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CARTA A LÍDIA

Edson Costa Duarte*

            Agora estou no pó das tempestades. Depois no rosa, fênix se abrindo e entrelaçando dor e agonia. O muro das horas no fundo do tédio. Depois o nada. Nem salvação terrena, ruína da alma entre os escombros do mármore. Que dureza a tua, Lídia, que rispidez de formas nas tuas mais novas rugas! Desarmonia tatuada em teu rosto.

            Tu eras bela sim, e eu apenas quase. Complexo jogo de xadrez no tabuleiro de ouro. A xícara de café imóvel por trinta minutos. O pó se acumulando no fundo. Um barulho aqui, outro ali. E nada. Não há ausência nem solidão no mundo. Isso me basta, meus restos no formol como pedi.

            Breve a ilusão de que é possível sobreviver ao tempo. Mas neste agora estou no pó das tempestades. Fênix engolindo luz e sombra. Eu galopando no verde, ao lado de minha namoradinha antiga. Ela me sendo, nós dois um único corpo no movimento da hora. Haverá ainda o seu último sorriso antes de tudo. Ela virando a cabeça para trás. Um louva-deus sobre o momento. Tudo se encaixa. O labirinto é o mundo, a textura de cores que não entendo.

            Prepara meu testamento póstumo. Nenhum verme roerá as frias carnes do meu cadáver. Eles se foram, querida, à procura de algo mais farto e tenro. Mudo e pleno sei o quanto sou pouco. Quinta galáxia depois de Andrômeda. A Via-Láctea. A lua. Habitarei para sempre em Marte. Depois de cem milhões de anos, virás ter comigo. É bela e triste a agonia da alma. Tudo respira e é. Inutilmente. E eu, diluído neste agora.

****

* Nasceu numa pequena cidade de Minas Gerais, Pratápolis. Foi, ainda menino, para Campinas/ SP. Estudou Letras na Unicamp, onde também fez mestrado na obra de Clarice Lispector. Em 2002, mudou-se para Florianópolis para fazer seu doutorado, na UFSC, sobre a poesia de Hilda Hilst. Desde 2006 voltou a morar em Campinas. Entre 2007 e 2009, fez um pós-doutorado sobre a prosa de Hilst, sob supervisão do professor Dr. Jorge Coli, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp. Organizou o acervo documental da escritora Hilda Hilst, que foi negociado em duas partes com o Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”, Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, em 1995 e em 2002.

MATERIAL INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA / ISSN: 2318-3101

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