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ARIANO SUASSUNA, O PENSADOR DA CULTURA

 Jomar Ricardo Silva*

Suassuna

Ariano Suassuna, romancista e dramaturgo, nascido no Estado da Paraíba em 1927. Pertence a uma família tradicional, sertaneja e protestante. Em 1950, formou-se em direito e, no ano seguinte, converteu-se ao catolicismo. De 1956 a 1987 foi professor de Estética na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife.

Em 1972 publicou Iniciação à estética, uma síntese das aulas ministradas naquela disciplina. Muitos temas são abordados, e o mal é analisado no capítulo A arte e a moral como fenômeno estético, a partir de uma discussão travada entre duas posições antagônicas, protagonizadas por Hegel e André Gide, culminando com uma crítica do autor às contradições apresentadas nos textos de Jacques Maritain sobre a problemática, instigada inicialmente pelo crivo de três proposições.

A posição de Suassuna refere-se à necessidade de escritores tratarem do Mal com a finalidade de uma catarse e atenuar seus malefícios. Afirma ele:  “Temos que levar em conta, em nossas reflexões sobre isso [o Mal], o fato de que existem escritores e artistas que sentem necessidade irresistível de fazer do Mal e do Feio assunto de criações, numa espécie de tentativa de cicatrização de Mal e do Feio e, também, numa certa forma de purificação”. Essa citação, em favor da relação existente da Arte para com a Moral, com um argumento diferente das reflexões deixadas por aqueles filósofos, seria suficiente para alçá-lo à categoria de pensador da arte, se, não pela quantidade da produção, pela suficiente originalidade que dela emana. Mas Ariano, no alto de sua sabedoria, renega com humildade tal epíteto para si.

   Mesmo não aceitando ser chamado de filósofo, ele possui o gênio raro de transportar para a realidade, seja para sua vida real ou fictícia, através das suas personagens, determinadas reflexões teóricas. Um exemplo disso seria a realização do Movimento Armorial em que trata de conceber “uma arte erudita a partir das nossas raízes populares”, como escreveu Carlos Newton Júnior, em artigo no jornal Correio da Paraíba (15/06/2007). Logo, podemos afirmar que ele é um pensador da Arte, com propostas políticas definidas para a cultura brasileira, alinhando numa matula de vivências, a pesquisa empírica das manifestações regionais e as incursões na herança conceitual de tradição clássica.

Diante disso, sua obra retrata a condição humana, de notável motivação local – preponderância das oligarquias rurais em detrimento dos pobres, a seca e a fome no interior do Nordeste – em contraste, revelado de forma aparente, com as questões de teor universal: o medo da morte, a justiça, o adultério e a relação entre o homem e Deus. Tudo acogulado de intrigas cômicas, sem perder o senso crítico. Não a crítica externa, de existência prévia à consecução da obra, mas de uma crítica realizada no processo de construção da trama, com poder de corroer a sociedade por dentro, através dos agentes sociais representados nas personagens.

Em se tratando do Mal, é emblemática a parúsia da peça teatral, O auto da compadecida. Ele entra em cena na pele do cangaceiro Severino e do seu cabra, respectivamente o chefe e um membro do bando de cangaceiros, atendendo a expectativa do senso comum, pelos seus atos cruéis, na condição de pessoa perversa, para no epílogo ser motivo de indignação, ou seja, de justiça, frustrando a esperança de que o Mal deve ser castigado.

Na visão do catolicismo popular narra-se o diálogo entre Manuel (Jesus Cristo) e o Encourado (diabo) sobre a condenação-absolvição de Severino. Nesse desfecho relata-se o julgamento das personagens. Pela expectativa do diabo, um indivíduo com mais de trinta assassinatos praticados, deveria ter contra si a ira divina e receber, de modo sumário, o castigo para arder durante a eternidade nas chamas do inferno. No entanto, Manuel escandaliza ao absolver os réus, sob o protesto do adversário. Argumentou seu veredicto redarguindo o seguinte:

 “Contra o qual já sei que você protesta, mas não recebo seu protesto. Você não entende nada dos planos de Deus. Severino e o cangaceiro dele foram meros instrumentos de sua cólera. Enlouqueceram ambos, depois que a polícia matou a família deles e não eram responsáveis por seus atos”. (Grifos nossos).

A personagem surpreende ao ir de encontro ao que costumeiramente se entende por justiça, porque trouxe para o julgamento fatores ignorados pelos próprios agentes das ações e imputa ao acusador, o Encourado, a responsabilidade dos crimes, na situação de sujeito oculto, a insuflar intrigas e contendas. Pelos argumentos do Filho de Deus, os culpados não só são inocentados, mas passam para a condição de vítimas.

 Arrazoando a decisão de Manuel, pode-se dizer que em certas situações existenciais, indivíduos perdem o senso da razão, ficam enlouquecidos, se tornando irresponsáveis por seus atos. A animadversão, o desespero, a humilhação não permitem o distanciamento para a análise imparcial da situação, sendo, então, impulsionados para a violência. Mas como defendia Lacan, a loucura tem sua própria lógica e a de Severino e de seu cabra, conduziu-os ao céu. Entretanto, o estado mental em que se encontravam torna-se menos importante no enredo, parecendo mais um pretexto do narrador, do que as motivações implícitas propiciadoras da loucura.

A obra alerta a todos para o problema do julgamento sem fundamentação, com preconceito, desconhecendo os motivos que levou determinada pessoa a agir, ser, pensar desta ou daquela forma. Quando se age dessa maneira obtém-se resultado oposto do pretendido. Em vez de fazer justiça, pratica-se a iniquidade.

 * Sociólogo; Professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

TEXTO INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA / ISSN: 2318-3101

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