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O POETA DEVE SEGUIR O RITMO DA DANÇA CORDELÍSTICA

Aderaldo Luciano*

Rui

De “O caçador sertanejo”, por João José da Silva

Quando comecei a escrever sobre o “ritmo” no cordel, tomando como baliza teórica as anotações de Emile Benveniste, para quem “fluir” é o termo mais completo e mais misterioso para definir “ritmo”, utilizando a observação grega sobre as ondas do mar, alguém solicitou-me um exemplo prático. Eis aí o exemplo. As quatro primeiras estrofes de O Caçador Sertanejo, de João José da Silva, usa e abusa dessa prerrogativa. Se João José acreditasse que o ritmo seria adquirido apenas pela presença da boa métrica e da boa acentuação, ou de elementos “matemáticos”, precisos, exatos, talvez não tivesse construído versos com tamanha fluidez. Observemos a estrutura iniciada no terceiro verso da primeira estrofe e acutilada no segundo verso da quarta estrofe.

A repetição da mesma palavra “Vi” no início de cada verso e do “E’ nos últimos versos das sextilhas, para dar uma chance à respiração, confere a sabedoria do poeta no uso da anáfora para sequestrar, nas vagas fundas de sua pena, o leitor arrebatado. Mas claro que não é o simples uso da anáfora que oficializa a presença do ritmo, mas, também, a seguir, um jogo de palavras e intenções, com uma bela construção de campo semântico, mesmo com termos contraditórios, em desfile deveras devassado. “Coisas maravilhosas”, “mundos de fantasia” e “berços de ilusões” são praticamente a mesma coisa, mas o poeta quer deixar bem claro e consolidado o que venha a ser o seu Reino da Poesia. O leitor, como eu, embarca seguro em seus “barcos de simpatia” para o cordel ao ritmo das ondas.

Já “rico casar com pobre”, “ouro jorrar sem dono”, “placas de diamantes”, “pérolas no abandono”, “noite não ter trevas” e “dia sofrer com sono” são construções semânticas de alto impacto na vida cordeliana, pois temas de vários cordéis lidos ou publicados pelo autor, que era também editor da Luzeiro do Norte, no Recife. Sabendo manusear as palavras opostas dentro do mesmo campo semântico (rico e pobre, ouro e sem dono, noite sem trevas, dia com sono) e conjugá-las em grupos de dois versos, cria uma aceleração decisiva no seu texto. É o estilo. E ver que não utiliza do velho e medíocre artifício da rima em “ÃO” para, supostamente, dar leveza. Aliás, nas 80 estrofes do cordel, José João usa apenas em duas estrofes a rima tão torturada pelos poetas fracos.

Fica aí o exemplo de como ritmar seu verso. Faz-se necessário lembrar aos incautos que, como disse Benveniste, isso deveria vir de longe, das origens. A percepção do ritmo deveria estar dentro do poeta e do leitor. Há um lugar (onde não sabemos) em cujas fundações encontram-se sempre alertas as luzes perceptórias. Para aqueles que trazem desde a origem essas luzes, basta olhar, basta ouvir, e o corpo inteiro sente a quebra ou a continuidade. A mesma coisa vale para a métrica: aqueles que ficam contando nos dedos os pés dos versos, olhando para cima e os cantarolando para si, sofrem por não terem desenvolvido essa percepção. Quer ver um leitor de cordel ideal ficar doente: quebre o ritmo, tropece na métrica, enforque-se na rima. É um inferno só.

