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CINEMA: ANTONIO BARRETO POR ESCRITO

Marcius Cortez*

BarretoNeto

Na foto: Antônio Barreto. “Ele era simples sem ser simplório” – Declaração póstuma de Antônio Sérgio, filho de Antônio Barreto.

O cinema não é somente a única arte onde as folhas das árvores se mexem, é também a arte que a gente pode desfrutá-la em companhia de amigos e mestres. Mestres? Sem dúvida, pois eles nos são indispensáveis. Sem eles, o vício da imagem-movimento não correria como larvas vulcânicas em nossas veias. Para viajar por obras complexas como as de Stanley Kubrick, John Cassavetes, Orson Welle, Godard, Bergman, Chapolin, Luis Bunuel, Antonioni e outros patamares, a interlocução se faz essencial. Antônio Barreto Neto, em João Pessoa, Berilo Wanderley na “Tribuna do Norte” de Natal, Celso Marconi e Fernando Spencer em Recife são, para ficar aqui, em nossa região, alguns desses guias que se converteram em referências para uma nova geração de intelectuais, hoje, em plena atuação na vida cultural do país.

“Cinema por escrito – crítica de filmes em A União”, de Antônio Barreto Neto – período entre 1964 e 1980 – organização de Silvio Osias, chegou em boa hora porque o seu autor, talvez seja o mais completo de todos. Esse paraibano, que se vivo fosse estaria com 72 anos, a exemplo dos demais, brilhou em algo muito específico: a crítica de cinema para jornal. A crítica para jornal um gênero híbrido, uma coalização de ensaísmo como crônica. Há um pensador francês que afirmava que não havia lido muitas obras filosóficas, porém, se orgulhava do seu talento para sintetizar. Esse mesmo intelectual costumava declarar que para ser respeitado, no seu país, o ensaísta precisa ser 30% incompreensível. Clareza e talento para síntese são dois pontos altos nas críticas de Barreto. Percorra as 184 páginas do seu “Cinema por escrito”, e você observará que o conteúdo dos seus artigos embute o que a fina flor da inteligência do ensaísmo cinematográfico seguia discutindo. Leia “A busca de formas de expressões próprias para o cinema do terceiro mundo” e você encontrará o que Sylvie Pierre publicava sobre Glauber Rocha nos “Cahiers du Cinema”: o radicalismo da sua originalidade, a subversão do código linguístico, seu discurso transgressor, seu universo aparentemente caótico, mas extremamente lúcido, sua antinarrativa demolidora e tangencial.

Evidente que a facilidade para a síntese é só uma parte do serviço. Sensibilidade, distinto leitor, sabemos que é bom e que Deus e o Diabo gostam. Determinados ponto anotados no comentário sobre “Laranja Mecânica” coincidem com a linha de argumentação adotada por Martin Scorsese para exprimir a grandeza de Kubrick no seu prefácio ao livro de Michel Ciment a respeito do realizador de um dos filmes mais bem dirigidos da história do cinema:

“O Iluminado”, um tributo a Hitchcock, que seguramente, transcende as limitações intelectuais do mestre do suspense.

Outro aspecto que salta aos olhos no livro de Barreto é que mesmo sendo uma obrigação, o “escrever bem” para ele, revela uma pena movida pela paixão. Suas colocações primam por foco certeiro, a embocadura inteligente na discussão de sutilezas da linguagem do cinema. Aprecio, especialmente, sua tirada quando registra que há artistas que estão além de modismos estilísticos e que os anos podem descer a ladeira porque o seu poderio permanece catártico. Barreto Neto reflete sobre o sentido trágico da vida; sobre a fatalidade ilusória da arte posta a nu por Ingmar Bergman; a impiedosa desmistificação do olhar de San Preckinpah; a sordidez dos “arranjos” do capitalismo a propósito de “Movidos pelo ódio” e “The Arrangemente” de Elia Kazan; a profundidade da consciência social em Visconti – são inspirados seus artigos sobre “Rocco” e sobre “ Deuses malditos”. Mas é quando fala de Frank Capra que a sua sensibilidade sobre de tom. Matreiramente, destrói aquela versão de que Capra produzia um cineminha escapista.

Ignorando maniqueísmos diluidores, ele atribui ao diretor de “Dama por um dia”, um “escapismo de Capra”, pois, como argumenta: “o velho Frank possui o segredo da ternura”.

Há muitas coisas boas no livro. Como não se emocionar por seu entusiasmo por John Ford e Akira Kurosawa ou o riso e o entalo na garganta do lirismo cômico e patético de Charles Chaplin ou ainda o fascínio por Luiz Buñuel, um ateu em transe perante o mistério de “Deus ligadíssimo”? Barreto deteve-se sobre o pós-moderno, inquirindo acerca do fim do cinema no mundo do futuro. Falecido em 2000, ele não acompanhou o avanço da ciência na facilitação da vida. Certamente, Barreto vibraria com o http://worldcinemafoundation.net – uma porção de clássicos restaurados, gratuitamente, na sua casa, ao simples digitar de meia dúzia de teclas. Se piorou por um lado – a quantidade de filmes ruins nunca foi tão grande – melhorou por outro lado. E ei-la aí, a sétima arte, a todo vapor. Temos tido até a sorte de um dia para o outro o vento renovador soprar e naquele país bem longe, desponta uma geração de cineastas que barbariza nas hostes da invenção dos irmãos Lumiére.

“Cinema por Escrito” é uma preciosidade impressa em jornal. “Aqui em João Pessoa, não precisávamos de Moniz Vianna, Ely Azeredo ou Sérgio Augusto. Sim, porque tínhamos Antônio Barreto Neto”, arrematou Sílvio Osías no fim da sua apresentação do livro. Sem dúvida, um luxo para a Paraíba ter Barreto no comando da banda cinematográfica. E lá vai ele, firme, batuta em punho, a citar Glauber: “bem-aventurados os loucos, porque eles herdarão a razão”.

* Escritor

______

Publicado originalmente em A União, 17 de julho de 2010.

Republicado em João Pessoa pela editora Sal da Terra na CINENORDESTE – Revista da Academia Paraibana de Cinema. Ano 1. Número 1. Outubro de 2010.

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