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O SUPEROITO PARAIBANO

João Marcus Soares*

Super 8.jpg 2

Disposta em sua característica iluminação estourada ou pela escuridão em demasia, os cortes abruptos, a fotografia desfocada e os tons de cores vermelho-esverdeados, que compõem, como um todo, imagens de texturas singulares (e que muitas vezes podem nos remeter a algo próximo ao onírico),  a produção cinematográfica em superoito (ou super-8), viveu um ápice produtivo entre Pernambuco e Paraíba a partir da segunda metade dos anos setenta e os primeiros anos da década de oitenta.

Herdeira (do ponto de vista estético) e ao mesmo tempo possibilitadora do Cinema Marginal (que se desenvolvia em paralelo ao cerceamento da produção artística provocada pelo regime militar e, também, à parte da chancela oficial do estado a partir da Embrafilme, a qual se via enredada os realizadores vinculados ao Cinema Novo), a bitola superoito, popularizada na década de setenta, além dos baixos custos orçamentários que facilitavam a realização fílmica, possibilitou intensa liberdade criativa e novas perspectivas em relação à linguagem cinematográfica. Conceitos inovadores em captação de imagens, experimentações com a montagem e as diferenças técnicas de qualidade em relação às câmeras profissionais utilizadas convencionalmente acabaram por compor uma “estética da precariedade”, em que o formato e a produção em superoito passam a ser encarados enquanto “guerrilha cultural” frente aos ditames do denominado cinema comercial.

Na Paraíba, a produção superoitista, de fins dos anos setenta, veio suprir um vácuo cinematográfico local, que após certa efervescência verificada na década de sessenta (destacando-se, dentre outras realizações, a produção do curta-documentário ícone do início do Cinema Novo, Aruanda, de Linduarte Noronha e o documentário poético O país de São Saruê, de autoria de Vladimir Carvalho), passou por quase uma década de parcas produções.

Além dos aspectos relativos à forma, é fundamental  observar como os realizadores de superoito foram inovadores em relação às temáticas.  A problematização de cunho político e social se faz presente em Gadanho e Margarida sempre viva (linkshttp://vimeo.com/92972270  – http://vimeo.com/93172315), produções que tratam, respectivamente, da precária vida de pessoas que coletavam lixo no extinto Lixão do Róger e da líder camponesa Margarida Maria Alves.

A documentação da militância estético-política do grupo “Jaguaribe Carne”, atuante no período da produção de superoito marca presença em Pedro Osmarhttp://vimeo.com/92934211) e Quando um bairro não se calahttp://vimeo.com/92934212).

Porém, sobretudo, destacam-se as temáticas relativas à sexualidade, que talvez tenham recebido, nesse momento, suas primeiras e mais incisivas manifestações por via da expressão artística na Paraíba.

Curtas como Closes, de Pedro Nunes (http://vimeo.com/92366958), Perequeté, de Bertrand Lira (http://vimeo.com/92298065), Miserere Nobis, de Lauro Nascimento (http://vimeo.com/92149479), refletem acerca da homossexualidade e de como a provinciana e moralista sociedade paraibana de então, compreendia o sujeito homossexual (isso em um contexto onde a homossexualidade ainda era classificada como “doença” e em que pouco se discutia a respeito na Paraíba. E pouco antes do início do macarthismo sexual ocorrido em meados dos anos oitenta devido à  disseminação do HIV). Já Baltazar da Lomba, de autoria do coletivo “nós também” (http://vimeo.com/92605896) faz um interessante levantamento histórico de um dos primeiros registros de prática da homossexualidade do Brasil Colônia e o primeiro da Paraíba, ainda em fins de do século XVI, em que o referido Baltazar da Lomba era “acusado” de deitar-se com índios (motivo pelo qual foi condenado pelo Tribunal do Santo Ofício para arder nas chamas da Inquisição portuguesa).

Outro que se destaca na produção do período e que possui obras realizadas entre Paraíba e Pernambuco é Jomard Muniz de Britto.  Em relação à sua produção pernambucana, de muitas realizações, destaco uma aqui, O palhaço degolado, pequena sátira política onde destila ironias ao contexto de repressão da ditadura militar, à ideia de democracia racial e ao Gilberto Freyre, e, também, ao movimento armorial e um de seus mentores, Ariano Suassuna (https://www.youtube.com/watch?v=nvm1w-utZXM). Aliás, no caso específico da produção pernambucana, é interessante observar a homenagem que o recente longa Tatuagem, de Hilton Ribeiro, realiza ao superoito.

Quanto à sua produção paraibana, Jomard enveredou pelas temáticas relativas à sexualidade e ao gênero e do que seria a presença feminina perante o arraigado machismo local. Principalmente na trilogia Cidade dos homens (http://vimeo.com/92950157), Esperando João (http://vimeo.com/92950156), resgate da figura de Anayde Beiriz e sua condição feminina perante o contexto da chamada “revolução de 30” e, também, de como a capital e o estado  estão mergulhados em um imaginário político marcado pelos signos da dominação configurados nesse momento histórico (que, dentre as suas consequências, adultera até hoje o nome da capital e a bandeira do estado). Há, ainda o Parahyba masculina feminina neutra, mas esse parece não ter sido remasterizado e não foi disponibilizado na internet.

A maior parte dos filmes citados aqui foi exibido em 2013, na mostra “Cinema e Memória” que lançou livro com título homônimo, quando se concluiu a remasterização das películas, que já estão disponíveis, junto ao livro no seguinte site: http://cinepbmemoria.com.br/. Fica aqui esse texto, como forma de se invocar a inventividade e ousadia artística da produção vanguardista de superoito na Paraíba.

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* Graduado em Letras pela UFPB.

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TEXTO INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA ISSN 2318-3101

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