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A MATINÊ

Edinaldo do Egypto*

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Um cartaz anunciava o último episódio da série “A caveira”, para a matinê do próximo domingo, além do filme que precedia o seriado: um cow-boy com Bill Elliot, luta do começo ao fim, pelo preço de dois cruzeiros o ingresso, para crianças.

Na calçada do cinema, um menino me ofereceu um projetor de brinquedo feito em caixa de charutos com uma lâmpada cheia d’água que servia de lente, para exibir os fotogramas dos nossos ídolos da tela.

– Vendo barato esse projetor só porque quero assistir essa matinê!

– Comprar, eu quero, mas cadê o dinheiro?

– Custou oito cruzeiros e eu dou por dois! – insistiu o menino.

– Se eu tivesse esse dinheiro eu ia assistir a série também!

– Mas rapaz, com esse projetor você bota um cinema no quintal de casa e nunca mais lhe falta dinheiro no bolso!

Não disse que sim nem que não e saí de cuca fundida. A matinê era o fraco da pirralhada.

Mais liso do que muçu eu arrisquei tentar o velho na mais remota esperança.

– Pai, eu queria que o senhor me arranjasse dois cruzeiros!

– Se for para diabo de cinema, nem me fale!

– Mas pai!…

– Ora dois mil réis! Com essa quantia dá pra você ir pra escola a semana todinha!

– O senhor mesmo vive dizendo que nem só de pão vive o homem!

– E é uma verdade! Vive de bolacha também – gracejou o velho fugindo do assunto.

– Mas pai, os meninos das ruas de trás que são mais pobres do que a gente, os pais dão dinheiro a eles para a matinê, lanche e tudo!

– É por isso que eles são mais pobres! Não juntam dinheiro! – disse o velho se exaltando.

– Só hoje! – arrisquei a última tentativa.

– Não! (bradou o velho) – Cinema é negócio do diabo! Lá, só se aprende a roubar e a matar! Por que não vai pra missa? É de graça!

Saí lentamente tristonho e pensando. – Ah velho pica-fumo danado!

Naquela semana não tive nenhuma folga para surrupiar um só tostão da gaveta da loja. Fui, aos poucos, me conformando pois, na segunda-feira, na escola, iria saber o desenrolar da estória, através do colega de aula, Luka Bode, que era perito em contar os filmes, imitando os artistas: os gestos, as falas, os murros, tudo.

Já estava sem esperança, quando no domingo, pela manhã, tio Zeca foi almoçar lá em casa. Aproveitamos, eu e meu irmão Erasmo, para dar uma cantada no tio e foi tiro e queda.

– Taí, cinco cruzeiros para os dois, tá bom

– Tá bom demais, tio! Agradecemos a tio Zeca e fomos trocar o dinheiro em partes iguais, para mim e meu irmão, que não deu “duro” nenhum.

O espetáculo começava desde o banho, a troca de roupas, a caminha, a compra de roletes, pitombas e amendoins, juntando-se, a tudo isto, a boa anarquia antes e durante a projeção com assobios, petecas, batidas de cadeiras, etc. A sirene zunia de quinze em quinze minutos avisando ao povo a hora da matinê. Na terceira e última chamada da sirene o porteiro fechava as cortinas da entrada, e com o tilintar das argolas, em atritos compassados, as sala mergulhava lentamente na escuridão, redobrando a zoeira de centenas de garotos, um misto de algazarra e contentamento. Estava começando a sessão.

A tarde, sem que pai soubesse, fomos eu e Erasmo para o cinema. Ele comprou logo o seu ingresso e foi para a primeira classe. Eu fiquei fazendo cera, pois não pretendia mais comprar a entrada, e sim dar um drible no porteiro da segunda classe economizando, desta maneira o dinheiro para comprar o projetor de brinquedo.

Continuei observando o movimento da segunda classe. O porteira era Gary Cooper (pronunciava-se gare côpe). Menos rígido do que o da primeira. Aproveitei o momento de entrada de umas seis pessoas e me espremi, penetrando e seguindo pelo corredor até a última porta de acesso à plateia do “mijo”.

