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RICHARD PRINCE E O INSTAGRAM:

OU SOBRE QUANDO A ARTE VAI LONGE DEMAIS

Ana Monique Moura*

richard-prince

Richard Prince

I

Recentemente, o artista visual Richard Prince selecionou algumas fotos retiradas do Instagram de terceiros, sem pedir-lhes permissão. Montou uma exposição em Nova York e arrecadou quase 100 mil dólares com as obras. O frisson causado na mídia era de se esperar, obviamente. Mas indagaríamos se pelo fato de ter sido uma exposição com fotos retiradas do Instagram ou por ter, meramente comisso, lucrado tanto. Acredito que pelos dois motivos.

Mas existe aí algo muito mais interino do que o questionamento ou indignação. Refiro-me ao tema do valor. Antes de ser um fenômeno de cunho estético-social, é um tema de economia política. E esta indignação da qual falo parece estar posta num entendimento coletivo do que significa valor.

Isto implica dizer que a maioria infinita tende a interpretar o valor como equivalência necessária à quantidade de trabalho posta num determinado objeto. Esta imputação de valor dá o sentido das relações mercadológicas e se constituem, portanto, como valores de troca.

Marx, sobremaneira no primeiro capítulo do livro O Capital encabeça a crítica ao capitalismo a partir do mote de que esse valor, embora devesse expressar a equivalência exigida pelo trabalho, não o faz.

O valor de troca exige, no capitalismo, ao contrário, a não equivalência ao trabalho, para produzir o lucro e a mais-valia, nome dado ao acúmulo do capital a partir do lucro (lucro que não é destinado à força de trabalho, mas à manutenção de sua desqualificação no sistema mercadológico). O valor, por fim, desvaloriza a força de trabalho.

Não quero falar sobre todo e qualquer trabalho. Centremos mais esse tema no campo da arte, que é o que nos interessa. Então voltemos ao ponto do início.

No geral, o senso comum parece exigir, na arte, que o artista seja o próprio operário de sua obra. Esta é a exigência comum primordial. E daí retiram a outra exigência, se o artista é trabalhador, assim deve também receber pelo o que fez da/à obra o seu valor equivalente.

Outra parte do senso comum desconsidera a exigência de que o artista seja um trabalhador. E o desqualifica exatamente por isso, jugando desnecessário, portanto, que a obra de arte entre no mercado ou qualquer calor já que não há o trabalho.

II

Os que julgam o artista como não trabalhadores ou, ainda, mais forte, a arte como elemento sem valor, como os que exigem que o artista trabalhe enquanto “manufaturador” correspondem a uma maioria negadora da are contemporânea.

Como aceitar, então e enfim, esta exposição como arte?! Isto só é possível a partir de uma retomada ressignificativa do significado de “trabalho” para ambos as posturas (apenas duas das mais variadas possíveis outras posturas).

Esta ressignificação tenta resolver simultaneamente as duas “discrepantes, mas nem tanto” posições.

Tem-se a ideia geral de que trabalho é aquele que faz um trabalho braçal, mesmo que seja uma atividade intelectual, a matéria corpo, em atividade, deve estar presente na dianteira. Contudo, este trabalhador exigido na arte não deve, ainda mais, configurar-se como trabalhador da fábrica, no sentido que o trabalho da arte deve trabalhar algo original e não, como o trabalhador fabril, na reprodução.

Pois bem. É bom frisar que a ideia de “autor genuíno da obra de arte” está há muito tempo carcomida. Até mesmo com Kant, que foi o arauto da defesa da obra de arte autêntica do gênio artístico, a ideia que a arte é única cai por terra. Nietzsche declarou que Deus está morto. Barthes declarou que o autor está morto. E o que poderíamos, nessa esteira um tanto lúdica de declarar mortes, pensar do artista enquanto gênio unívoco da obra em pleno cenário contemporâneo?

E isto, ninguém comenta, foi anunciado por Kant. A autenticidade da obra de arte não reside na obra em si, mas na ideia estética imputada à obra. Ela pertence à nuvem ideária que permeia a obra. A ideia de um artista que cria uma obra imanentemente genuína não existe aqui. O que faz do artista um artista são suas ideias estéticas, apenas. Daí a frase “apenas o pintor das ideias é o mestre”.

