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DO AMOR À SOLIDÃO*

Patativa Moog*

Deixe-me confessar o seguinte: Hoje, após um dia difícil para mim, ajoelhei-me na hora do jantar & rezei & disse de repente de joelhos e olhando para o alto: “Não há ninguém aqui”.

Ludwig Wittgenstein**

Entre 1776 e 1778, período em que escreveu Les rêveries du promeneur solitaire (Os devaneios do caminhante solitário), uma sequência às Confissões – publicada no mesmo ano dos Devaneios, em 1782 –, Jean-Jacques Rousseau já é um homem velho, cansado e angustiado, profundamente amargurado com o desprezo que seus pares lhe dão, e o destino que, segundo ele, relegaram à sua obra. No que escreve, declara ser perseguido, caluniado, agredido verbal e moralmente… parece desolado. O mundo se lhe tornou um lugar inóspito, um palco de tristezas continuadas. Por isso e por muito mais, Rousseau confessa que prefere encontrar-se assim, como está agora: isolado dos homens e de suas coisas, e da sociedade que, um dia, tentou melhorar1, com a publicação do seu Emílio, O contrato social, Carta a d’Alembert sobre os espetáculos, etc. “Eis-me, portanto2, sozinho sobre a terra, sem outro irmão, próximo, amigo ou companhia que a mim mesmo. O mais sociável e o mais afetuoso dos homens dela foi proscrito por um acordo unânime. Buscaram3 nas sutilizas de seus ódios que tormento poderia ser mais cruel para minha alma sensível e romperam com violência todos os laços que me ligavam a eles.4” E mais adiante: “Tudo o que me é externo de agora em diante me é estranho. Não tenho mais neste mundo nem próximo, nem semelhantes, nem irmãos. Estou sobre a terra como num planeta estranho onde tivesse caído daquele que habitava. Se reconheço à minha volta alguma coisa, são apenas objetos aflitivos e dilacerantes para o meu coração, e não posso colocar os olhos sobre o que me toca e rodeia sem encontrar sempre algum desdém que me revolta ou dor que me aflige. […] É neste estado que retomo a continuação do exame severo e sincero que chamei outrora minhas Confissões5. […] Essas folhas podem, portanto, ser consideradas um apêndice a minhas Confissões, mas não uso o mesmo título por não sentir mais nada a dizer que possa merecê-lo.”6

A análise íntima, semelhante àquelas dos Ensaios de Montaigne7, tem uma diferença: “Faço a mesma empresa de Montaigne, mas com um objetivo em tudo oposto ao seu: escrevia seus Ensaios apenas para os outros, enquanto escrevo meus devaneios apenas para mim.8” Portanto: “Se em meus últimos dias, próximo da partida, em continuar, como espero, com o mesmo estado de espírito com que me encontro, sua leitura me lembrará da doçura que experimento ao escrevê-los e, fazendo assim renascer o tempo passado, duplicará de certo modo minha existência. Apesar dos homens, saberei apreciar ainda o encanto da sociedade e viverei decrépito ao lado de mim mesmo em outra idade como viveria com um amigo menos velho.”9

À força do tempo, Rousseau descobre que, no mundo, está sozinho – e nunca foi tanto ele mesmo, antes de enxergar-se assim, no fundo do poço, nos abismos de si-mesmo10 –; descobre que o reconhecimento e a glória, uma vez adquiridos, não são seguros e nem garantem nada contra a roda da fortuna, que sempre gira. O Eu, com tudo o que lhe é próprio, é o que nunca se perde – e o seu amor: amour-propre, na boa ou má intenção –, mesmo quando tentamos sufocá-lo no ideal romântico de uma “bondade humana”, reflexo daquela outra, divina. A indiferença (indifférence) é um princípio – não anotado por Rousseau, ao menos no sentido que será dado por Laplace, em 181411 – carente de definição12, porque a ação, qualquer que seja ela, é a regra mais comum da norma: há o homem e a sua natureza intrínseca. Um dos precursores do Romantismo, Rousseau acreditava que a natureza do homem é essencialmente boa, mas estragada pela sociedade. Para ajustá-la, sob a justiça da lei (ou do Estado de Direito), ele redige O contrato social13. Para a educação do indivíduo, o modelo e as regras estão no Emílio14. Muito mais haveria que ser feito, por amor aos homens e à sociedade, “e foi” – Rousseau deve ter pensado, voltando de um passeio entre Ménilmontant e Charonne, numa quinta-feira, 24 de outubro de 177615. Mas, o que se fez de tudo o que foi feito? Ele rememora: “Há alguns dias a vindima havia terminado; os visitantes da cidade se haviam retirado; os camponeses também abandonavam os campos, até os trabalhos de inverno. A planície, ainda verde e agradável, mas em parte desfolhada e quase deserta, apresentava por toda parte a imagem da solidão e da aproximação do inverno. Resultava de seu aspecto uma mistura de impressões doces e tristes, análogas demais a meu destino para que não as aplicasse a mim. Via a mim mesmo no declínio de uma vida inocente e desafortunada, a alma ainda repleta de sentimentos vivazes e o espírito ainda ornado de algumas flores, murchas pela tristeza e ressequidas pelos desgostos. Sozinho e abandonado, sentia chegar o frio das primeiras geadas, e minha imaginação esgotada não mais povoava minha solidão com seres criados por meu coração. Dizia a mim mesmo, suspirando: o que fiz neste mundo?”16

