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O SER, O SAGRADO E O VAZIO:

É POSSÍVEL PENSAR UMA METAFÍSICA DA ARTE?

Ana Monique Moura*

Observação prévia de método: Antes, devemos dizer que o erro da compreensão comum é dar à metafísica o significado de sobrenatural. Também a compreensão comum tende a pensar a metafísica tende sempre à religião. Isso acontece, infelizmente, e inclusive, entre acadêmicos. Se esquece que o significado de metafísica, desde sua terminologia, é falar sobre algo próprio da natureza a partir de uma abstração. Não fazem abstração também lógicos, matemáticos, físicos?

Já deixemos claro que a metafísica da arte seria incapaz de corresponder rigorosamente aos princípios aristotélicos ou clássicos do que seja metafísica: 1. Ciência das causas e dos princípios primeiros; 2. Ciência do ser enquanto ser; 3. Teoria da substância; 4. Teoria de Deus. Mas, fato é que a metafísica aristotélica pode ser chamada de metafísica teológica, porque atinge os fins teológicos. Gostaríamos de falar em uma metafísica da arte, já que é possível tratar de não apenas um tipo de metafísica, mas, como bem mencionava Hursserl, “metafísicas regionais”.[2]

Porém, na contramão de Aristóteles e antes dele, a arte tem sido encarada, em especial por Platão, em seu teor metafísico, no sentido do sagrado ou divino no indivíduo e na arte. Na obra Íon, Platão aborda experiência com a arte mediante o tom da alucinação envolvida com as musas inspiradoras, em suma, refere-se a um estado de frenesi estético.

“As musas deixam os homens inspirados, comunicando o entusiasmo destes a outras pessoas, que passam a formar cadeias de inspirados. Porque os verdadeiros poetas, os criadores das antigas epopeias, não compuseram seus belos poemas como técnicos, porém como inspirados, o mesmo acontecendo com os bons poetas líricos”[3]

Mas precisamos destacar que por muito tempo a arte tem se confundido com o tema do belo. Assim, para alguns teóricos, falar em beleza era o mesmo que falar em arte. Tem-se sentido isso, sobremaneira, na Escolástica Medieval, a partir da qual a ideia de uma beleza metafísica era bastante cultivada. Disse Boécio: “O Belo supra substancial é chamado de Beleza por causa da beleza que é distribuída de si a todos os seres, segundo a medida de cada um.” (Boécio APUD Humberto ECO.)[4] E prossegue: “precisamente por isso também se chama Beleza – e reúne em si mesma tudo em tudo.”

No século XVIII, Com Kant, a metafísica vem receber uma espécie de nova roupagem. Kant fornece o caráter metafísico da arte quando atribui à experiência estética o sentido de abstração do objeto. É uma abordagem simplista, não no sentido de ingenuidade filosófica, mas no sentido de economia de atributos à arte. A arte apenas apraz mediante uma reflexão estética capaz de lançar ideias que partem do particular ao universal.[5] E aqui reside o esforço em divulgar e comunicar o gosto (Geschmack) como uma determinação (Bestimmt) do gosto para todos. A dessacralização da arte começa aqui. Em Kant, há uma metafísica menos sagrada.

Nietzsche dá certo descrédito a Kant e toma as ideias dele como desnecessária recusa da metafísica. Diz ele: “Kant exerceu, em certo sentido, uma influência deplorável: porque se perdeu a crença na metafísica”.[6] Nietzsche associa o sentido de uma metafísica da arte a uma linguagem necessária da natureza, que se faz urgente, porque até então não realmente exigida. [7]

Mais à frente, Heidegger, em lugar de uma estética, vem exigir uma ontologia da obra de arte. Para ele, a ontologia marca a urgência de uma verdade (alethéia) da arte. Ao passo que para Kant, a estética vem negar a ideia de verdade para a arte. Não é provável que a separação entre estética e ontologia traga algo fortuito para nossa reflexão, já que parece aqui que a preocupação não é com a verdade ou não verdade, mas em se há dado metafísico na arte.[8]

