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A IMORTALIDADE REAL OU A DIALÉTICA DAS CONHAS:

QUEM FOTOGRAFOU O SILÊNCIO NÃO MORRE.

Wécio Pinheiro Araújo*

“Não sou biografável. Ou, talvez seja. Em três linhas.

1. Nasci na beira do rio Cuiabá.
2. Passei a vida fazendo coisas inúteis.
3. Aguardo um recolhimento de conchas.

(E que seja sem dor, em algum banco da praça, espantando da cara as moscas mais brilhantes).”

Manoel de Barros

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O poeta “virou passarinho” – declarou Joana de Barros, ao sair do hospital após o falecimento do corpo do seu avô, o poeta Manoel de Barros, segundo informações, às 10h30 desta quinta-feira (13/11/2014). Não contive as lágrimas. No entanto, logo me recordei do meu primeiro encontro com Manoel de Barros quando certa vez li a história de como ele e Guimarães Rosa se conheceram, em matéria do jornalista Bosco Martins para a Revista Caros Amigos[1].

O encontro entre os dois ocorreu num barco em meio às águas paraguaias do pantanal sul-mato-grossense, e o próprio Manoel registrou parte desse episódio, no qual curiosamente falam sobre a morte, motivo pelo qual foi simultaneamente tão óbvio quanto inevitável, pra mim, relembrar tudo isso no choque da notícia nesta manhã de novembro. Sem bem recordo, conta-se que o poeta cuiabano avistou o célebre escritor Guimarães Rosa pela primeira vez ainda à distância, todo pomposo, chapéu, se abanando com um leque, por demais elegante observando um balé de andorinhas no céu do pantanal, e completamente indiferente ao resto. Ao se aproximar, sem cumprimentos ou convenções formais, Manoel simplesmente lançou meio desajeitado um verso de improviso contra o aristocrático leque de Guimarães Rosa: “Andorinhas encurtam o dia”. Pronto, aquele instante havia marcado a vida dos dois para sempre. Nascia uma grande amizade.

Já em terra firme, enquanto passeavam pela roça de mandioca, Guimarães quebrou o gelo falando-lhe sobre os tatus e como estragam as roças e comem as raízes. Conta o próprio Manoel – e na sua narrativa vemos a morte, sem querer, entrar em pauta na conversa:

“Remédio contra tatu é formicida. Fura-se um ovo, bota formicida dentro e esquece ele largado no solo da roça. Rolinha passa por cima e nem liga. Mas o tatu espurga, vem e bebe o ovo. Sente a fisgada da morte num átimo e sai de cabeça baixa, de trote pra o cerrado, penando na morte. Homem é igual, quando descobre sua precariedade, abaixa a cabeça. Já sabe que carrega sua morte dentro, seu formicida. Essa é a nossa condição – Rosa me disse. Falou: eu escondo de mim a morte, Manoel. Disfarço ela.”

Para os gregos antigos, a morte não tinha ainda a mórbida representação cristã e ocidental de um esqueleto ou uma caveira; ao contrário, ele aparecia na mitologia entre os deuses como o “irmão do sono”. O mito ilustrava no sono como os antigos temiam menos a morte. Na filosofia moderna, Hegel postula que a imortalidade seria possível pela significação universal que uma pessoa adquire por sua morte. Já Manoel, alcançou a síntese agreste entre o mito e a razão, e sem qualquer prolixidade vencia toda metafísica com uma simplicidade contraditoriamente profunda revelada na sua poesia; como vemos na sequência da sua narrativa supramencionada sobre a conversa entre ele e Guimarães Rosa:

“Lembra o livro do nosso Álvaro Moreira? A vida é de cabeça baixa? Deveria de não ser – ele disse. Chegamos perto da metafísica. E voltamos. Havia araras. Havia o caramujo perto de uma árvore. Ele disse: Habemos lesma, Manoel. Eu disse: caramujo é que ajuda árvore crescer. Ele riu. Relvas cresciam nas palavras e na terra. Rosa escutava as coisas. Escutava o luar comendo as árvores. E, como é o home aqui, Manoel? Eu fui falando nervoso. Ele queria me especular. O homem se completa com os bichos – eu disse -, com os seus marandovás e com as suas águas. Esse ermo cria motucas. Por aqui não existem ruínas de civilizações para o homem passear dentro delas. Só bichos e águas e árvores para a gente ver. Não têm coisa de argamassa, ferragens destripadas do deserto, essas coisas que aparecem nos relentos da Europa. Aqui é brejo, boi e cerrado. E anta que assobia sem barba e sem banheiro. Rosa me olhou de esguelha.”