É o que ele tenta responder, no melhor do que poderia ser o seu espírito estoico – se tivesse um, e se fosse possível. No início da Nona Caminhada17, o relato é desolador: a ataraxía é uma coisa distante, a eudaimonía18, impossível; o amor, uma estação da alma… Nada é permanente, exceto a mudança, que caminha para o nada, conduzindo todos os seres pela mão. Rousseau é enfático, contundente, conclusivo: “A felicidade é um estado permanente que não parece feita para o homem neste mundo. Tudo na terra está em um fluxo contínuo que não permite a nada assumir uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós mesmos mudamos, e ninguém pode garantir que amará amanhã aquilo que ama hoje. Assim, todos os nossos projetos de felicidade nessa vida são ilusões. Aproveitemos o contentamento do espírito quando ele ocorre; evitemos afastá-lo por erro nosso, mas não façamos projetos para acorrenta-lo, pois tais projetos são puras tolices.”19

É Belchior, coberto de razão: “A felicidade é uma arma quente”, ele diz.20

Contentamentos, estações… coisas fluidas. Um disparo. Um estouro. Som, fúria e… silêncio. A calmaria depois da tempestade. O que fica depois do gozo – post coitum omne animal triste. Como em uma sucessão de dias perfeitos21, não há quem suporte as perfeições de um amor… perfeito, caso houvesse algum.

Na felicidade e no amor, estamos como que suspensos sobre um hiato temporal, posto entre a expectativa – se acaso ainda temos uma – e a sua realização, que é também a sua fatalidade. E vamos vivendo assim, entre outonos e primaveras, entre invernos e verões, entre o nada (de não ter nascido) e o esquecimento (de, uma vez nascido, fatalmente ter que morrer), que é a única conclusão para o ser – no sentido de “consciência individual”. Fora isso, não há conclusões – “A única conclusão é morrer”, dizia Álvaro de Campos22 –, como os Devaneios de um Rousseau que sempre morre antes. Sim, a única conclusão é morrer. Mas, ainda é cedo, e amar é inevitável, e querer ser feliz… no amor e em outros delírios cotidianos. E todo mundo está assim: só, sozinho, até o fim.

1 Embora tenha tido cinco filhos com a Sra. (Louise) de Warens, sua amante de Paris, e os tenha colocado, todos, no Enfants-Trouvés, um orfanato.

2 “Os Devaneios, de Rousseau, escritos nos dois últimos anos de sua vida e deixados inacabados, são considerados por ele a conclusão da sua obra e de sua vida, daí a utilização da palavra ‘portanto’, que anuncia uma conclusão.” (SIMÕES, Julia Rosa. Nota [1]. In: ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 7. [Col. L&PM Pocket, 743]).

3 “Alusão constante no texto, esse sujeito oculto diz respeito ao complô que Rousseau acreditava existir contra a sua pessoa.” (SIMÕES, 2010, p. 7. Nota 2).

4 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 7. (Col. L&PM Pocket, 743).