Seria repetitivo, porém não em vão, mencionar o trabalho de Walter Benjamin sobre a áurea da obra de arte.[9] Para ele, após o nascimento da era de reprodutibilidade técnica, a obra de arte perde seu aspecto aurático, um termo que poderíamos dar, ainda, como sinônimo de sagrado, pois “à mais perfeita reprodução falta sempre algo: o hic et nunc da obra de arte […]Pode ser que as novas condições assim criadas pelas técnicas de reprodução, em paralelo, deixem intacto o conteúdo da obra de arte; mas de qualquer maneira, desvalorizam seu hic et nunc.[10] A reprodução em série das obras retirariam, pois, o aspecto de raridade sagrada da obra.

II

Por dois grandes motivos devemos dizer que é possível pensar uma metafísica da arte. 1. A arte não se liga o princípio da utilidade: O princípio da utilidade preconizado especialmente por Kant cai por terra se pensamos as relações, principalmente contemporâneas, entre arte e política. Mas para Kant, a função cultural da arte é algo a ela aplicado e não dela própria. Esta espécie de utilidade impossível de ser imanente na arte marca o primeiro aspecto que a deixa própria para o terreno metafísico. 2. A arte não é ciência icônica: Para Nietzsche a metafísica da arte é uma saber do não saber, e ciência, lembremos, significa saber. No real termo, a arte pode ser uma ciência do não saber, ou seja, uma ciência anti ciência, um saber como anti saber. O muito que a arte costuma fazer é comunicar-se com sob tons sarcásticos, como ocorre com o coelho fosforescente de Eduardo Kac, ou o Bezerro de Ouro (The Golden Calf) que faz o bilionário colecionador de arte, para além de se inspirar no seu significado bíblico de falso deus e, para nós, de dinheiro, se vangloriar de tê-la no seu acervo e ao mesmo tempo zombar da hiper-reprodução de animais iguais na proposta de clonagem. Não é Dolly. É um bezerro de ouro, e que não existe em nenhuma fazenda.

Estes modos de referir-se ao “ser das coisas”, parece, só a arte pode conceber. Só quando a arte põe este referência ela coloca em cheque seu estatuto de arte. A metafísica se refere ao ser através do ente, eis sua função fundamental.

Não podemos deixar de dizer é que há uma metafísica própria da arte, e esta propriedade metafísica da arte é desligada de qualquer essencialismo. A metafísica da arte é uma dinâmica que se afasta da ideia de essência do ser. Ela está lá, mas como referência de afastamento, não de aproximação. A metafísica da arte parte da natureza das coisas para se colocar contra ela. Uma prova clara e cabal disso, se precisamos de mais que um exemplo, é o movimento italiano encabeçado por Giorgio de Chirico, em 1913, intitulado Pintura Metafísica, que não sobreviveu à 1ª Guerra Mundial, mas veio a influenciar posteriormente o Surrealismo. Obras citáveis suas seriam, O Filósofo e o poeta (1916), A conquista do filósofo (1914), Duas cabeças (1918), O filho pródigo (1922), As musas em distúrbio (1916), dentre outras. Outros pintores mencionáveis são Marc Chagall, Carlo Carrà, Giorgio Morandi. Mas a metafísica da arte não comporia apenas uma escola de arte. A Pintura Metafísica foi, em verdade, uma meta-arte, claramente, já que explicava seu estilo na própria alcunha. Teve, portanto, um valor muito mais didático.

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Giorgio Chirico – Musas em distúrbio (1918)

O que a arte tem ainda de metafísica clássica? Ambas terminam por partir do ser da coisa e falar da realidade, de alguma forma. [11] No que diferem? Para a arte a realidade do ser não é o único fim, mas para a metafísica clássica sim. O que não tem com a metafísica clássica? Ao invés de lidar com a realidade, tem-se debruçado muito mais na possibilidade da realidade. A metafísica entra na arte na medida, ainda, em que sonhamos em “realizar”, com prazer ou não, um belo ou feio imanente e insistimos ao dizer “isto é belo”, “isto não é belo” – dando o ser da obra – e colocar a arte, enfim, até mesmo no vazio, como seu tema. E tomo de Jacques Rancière as seguintes palavras: “podemos fazer o vazio significar várias coisas”.[12] Eis um mote metafísico, do qual a arte parece gostar de assentar-se. Eis o que, outra vez, lhe torna sagrada e, por isso, quase sempre impossível.

