, também entre as civilizações tradicionais e as conservadoras, até, movidas geralmente em torno de qualquer imagem dissonante do cotidiano, que possa sem grandes esforços – e frequentemente é o que acontece – transformar-se em depositário transitório de suas pretensões, quando não de seus recalques, de suas frustrações ambientais. Essas transferências, entretanto, outras vezes transcendem os limites do vulgar, do panfletário para a negação radical dos padrões vigentes resultando daí as mais honestas denúncias a que tivemos ocasião de assistir nos últimos tempos do gênero Beatles, contra as formas de reificação capitalista, da Bossa Nova brasileira, contra a estandardização.

Nas sociedades de transição como a nossa será possível “teorizar” acerca da arte, indagar sobre problemas de forma e conteúdo como fazem os Fischers e os Lukács europeus assim como os Hausers e os Garaudys das civilizações complexas? A aceitação de uma Lispector, por exemplo, num meio de mais de 50 milhões de analfabetos não implicará porventura numa deposição irremediável dos instrumentos cuja manipulação é semi privativa da arte, no caso da literatura? Contudo, como negar Clarice Lispector? Como negar um Robbe-Grillet ou um Camus – sem ferir gravemente todo um processo de composição artesanal cujas raízes alcançam – pelo menos é o que nos afirmam N. Sarraute – Dostoiévski o que significa pesquisa, ação documental, embora, não se há de negar… distorcida, alienada do complexo onde tem (ou não os terá?) fixos os fundamentos objetivos de uma realidade bem diversa da que deflagra.

* Foi ensaísta e jornalista paraibano. Nasceu em 1945 em João Pessoa e faleceu em 2008. Este texto é extraído do seu livro “Por uma estética do real”, publicado pela União Editora em 1969 na cidade de João Pessoa/PB.

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