5 Escrito entre 1764-1770, e publicada postumamente, Les Confessions é obra de um Rousseau já maduro, que resolve “revelar, num livro, a sua vida íntima. […] Ele narra detalhadamente toda a sua trajetória, tanto a do homem como a do pensador. À luz da experiência concedida pelo tempo, Rousseau repassa toda a sua vida, mesmo os episódios mais vergonhosos ou controversos, e comenta sua formação intelectual e as relações que manteve, oferecendo ao leitor a oportunidade de conhecer o contexto em que surgiram muitas de suas teorias. Dividida em duas partes, a obra apresenta – além do caráter pioneiro, uma das primeiras do gênero – um estilo bastante particular: não se limitando a um registro cronológico, Rousseau conta sua história enquanto tece reflexões sobre as experiências vividas. Assim, As confissões ganham um matiz quase romanesco, reunindo uma linguagem poética e rebuscada e um caráter documental de testemunho autobiográfico.” (Da apresentação editorial à edição da Martin Claret. Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. As confissões. São Paulo: Martin Claret, 2011. [Orelha]).

6 ROUSSEAU, 2010, p. 12-3.

7 Cf. MONTAIGNE. Ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 2 v. (Col. Os Pensadores).

8 ROUSSEAU, 2010, p. 14. No início das Confissões, porém, ele havia dito: “Já que por fim o meu nome deve viver, eu devo me preocupar em transmitir com ele a lembrança do homem desafortunado que o carregou consigo, tal como esse homem foi realmente e não como os inimigos injustos trabalharam sem descanso a descrevê-lo.” (ROUSSEAU, Jean-Jacques. Les Confessions. In: Oeuvres completes. Paris: Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade, 1959. p. 23. v. 1. [Itálicos meus]). Há, na Internet, uma excelente versão em HTML do texto das Confissões, na edição H. Launette & Cie (Paris, 1889), com ilustrações de Maurice Leloir. Cf. Les Confessions (HTML, ilustrado, com documentos, em francês. Disponível em: <http://athena.unige.ch/athena/rousseau/confessions/rousseau_confessions.html>. Acesso em 14 mar. 2013). Se o intento, nos Devaneios, é honesto ou não, isso não me compete dizer, aqui; e nem é minha intenção tecer algum juízo, ao menos nessa questão.

9 Redigidos nos dois últimos anos de sua vida (1777-78), os Devaneios ficam incompletos. É provável que o ataque sofrido pelo cão dinamarquês tenha agravado o seu estado físico, debilitando-o e apresando a sua morte em Ermenonville, na França, depois de um mal-estar, às 11:00 do dia 2 de julho de 1778. Eis o relato do acidente, por ele mesmo: “Às seis horas, estava descendo de Ménilmontant, quase em frente ao Galant Jardinier, quando, de repente, as pessoas que caminhavam à minha frente se afastaram e vi se lançar sobre mim um grande cão dinamarquês que, avançando veloz na frente de uma carruagem, não teve tempo de parar sua corrida ou desviar ao me ver. Calculei que a única maneira de evitar ser atirado ao chão era dar um grande salto, tão preciso que o cão passasse por baixo de mim enquanto estivesse no ar. Essa ideia, mais breve que o relâmpago, que não tive tempo nem de considerar nem de executar, foi a última antes do acidente. Não senti nem o golpe nem a queda, nem nada do que se seguiu até o momento em que voltei a mim. Era quase noite quando recuperei os sentidos. Estava nos braços de três ou quatro jovens que me contaram o que acabara de acontecer. O cão dinamarquês, não conseguindo frear seu impulso, precipitara-se sobre as minhas duas pernas e, atingindo-me com sua massa e sua velocidade, me fizera cair de cabeça: o maxilar superior, ao suportar o peso de meu corpo, batera numa pedra do pavimento bastante irregular, e a queda fora ainda mais violenta porque, estando numa ladeira, minha cabeça batera abaixo de meus pés. A carruagem a que o cão pertencia vinha logo atrás e teria passado sobre meu corpo se o cocheiro não tivesse de pronto parado os cavalos. Foi isso que fiquei sabendo pelo relato daqueles que me haviam levantado e que ainda me seguravam quando voltei a mim.” (ROUSSEAU, 2010, p. 19-20).

10 “Tudo terminou para mim sobre a terra. Não podem mais me fazer nem bem nem mal. Não me resta mais nada a esperar nem a temer neste mundo, e aqui estou tranquilo no fundo do abismo, pobre mortal desventurado, mas impassível como o próprio Deus.” (ROUSSEAU, 2010, p. 12). Nas palavras de Comte-Sponville: “Ser só é ser si mesmo, sem recurso, e é a verdade da existência humana. Como poderíamos ser outro? Como alguém poderia nos descarregar desse peso de ser si mesmo? ‘O homem nasce só, vive só, morre só’, dizia Buda. Isso não quer dizer que a gente nasce, vive e morre no isolamento!” (COMTE-SPONVILLE, 2006, p. 29).