Neste sentido, o trabalho do artista está na ideia, esteja ela extensionada em pequeno ou grande atividade física, isso não importa. Portanto, uma La Gioconda não é mais arte que uma obra de John Baldessari porque aquela teve mais tempo para ser “fisicamente” elaborada. Tampouco eu queria dizer com isso que Baldessari, por investir fortemente na reflexão estética, seja mais arte.

O Instagram tem todas as ferramentas automáticas de edição e definição exuberantes de imagens. Coisas que demandavam muito esforço do artista, hoje qualquer um, que não tenha o mínimo interesse por arte, mas que queira apenas se divulgar, pode fazer. Vivemos também os efeitos da era da “Estética da recepção“, muito bem pensada pelos amigos “Jauss” (1) no âmbito da literatura, e que se estende claramente para toda arte. O receptor faz a obra. Isto significa, a ideia estética ganha cada vez mais evidência frente à obra. Desta vez, com uma atividade maior do receptor da obra, já que a estética é, como sabemos, desde a Antiguidade grega, o ato de perceber, de afetar-se.

III

É necessário retirar a compreensão massificada da arte para finalmente entender os caminhos escolhidos pela arte contemporânea. Vejam o tanto de coisa que agora está à nossa frente e que, para além da indignação cega, deve nos fazer pensar, ainda que com os erros inevitáveis que todo pensamento deve trazer.

Não quero levantar lobby para Richard Prince, mas trazer à tona uma discussão. Nada mais, nem menos. Talvez Richard Prince tenha ido longe demais e, claro, não tão autêntico assim na obra, mas talvez na ideia estética que colocou ali.

Quando se investe na indignação como espécie de “resistência crítica” em relação a esta exposição, talvez se corra o risco de cair no erro de uma compreensão grosseira do significado de “trabalho artístico”, ao passo que, como bônus paradoxal, revela-se como exigência comum o significado de valor de troca como um valor equivalente ao trabalho. Quanto aos valores altíssimos das obras de Richard Prince, isso fica para uma conversa com os Marchands.

IV

Prince - Galery

© Richard Prince. Courtesy Gagosian Gallery. Photography by Robert McKeever

Mais que uma “estetização do cotidiano”, acredito que a ideia de Richard Prince vem a deixar-nos a possibilidade de repensar nossa realidade tangível; uma espécie de acordar do entorpecimento com o que nos rodeia. E acredito que forneça muito mais o que pensar em termos de estética do que ficar horas na fila do Louvre – para postar depois as fotos no seu Instagram.

A indignação frente à exposição de Richard Prince não veio primordialmente dos interessados em arte, ou que tentam pensar esteticamente, mas dos que se mantém estranhos à arte contemporânea, ou ao próprio conceito de “ideia estética”, inclusive a grande propaganda. Não interessa aqui se a exposição foi esteticamente triunfal, aprovável ou não, só gostaria de expor o perigo de se julgar, por meio da resistência condicionada, logo de início essas manifestações da cenário contemporâneo.

A gosto ou contragosto, ao se ao levar as fotos do Instagram para uma galeria, se  põe também, não apenas a possível pergunta irônica, na panaceia da compreensão comum do sentido de valor e trabalho: “Depois do Instagram, qual é então meu papel de artista?”.  Há também outra questão, mais filosófica, de se aquelas vivências fotografadas são reais ou irreais a partir do que se toma por real ou real. Por isso a ousadia de usá-las. Não há “ninguém” ali, nenhum detentor de obra, nenhum abuso da realidade alheia provocado por Richard Prince, já que nada ali é real. Há apenas o espírito do “virtual fake”! O virtual se realiza aí como antônimo do nosso real – contra a tese de que seja sinônimo por Pierre Lévy. Feliz ou infelizmente, como a arte sempre há de ir longe demais – e esse é seu papel, mesmo quando se vai contra si própria – pensar o irreal, assim mesmo, da maneira talvez mais simplória, embora ironicamente política, tanto como “parece ser” a exposição de Richard Prince, seria uma saída interpretativa por outro lado interessante, para não voltarmos, uma e outra vez, aos mesmos discursos comparativos de “estetização do cotidiano” encabeçados por Duchamp e o mictório ou Warhol, com o Bombril que pode estar na sua casa.

1. Referência a Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser Jauss, expoentes da Estética da recepção à crítica literária alemã.

 * Doutoranda em Filosofia (UFPB).

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TEXTO INÉDITO PARA REVISTA PHILIPEIA     ISSN: 2318-3101

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