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O “ADEUS À CARNE”? IDEOLOGIA, ORIGENS E DEVIR DO CARNAVAL NA CULTURA OCIDENTAL

Wécio Pinheiro Araújo*

“A contradição testemunha antagonismos na realidade”

Theodor Adorno

“Existe uma tristeza na Rua da Alegria, existe muita desordem na Rua da Harmonia”

Ismael Silva

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Peter Brueghel – A luta entre carnaval e quaresma (1559)

O sagrado na sua mediação com a consciência humana por meio da fé e sempre relacionado com alguma figura suprema e marcada por exuberância superioridade no que tange às mais nobres qualidades humanas, não pode se sustentar sem o seu necessário contraste: o profano, o imoral, o ignóbil. Ora, Deus é fiel como ninguém jamais será, não falha, mais poderoso que o mais alto grau de poder a que nem sequer poderia nenhum pobre mortal imaginar. Deus é tão foda que, sob um exame mais rigoroso, só poderia mesmo existir no terreno da imaginação, ou do perfeito e blindado Nada – sem brecha, como uma irreparável esfera de chumbo, se quiser recorrer à uma ilustração metafísica.

Ora, é exatamente na imbricação dos fenômenos que envolvem a dinâmica tensão entre revelação e ocultamento na consciência que se configura o contraste sagrado/profano; no qual o desejo desvela-se como mediação fundamental entre “Deus” e o “Diabo”, entre as virtudes do espírito e os prazeres da carne. A ligação aqui é ineliminável, e sua sólida conexão é garantida pelo infalível cimento da contradição no seu profundo sentido dialético. Afinal, um vastíssimo leque de tradições folclóricas compõe o mesmo e riquíssimo horizonte cultural que simultaneamente separa e une o carnaval da Quaresma; ou seja, pecado e santificação se unem pelos mesmos elementos que os separam. Embora, via de regra, em nossas consciências, isso não ocorre sem mistificação ideológica – do contrário, seria impossível funcionar no imediatismo do senso comum. O francês Louis Althusser já alertava para o fato de que a ideologia não é algo que se reduz ao plano das ideias; mas, ao contrário, se trata de uma complexa dinâmica indispensável à produção dos sujeitos humanos, seus sentimentos, imagens, e comportamentos capazes de adaptar as pessoas e suas mais variadas formas de consciências às exigências da vida em sociedade. Nessa dinâmica, a contradição aparece como um mecanismo imprescindível. Parafraseando Hegel, é algo bem próximo daquilo que nega a identidade consigo mesmo, e torna-se o seu próprio oposto, só para permanecer o mesmo. Sob a óptica da totalidade hegeliana, negativo e positivo se atraem pelos mesmos elementos pelos quais se opõem. Se por um lado, a preparação da comunidade cristã para a festa pascal é marcada originalmente pela mortificação da carne e suas concupiscências por meio do jejum, das orações e da abstinência; por outro, o “carnis valles”[1] marcado pela ideia de derreamento daquelas travas sociais que nos impedem ao livre deleite dos prazeres da carne é o fenômeno cultural que acabou ficando conhecido posteriormente pela palavra “carnaval”; e neste caso, no imaginário cultural do ocidente, pecado e santidade detém um nascedouro comum. Com origens que remontam à meados do século XI, justamente com a criação pela Igreja Católica Romana da Semana Santa, antecedida por quarenta dias de jejum, não à toa, a Quaresma surge simultaneamente ao carnaval. Historicamente, é justamente com a implantação da Semana Santa que se consolida também um período de três ou quatro dias de pura e absoluta carnalidade oficializada. Reitero: não foi à toa que a “festa da carne” se consolidou no imaginário popular e na realidade do ocidente enquanto universalidade concreta. E não sem manter ativa a necessária mediação com suas origens sagradas. O cristianismo em sua positividade como ideologia universal não poderia deixar escapar as formas negativas concretas de sua moral inevitáveis ao ser humano, ou seja, os prazeres da carne.

Para ser salvo, antes seria necessário o sujeito encontrar-se condenado; para ser liberto, antes é preciso que esteja escravizado. Sem pecadores perdidos e arrebatados pela tentação carnal, de que serviria o sacrifício de Cristo? Logo, a moral religiosa-cristã ocidental exatamente quando determina um período no qual a doutrina católica disciplina a penitência a todos os seus fiéis, acaba por universalizar o lado negativo pela qual culturalmente a abstinência e a santidade contraditoriamente se afirmam: o carnaval. Na dialética do fetiche religioso – e assim como ocorre na consciência dos sujeitos –, os prazeres da carne são a negatividade particular pela qual a positividade da fé nega sua própria identidade, e ao tornar-se seu oposto (pecado e carnalidade) por meio desse movimento negativo [Aufheben], realiza a estrutura contraditória que a permite permanecer se perpetuando como fé na consciência dos indivíduos – ou seja, se reencontra consigo mesmo universalizando-se no e por meio dos dois momentos (negativo e positivo) pelos quais também se particulariza. Magnífica operação ideológica! Claro que tudo isso não exclui a elitizada face mais sofisticada e formal expressa no lado mais “teórico” de toda ideologia que se preza, neste caso, desde Agostinho à Tomás de Aquino – e esses dois, até mesmo dos protestantes são credores; afinal, todo o resto da teologia cristã é nota de rodapé deles. Bem definiu o Papa Bento XVI, os “quarenta dias da Quaresma”: “Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas.”[2] Obviamente, esse período não equivale à quarenta dias no tempo cronológico exato, tendo em vista que se trata muito mais de simbologia do número quarenta no tocante a momentos importantes da história da fé cristã e judaica registrados nos antigo e novo testamentos. E mais: de acordo com as normas do Direito Canônico, o jejum e a abstinência devem ser cumpridos fielmente; mas, quem neste mundo observa as normas do Direito Canônico, se mesmo a leitura da própria Bíblia é hábito marcadamente ausente entre aqueles que se dizem cristãos? Como então essas ideias podem alcançar o povo?