11 Pierre Simon de Laplece (1749-1827), em seu Essai philosophique sur les probabilités (Ensaio filosófico sobre as probabilidades), de 1814.

12 E contrário à verdade geral, por sua individualidade e indiferença: “A verdade geral e abstrata é o mais precioso de todos os bens. Sem ela, o homem é cego; ela é o olho da razão. É através dela que o homem aprende a se portar, a ser o que deve ser, a fazer o que deve fazer, a rumar para o seu verdadeiro fim. A verdade particular e individual nem sempre é um bem, às vezes é um mal, muitas vezes uma coisa indiferente.” (ROUSSEAU, 2010, p. 46). E: “Os indivíduos morrem, mas os organismos coletivos não morrem jamais.” (ROUSSEAU, 2010, p. 11).

13 Assim: “Quero indagar se pode existir, na ordem civil, alguma regra de administração legítima, tomando os homens como são e as leis como podem ser. Esforçar-me-ei sempre, nessa procura, para unir o que o direito permite ao que o interesse prescreve, a fim de que não fiquem separadas a justiça e a utilidade.” (ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social ou Princípios do Direito Político. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 51 [Livro 1]. v. 1. [Col. Os Pensadores]). A noção de justiça e utilidade, aqui, ainda fazem eco inequívoco ao platonismo cristão do uti e frui, na moral agostiniana. “Fruir é aderir a alguma coisa por amor a ela própria. E usar é orientar o objeto de que se faz uso para obter o objeto ao qual se ama, caso tal objeto mereça ser amado.” (De doc. christ., I, 4; AGOSTINHO, Santo. A doutrina cristã: manual de exegese e formação cristã. São Paulo: Paulus, 2002. [Col. Patrística, 17]). É o Romantismo, herdeiro do platonismo, guiado pela doctrina christiana, vivíssima.

14 Tanto o Du contrat social ou Principes du droit politique como o Émile, ou De l’éducation, foram redigidos entre 1759-60, e publicados em 1762. “O Emílio é um ensaio pedagógico sob forma de romance e nele Rousseau procura traçar em linhas gerais que deveriam ser seguidas com o objetivo de fazer da criança um adulto bom. Mais exatamente, trata dos princípios para evitar que a criança se torne má, já que o pressuposto básico do autor é a crença na bondade natural do homem. Outro pressuposto de seu pensamento consiste em atribuir à civilização a responsabilidade pela origem do mal.” (CHAUÍ, Marilena de Souza. Vida e obra. In: ROUSSEAU, 1996, p. 16).

15 A data e a localização são dadas por ele mesmo, em: ROUSSEAU, 2010, p. 17. “Ménilmontant e Charonne foram, até 1860, quando de sua anexação a Paris, cidades nos subúrbios da capital francesa – hoje bairros pertencentes ao 20º arrondissement.” (SIMÕES, 2010, p. 7 [Nota 5]).

16 ROUSSEAU, 1996, p. 18.

17 A Décima Caminhada, última parte do livro, ficou incompleta.

18 Ataraxía (imperturbabilidade) e eudaimonía (felicidade) são termos ligados às escolas dos estoicos e epicureus. Trato sobre eles no artigo que fiz para a carta de Epicuro a Meneceu. Ver: SALES, Antonio Patativa de. O tema da ΕΥΔΑΙΜΟΝΙΑ na carta de Epicuro a Meneceu. In: Ágora filosófica: pensamento Antigo-tardio e Medieval. Recife, ano 4, n. 2, p. 21-32, 2004.

19 ROUSSEAU, 2010, p. 116.

20 BELCHIOR. Comentário a respeito de John. In: _____. Apenas um rapaz latino-americano. Rio de Janeiro: Continental/EastWest / Warner Music Brasil Ltada. [s.d.]. CD. Faixa 7.

21 Penso em Freud, citando Goethe: “Nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos.” (FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997. p. 24).

22 “Não: não quero nada. / Já disse que não quero nada. / Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer.” (CAMPOS, Álvaro de. (Fernando Pessoa). Lisbon revisited. In: PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio: 1914-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 165).

Fotografia: Highway, por Carlos Estrada.

Doutor em Teologia (PUC-RS) e doutorando em filosofia pela UFPB.

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TEXTO INÉDITO PARA REVISTAPHILIPEIA ISSN: 2318-3101

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