NOTAS:

[1] Cf. ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução direta do grego, introdução, exposições sistemáticas e índices de Hernán Zucchi. (Ensaio). Buenos Aires: Debolsillo, 2004.

[2] Cf. Edmund HUSSERL. Ideias para uma fenomenologia pura ou para uma filosofia fenomenológica. Tradução: Marcio Suzuki. São Paulo: Editora Ideias e Letras, 2006, § 9.

[3] PLATÃO, “Íon” In: Diálogos. Tradução: Carlos A. Nunes. Belém. Universidade Federal do Pará. 1980, 534c.

[4] Humberto ECO. Arte e beleza na estética medieval. Tradução de Mario Sabino, p. 45.

[5] Cf. Immanuel KANT, Crítica da faculdade do juízo. Tradução: Antonio Marques e Valerio Rohden. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2005, p. 23.

[6] Friedrich NIETZSCHE. O livro do filósofo. Tradução: Rubens Eduardo Ferreira Frias. São Paulo: Centauro Editora. 2005, p. 5, § 27.

[7] Sobre este tema Cf. “Distâncias e aproximações estéticas entre Kant e Nietzsche no momento da arte” IN: MOURA, Monique. Entre Kant, filosofias & arte. Sal da Terra: João Pessoa, 2012, p. 64-78.

[8] Martin HEIDEGGER. A origem da obra de arte. Tradução: Idalina Azevedo e Manuel António de Castro. Edição Bilíngue. São Paulo: Edições 70, 2010. E, sobre a questão da verdade na experiência estética em Kant, Cf. KANT, Crítica da faculdade do juízo. Tradução: Antonio Marques e Valerio Rohden. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2005, p.32 – 3.

[9] Walter BENJAMIN. A obra de arte na era de suas técnicas de reprodução. Tradução São Paulo: Abril Cultural, 1973, p.13.

[10] Mas, nos chega Jacques Rancière para deixar claro que nem mesmo a “obra” existe na arte, o que existe é o tema na arte. E isto, claro, é uma tradução do que Kant já havia dito, a saber, que as ideias decidem sobre a arte e não o inverso. (CF. Jacques RANCIÈRE. “A associação entre arte e política” In: Revista Urdimento – Programa de pós-graduação em Teatro – Universidade Federal de Santa Catarina, Outubro 2010, nº 15 123 – 133, P. 126.)

[11] “Acontece que Aristóteles não definiu sua filosofia primeira somente como o estudo do ser enquanto ser, mas também como estudo dos princípios primeiros e constitutivos da realidade. Ora, a palavra metafísica, ao descrever o estudo do conhecimento que vem depois da física, diz exatamente que seu objeto de estudo são os princípios primeiros da realidade” Luciano ROSSET, Roque FRANGIOTTI. Metafísica antiga e medieval. São Paulo: Paulus, 2012. p. 19.

[12] Jacques RANCIÈRE. “A associação entre arte e política” In: Revista Urdimento – Programa de pós-graduação em Teatro – Universidade Federal de Santa Catarina, Outubro 2010, nº 15 p. 123 – 133, p.127. A arte não decide nada sobre a arte. E a arte contemporânea tende muito a nos dizer sobre isso, exatamente por, na medida em que se coloca como arte, prova a si mesma como não arte, e isto se faz no sentido de negar um conceito tradicional da arte e não a ideia de arte. O que permanece acaba compondo a condição imaginária da experiência estética. A imaginação enquanto composição da realidade e as ideias como elementos que dar o ser do real estético. Não se trata de fantasia – até pode tratar-se, mas não apenas isso.

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* Doutoranda em Filosofia.

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TEXTO INÉDITO PARA REVISTA PHILIPEIA – ISSN: 2318-3101

 

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