Interferências

  1. O homem que foi preso porque peidou na igreja. E o cordel vai se superando. O poeta de cordel é um experimentador, não teme sua escrita, nem se arrepende do que escreveu. E escreverá sempre. Em nosso grupo de estudo do CNPq o tema este ano é Sustentabilidade/Meio Ambiente/Ecologia. É incrível como são muito chatos os estudos sobre isso. Tem material ótimo, mas a maioria: parte é alarmista, parte é sectária, parte é oportunista. Os escritos, então, não tem o mínimo de criatividade. São enfadonhos. Resolvi, como sempre resolvo, vasculhar o vasto e precioso mundo cordelístico. E lembrei do ótimo O Homem Que Foi Preso Porque Peidou Na Igreja. O título sedutor esconde uma história originalíssima, com final surpreendente. Um raro exemplo de como tratar um tema tão delicado com sabedoria e humor, fugindo dos tratados pedagógicos que quase nunca são realmente aproveitados pelo povo. De parabéns o Dr.Sávio Pinheiro, lá de Várzea Alegre, no Ceará que enviou-me um pacotinho com alguns exemplares. Quem aqui nunca peidou?
  2. Conselhos paternais. A teoria sobre o cordel que desenvolvi estuda o cordel a partir dos seus traços literários, abandonando aquela marca folclórica que alguns pesquisadores continuam a apregoar. O cordel não é folclore porque não é anônimo, tem autor, editora e datação. Esses mesmos estudiosos desenvolveram uma tabela de classificação dos temas do cordel e o foram organizando em ciclos. Mas esses ciclos são regidos também pelos estudos folclóricos, logo, obsoletos. A minha classificação abrange o cordel observando a aplicação dos gêneros literários, oferecendo ao cordel aquele traço que lhe é fundamental: o traço poético. Obedecendo à classficação clássica temos os cordéis de predominância lírica, epopéica, dramática. Obedecendo à classificação moderna, encontramos o cordel ensaístico, biográfico, performático. Encontramos também a crônica cordelística. Essa teoria iniciou-se com meu encontro com o cordel “Conselhos Paternais”, de José Bernardo da Silva, no qual não é contada uma história, nem retratada uma peleja. É um cordel lírico, quando o poeta apenas reflete sobre como deveria ser o filho ideal.
  3. O mesmo José Bernardo. Falando de Zé Bernardo perguntaria: — Quem é esse homem franzino e sonhador? É o visionário que, sob as bênçãos do Padre Cícero, fundou a Tipografia São Francisco, no Juazeiro do Norte, Ceará. Suas máquinas irrigaram o Nordeste de folhetos de cordel. De sua pequena valise desabaram versos e rimas pelo chão do mundo, pelo céu dos planetas, pelos olhos das gentes, pelas mãos dos viventes.Foi uma entidade plantada no Cariri, um mandacaru polido no barro do massapê, soprado pela divindade para alegrar as nossas vidas. Domou o Dragão, de Juvenal, namorou a Donzela Teodora, amasiou-se com a Imperatriz Porcina, foi companheiro de João de Calais. À noite, no breu dos tempos que longe vão, não amaldiçoou a escuridão, pelo contrário, acendeu a lamparina da poesia, desenhou caminhos de luz para nós, leitores, poetas e sonâmbulos. Com as mãos sujas de tinta gráfica escreveu versos limpos e profundos, revelou o sertão para todos. Sua gráfica foi um portal para outra dimensão, foi o buraco transcendental no qual caímos todos, seduzidos pelo seu carisma. José Bernardo da Silva, mais que Homem, Semideus, Titã, herói dos folhetos, lenda e protetor! Nossos mais profundos respeitos!
  4. O direito de nascer. Houve um tempo no qual o rádio era o maior meio de comunicação de massa. Era a internet do passado distante. Sobretudo na primeira metade do séc. XX. E, em sua programação, as radionovelas, como as telenovelas atuais, domava as emoções dos radiouvintes. Milhares de lares em toda a América sintonizavam sua novela favorita. E entre elas, o maior êxito foi obtido por O Direito de Nascer, escrita pelo cubano Félix Caignet. Foi um sucesso mundial com versões em várias línguas. No Brasil, migrou do rádio para três versões na televisão: duas na TV Tupi, em 1964 e 1968, e a última em 2001 pelo SBT. Agora vejam: Manoel D’Almeida Filho escreve uma versão para o cordel inspirado no êxito da novela. Tornava-se a narrativa de ficção mais extensa do cordel brasileiro: 719 estrofes. Ainda hoje não ultrapassada, mesmo que alguns poetas tenham tentado superá-la.
  5. A chegada de Lampião no inferno. Segundo Aristóteles, a poesia épica é aquela na qual o fato histórico recebe elementos maravilhosos, mágicos, externos à realidade. A literatura universal está repleta deles. Na língua portuguesa, quem inaugura isso é Camões com sua narrativa Os Lusíadas, contando a história da viagem de Vasco da Gama em busca das Índias. No Brasil, Inglês de Souza, no séc. XIX, eMarcus Accioly, no séc. XX, conseguiram escrever epopeias expressivas. Entretanto quem popularizou o herói épico foi, sem tirar nem pôr, José Pacheco. Sem os conhecimentos teóricos necessários, porque o poeta não precisa tê-los, Pacheco pegou o homem histórico Lampião, conheceu suas proezas e pensou o que o cangaceiro deveria ter feito quando chegou ao Inferno. E escreveu A Chegada de Lampião no Inferno, inaugurando o ciclo épico lampiônico no Brasil. Ao mesmo tempo que instaura a epopeia de Virgulino, materializa em nossas terras o conceito de carnavalização, pois a chegada do capitão no Inferno transforma o local em um excelente palco de humor e risadas. O Inferno austero de Dante transforma-se, em José Pacheco, em um duelo entre a ironia e a paródia. Os estudiosos da literatura, carrancudos, carregando o peso do mundo nas costas, bem que poderiam aliviar seu fardo lendo com respeito e orgulho essa página impagável do cordel brasileiro. O folheto já teve mais de 1000 edições em 60 anos.
  6. A peleja do violeiro Chico Bento com o rabequeiro Zé Lelé. Houve um dia, e isto está sendo revelado, no qual o cordel brasileiro encontrou-se com a Turma da Mônica e com a tradição caipira mais profunda do Brasil. Deste encontro surgiu A Peleja do Violeiro Chico Bento com o Rabequeiro Zé Lelé, de Fabio Sombrae Maurício de Sousa. O Sombra é o responsável, no Brasil, pela promoção do encontro das tradições caipiras do interior de Minas e São Paulo com o cordel brasileiro. Vários livros escritos, sucesso editorial, querido dos professores, amado pelos alunos. Maurício é o criador inabalável de personagens que marcaram nossa infância e a infância dos nossos filhos. O melhor sucedido de nossos quadrinistas. O livro é sensacional. A peleja entre Chico Bento e Zé Lelé também foi gravada no disco que acompanha o livro, narrada por Almir Sater, com arranjos do magnífico Sérgio Penna, com vozes de Altieres Coelho, como Chico Bento, e Sibele Toledo como Zé Lelé. Aos dois autores o Brasil agradece.

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Jornalista e doutor em Literatura.

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TEXTO INÉDITO PARA REVISTA PHILIPEIA – ISSN:2318-3101

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