A imortalidade no sentido de eternidade real para o espírito significa a capacidade de algumas raríssimas almas em superarem contraditoriamente sua posição espaço-temporal rumo à significação universal – por meio daquilo que fazem e da forma que existem individualmente. Na sua vida individual elevam-se e alcançam o espírito do mundo; em suas obras conseguem ser todos os homens, e por isso não morrem, pois se tornam humanidade inteira. Só morre quem de milênios da existência humana, vive na escuridão e na ignorância – como alertou Goethe; ou aqueles que passam por esse mundo recolhidos como um caracol em sua concha de preconceitos, ao modo que ilustraram Adorno e Horkheimer na sua Dialética do Esclarecimento. A concha de Manoel de Barros é diferente, está na beleza como universalidade real, pulsando entre araras, caramujos e seres humanos; a sua concha reinventada são todas as almas nas quais ele pode continuar realmente vivo por meio da sua poesia. Para ele, a palavra e a frase eram formas de expressão do belo; importava mais do que a verdade. A reinvenção da sua concha está na contradição de uma profundidade essencial vestida de uma aparência ingênua e inútil; seduz-nos por meio do complexo decifrado pela beleza, sem pretenciosismo de verdade. Ora, a mais sublime expressão da beleza é quando aquilo que vemos e aquilo que sabemos encanta porque não coincide – assim me atinge a movimentação que encontro na poesia de Manoel de Barros.

Foi leitor apaixonado do céu ao inferno, de Padre Vieira à Arthur Rimbaud – sobre quem dizia que só conheceu o sentido real da liberdade poética ao ler Uma estação no inferno. Apesar de todo apelo metafísico presente na reflexão ocidental acerca da morte, Manoel desmistifica-a na sua narrativa acerca da conversa com Guimarães ao jeitão “songo”, do filósofo começado pelas árvores e estudioso das lagartixas, como delatam os versos: “Lagartixas tem odor verde” ou “As árvores me começam”. Sua busca não estava no fetiche do conhecimento metafísico, mas apenas na exata distância a que poderia sentir o cheiro do sol, como ilustra o verso “a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso”. A análise de Sartre no ensaio Que é a literatura? acerca da poesia estava realizada: “A poesia não fala, nem se cala. Trata-se de outra coisa” – Manoel parecia exercer uma poesia revelada exatamente nesse horizonte apontado pelo filósofo francês.

E mais: Manoel nos ensina que a morte não tem nada de misterioso ou sobrenatural entre céus e infernos, paraísos eternos ou castigos infinitos. A morte tem a ver com crocodilos e formigas, pois uma vida verdadeiramente bela não morre, apenas recolhe-se nas conchas de cada alma daqueles que conquistamos seus corações com a nossa existência e conseguimos “infantilizar”, como o poeta nos ensinou a fazer com as formigas: “Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil”. Apesar das lágrimas que nos arranca a notícia da sua morte, Manoel nos prega uma peça com o que ele chamava de “solução científica” para vencer a morte, apresentada nos versos: “O Tempo só anda de ida. / A gente nasce, cresce, envelhece e morre. / Pra não morrer / É só amarrar o Tempo no Poste.”.

Vejam só: embora o corpo enquanto invólucro da consciência venha a esgotar-se um dia, a alma pode ser  imortalizada no “tempo amarrado ao poste” das contradições por meio das quais a vida simultaneamente revela sua beleza pelos mesmos elementos que a escondem – eis a dialética das conchas; nem Hegel, do alto da filosofia alemã conseguira tão certeira síntese. Esse sentido da imortalidade não é sobrenatural, mas inteiramente humano; é imortalidade antropológica. Todos aqueles marcados pelo “cheiro do sol” mantém vivo este crocodilo que agora resolveu descansar pelas águas imortais do seu universal “Rio São Francisco”:

Quando escrevo, repito o que já vivi antes.

E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.

Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo

vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser

um crocodilo porque amo os grandes rios,

pois são profundos como a alma de um homem.

Na superfície são muito vivazes e claros,

mas nas profundezas são tranquilos e escuros

como o sofrimento dos homens.

Num de seus poemas conta como uma vez durante a madrugada, ao sair de uma festa testemunhou um bêbado sendo levado por um carregador peculiar: “Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina”. Enfim, Manoel de Barros foi apenas “exercer Deus”, pois quem fotografou o silêncio não morre.

 

[1] No seu aniversário de 90 anos, em 2006, o poeta Manoel de Barros concede entrevista exclusiva ao jornalista Bosco Martins da revista Caros Amigos, o poeta narra o encontro com seu mito Guimarães Rosa, fala do amor por Stella, sua companheira há sessenta anos.

 * Mestre em Serviço Social e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

TEXTO INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA / ISSN: 2318-3101

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