A segunda classe era mais ou menos um terço de salão, bem perto da tela, onde os espectadores, a maioria de pessoas descalças e mal vestidas, ficavam sempre com dores na nuca de tanto levantarem as cabeças para ver a tela que ficava acima da visão normal. A divisão da segunda para a primeira era uma mureta feita em tabiques de compensado tomando a extensão de uma lateral a outra da sala de projeção.

Eu penetrei abaixado naquele ambiente e fui sentar na última fila premeditando pular a mureta quando escurecesse. Permanecei encolhido para que ninguém da primeira classe me visse e comentasse: “Olha o filho de seu Jeremias na segunda”.

Quanto mais eu me escondia mais dava pinta de ter entrado na moita; e justamente, quando olhei para a porta ao lado, estava um homem me olhando com pose de investigador de polícia. Era Pinuca, braço direito de seu Zezinho, dono do cinema. Sujeito chato. Não me tolerava porque eu não lhe comprava caro os quadrinhos de fita que ela capava, na cabine, dos rolos de filmes. Fiquei quieto, sem participar da algazarra, torcendo para começar logo a projeção, e mal apagaram-se as luzes, senti aquela mão batendo no meu ombro, seguida da voz rouca de Pinuca.

-Vamos dar o fora! Pensa que eu não vi quando você enganou Gary Cooper?

Não quis nem ouvir o resto do palavriado. Fiquei corado, saí na frente apressado e ele atrás, até alcançar a saída que dava para a rua, quando ainda escutei dele a palavra moleque – batendo o portão e fechando-o por dentro.

Na frente do cinema eu estava indeciso se comprava o ingresso ou o projetor de brinquedo. A projeção havia começado naquele instante, estava passando o jornal da tela. A roedeira tomada conta de mim ao ouvir os gritos da plateia, o ruída da máquina, todo aquele mundo mágico, sem poder participar, era uma verdadeira tortura. – Vou mostrar aquele safado que eu assisto a última série da caveira! – disse comigo enquanto comprava a entrada. Penetrei vitorioso no cinema. Foi uma pena o xeleleu não ter me visto de ingresso na mão.

Não tinha mais lugar sentado e eu tive de ficar em pé encostado na parede lateral junto com outros meninos retardatários como eu. Já havia terminado o jornal da tela e começado o “trayler” do filme “O Intrépido General Custer”, com Errol Flin, sobre o qual um pirralho na minha frente comentava. – Esse filme não presta porque o artista morre no fim! Em seguida passou o desenho animado e fez-se o intervalo, acendendo-se parte das luzes da plateia, porque o cinema Glória só dispunha de uma máquina de projeção.

Nesse intervalo, Pinuca faz a ronda como fiscal do salão e depara-se comigo.

-De novo? – disse-me ele com um riso falso.

– De novo, o quê? Eu paguei – respondi sem muita força com medo de chamar a atenção das pessoas em volta.

– Vamos saber na portaria! – foi dizendo essa frase e me puxando pelo braço até a presença do porteiro.

– Esse penetra lhe deu ingresso?

– Eu não vi! – respondeu o porteiro ajudando o colega.

– Pois bem! Dê o fora! Se tentar entrar outra vez eu vou lhe entregar a seu pai! – disse e ficou me olhando com cara de promotor.

“Os adulto sempre tem razão”. Devo ter sentido isso naquele momento. Saí de fininho, envergonhado com algumas pessoas que assistiram o carão que eu havia levado, e fui sentar numa calçada do outro lado da rua. Comprei um molho de roletes de cana, com o pouco que me restava e fui curtir a minha desventura, e ainda por cima, ter de esperar por meu irmão até o final da matinê, para chegarmos em casa juntos.

Somente no outro dia, no recreio da escola é que tive um prêmio de consolação: ouvir Lula Bode contar tim-tim-por-tim-tim o último episódio do seriado “A Caveira”.

________

* Foi ator, teatrólogo e escritor. Publicou “Os novos ricos” (1982) e “Quarenta anos de teatro paraibano”(1988).

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