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SOBRE O FIM DE “LA DÉLICATESSE” E OS AFETOS QUE ECOAM

Paloma Gomide*

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Bons mesmo são aqueles filmes que te deixam insubmersível após terminá-los. Muitas vezes os créditos, e acho que estes tem também essa função, não são suficientes para que deixemos aquelas vibrações que se apropriaram de meu corpo, que parecem atravessar a tela, e se abriguem ao fundo da catarse acumulada a cada filme que vejo. Para levantar e seguir em frente, sento me e escrevo para deixar aqui aquilo que se apropriou de mim tão violentamente.

La Délicatesse (David Foenkinos e Stéphane Foenkinos, 2011) é assim.

“E eu entrei na atormentada alma de Natalie. E então, escolhi um lugar no seu coração e me decidi esconder nele.”

Para quem estava há pouco mais de uma hora imerso na vida de Natalie, ouvir esta frase como últimas palavras do longa, ao mesmo tempo que consola, causa surpresa. É ver através do jardim e dos olhares dos protagonistas um desfecho e um inicio sutilmente belo. Além disso, condensa toda o encanto implícito no filme o tempo todo, a surpresa talvez seja por isso, de tão silencioso emerge como uma redenção e uma felicidade que de tão sublime é quase triste.

Destes sentimentos que se confundem e precisam de seu tempo para amadurecer é que fala La Délicatesse.

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A dor da perda é tão grande para Natalie e das pessoas que as cercam, que, para ela, amar agora parece ser indissociável de comparações e cobranças. O direito de gostar de alguém aparentemente “pior” do que seu marido falecido é um peso injustamente colocado por todos que estão ao seu redor. Menos pela sua avó, que entendeu Markus assim que o viu.

A delicadeza do filme e que Markus concretiza em suas atitudes é a graça da paciência e do tempo . Tanto para as pessoas, quanto para as relações.

O suco de pêssego.

Quando Markus recusa a sobremesa.

Os pensamentos de Markus sobre Natalie: “Folheando uma revista. Talvez comendo uvas? Ou abriu a geladeira. O que está bebendo? Ou se deita na cama? Curiosamente, ela pensa em mim?

“Queria tirar férias no seu cabelo.”

O passeio de Nathalie e Markus após o teatro e a fuga dele por estar apaixonado.

O passeio pelo jardim da avó de Nathalie.

La Délicatesse nada precisa mais do que o tempo. Remédio e veneno juntos.

Algumas atitudes que Markus tem podem parecer infantis, mas são necessárias para o relacionamento dos dois personagens. Ações engraçadas como dizer que está apaixonado por Natalie e imediatamente sair correndo dão uma leveza a uma situação contrária.

Porém, mais do que acompanhar os tempos objetivos e subjetivos do personagem, há também o meu tempo, a minha duração em relação a mim e ao filme que assisto, condição importante para tentar entender a duração dos afetos pós filmes. Henri Bergson explica essa diferença entre tempos que carregamos, que é diferente daquele que passamos e que ele nomeia “duração”:

“(…) não há estado de alma, por mais simples que seja, que não mude a cada instante, pois não há consciência sem memória, não há continuação de um estado sem adição, ao sentimento presente, da lembrança de momentos passados. Nisto consiste a duração.[1]

Já o tempo real se concretiza através do espaço.

Devido a minha distancia física com o filme (espaço), assisto à duração dos personagens que se manifesta nas diversas fases de várias maneiras de amar, cada um com sua característica, e como cada um com sua particularidade se comporta num tempo suprimido de filme com pouco mais de uma hora de duração. O filme tem , ele próprio, também seu tempo subjetivo, sua duração. Pode ser, ele mesmo, então tomado como um personagem, ou se comportar como uma pessoa. Uma espiral de tempos conjuntos que de maneira brusca termina na minha perplexidade paralisada ao fim do último olhar de Nathalie. É o encontrar da minha duração com o tempo real. É a fluidez de nossa vida interior tropeçar no tempo presente. Difícil é resistir.

Notas:

[1] BERGSON, Henri, Duração e Simultaneidade – a propósito da teoria de Einstein. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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* Fotógrafa graduanda em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Contato: palomagomide@gmail.com. Alguns de seus trabalhos disponíveis para visualização: http://palomagomide.tumblr.com/archive.

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TEXTO INÉDITO PARA A REVISTA PHILIPEIA 2318-3101

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