Segundo Terry Eagleton, na sua célebre obra comedidamente intitulada “Ideologia”, na modernidade a sociedade se tornou complexa demais para ser representada como um todo pela consciência cotidiana do senso comum. Diz Eagleton: “Para que o povo como um todo encontre seu caminho dentro dela [leia-se: a sociedade] é essencial construir um mito que traduzirá o conhecimento teórico em termos mais pitorescos, imediatos” (grifo meu). Como se sustentaria a necessidade de buscar uma rota de penitência e reencontro com o Senhor, sem pecado pelo meio do caminho? Portanto, mecanismos culturais amadurecidos durante séculos é que garantem a alienação religiosa, à despeito de normas escritas e formalidades teológicas. No entanto, em analogia com Foucault, no seu minucioso estudo acerca das estruturas punitivas; com o advento dos séculos mais recentes, a penitência vai se tornando a parte mais velada e abstrata do processo de culpa característica do legado cultural e moral cristão no ocidente. Podemos dizer que, ao longo da história na cultura ocidental se enfraquecem as práticas religiosas que punem diretamente o corpo, como o jejum ou a abstinência; na verdade, adquirem formas mais complexas e ideológicas no rigoroso sentido que soerguemos aqui. Na contemporaneidade, isso é coisa de raros grupos que ainda cultivam formas arcaicas de fé e mortificação da carne. Quem ainda faz jejum me sentido estrito? Jovens do movimento carismático, ou a mocidade que resiste à folia em seus “retiros de carnaval”? Esses “retiros” contraditoriamente são formas veladas de um carnaval que se afirma pela sua própria negação – não detém um iniciativa autônoma, requerem negar algo posto para que se “retirem”, mas nada de jejum em sentido literal, a abstinência recai sobre a vida permitindo assim o drible pelo qual o desejo prossegue com a posse da bola. “A punição deixa o campo da percepção quase diária e entra no da consciência abstrata” (Foucaut, em “Vigiar e Punir”). Em termos foucaultianos, podemos dizer que a penitência espiritual adquire a forma de uma relação que atinja mais a vida do que o corpo. Ou seja: o corpo está “livre” para mergulhar nos prazeres da carne, mas não inteiramente sem culpa. Afinal, tem-se uma eterna dívida com Cristo porque ele escolheu morrer pelos pecados da humanidade. Pode até não ser rigorosamente na “quaresma”, mas uma hora Deus irá cobrar. Entretanto, durante “três dias” essa dinâmica irá negar a identidade consigo mesmo revelada nos deveres da fé e da mortificação da carne, e tornar-se seu oposto entregando-se integralmente às concupiscências carnais; para, então, no final das contas (seja do carnaval ou da vida), permanecer atada à dinâmica mesma da culpa na eterna dívida pelo salvação dos pecados em Jesus Cristo, até que venha o próximo carnaval ou algum momento de arrependimento ao longo da vida. Pode-se entender que a riqueza cultural do carnaval é que este carrega um caráter sintético das várias contradições históricas da cultura ocidental e seus mecanismos ideológicos. Sobretudo no tocante ao desejo em suas possibilidades ligadas ao corpo – isto é, a carne –, essa estrutura contraditória garante, então, que nada mude e o ciclo se perpetue como uma espécie velada de neurose coletiva, se quisermos recorrer a um termo freudiano. E também: quando os fundamentos lógicos reais de determinado modo de vida à maneira da moral cristã caducam ou se tornam incapazes de por si só alcançarem o sentimento espontâneo de identidade pelos indivíduos em sua realidade cotidiana, é aí que entra a operação de ideologia a criar símbolos, sentimentos e imagens capazes de expressar esse modo de vida de maneira que (re)encontre a condição de “verdade” para a massa. Se o sangue de Cristo salva a humanidade de seus pecados; o carnaval, em termos universais[3], é o que salva Cristo da própria humanidade; do contrário, seria levado à cabo a conhecida sentença nietzschiana acerca da morte de Deus. O milagre tem nome: ideologia. Outra coisa: desmistificada, a imensa misericórdia de Deus revela-se renovada de com acordo com os tempos como concreta crueldade mistificada no plano da consciência abstrata afirmada unilateral e unicamente em sua aparência pelo seu aspecto positivo no benevolente e misericordioso discurso que se poderá ouvir dos modernos oradores da indústria cultural cristã-ocidental, sejam padres ou pastores. A abstinência e o jejum deram lugar à complexos mecanismos de mortificação da carne ao nível da consciência infeliz, liberando o corpo para celebrar a carne; mecanismos esses muito mais eficazes tanto quanto adaptados à sutileza do nosso tempo áureo da consciência fetiche e do desejo reificado.

Sempre que se aproxima o carnaval, lembro-me do velho safado:

“A maior parte do mundo estava doida.

E a parte que não era doida era furiosa.

E a parte que não era doida nem furiosa era apenas idiota”

(Charles Bukowski).

NOTAS:

[1] Do latim, “carnis” significa “carne”, e “valles”, prazeres.

[2] Papa Bento XVI (22 de fevereiro de 2012). Quarta-feira de Cinzas (audiência geral) (em português). Visitado em 15 de fevereiro de 2015.

[3] Aqui nos referimos ao carnaval já enquanto síntese que se universaliza para além do momento particular definido anualmente no calendário, isto é, como uma particularidade que se consolida no plano universal da cultura ocidental e seus mecanismos ideológicos.

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* Professor do departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

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TEXTO INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA 2318-3101

 

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