Home

OS PÁSSAROS

Jurandy Moura*

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Primeiro foram dias de muito sol. Por esses dias um menino fugido da aula foi encontra-se com os colegas no outro lado da cidade, lá onde ficavam os serrotes, bom lugar para brincar de mocinho. Muito estranho lhe pareceu não encontrar ninguém. Pelo que se viu depois, num caderno de exercícios escolares, foi esse menino a primeira pessoa a afirmar que alguma coisa nova estava acontecendo.

Depois vieram as chuvas. Foram então dias de uma chuvinha miúda, insistente, dessas que a literatura de ficção, ou pelo menos determinados autores, afirmam que molhava a roupa e a alma das pessoas.

Caia a chuva, mas os hábitos da população eram os mesmos, porque, inclusive, o calor permanecia, com se a terra permanecesse encharcada do sol que por tanto tempo iluminou com insistência a cidade, Agora, a chuva insistia.

Como as pessoas permaneciam presas à mesma vida de sempre, ninguém soube precisar o dia em que a chuva deixou de cair fina e fez-se forte, quase um temporal, embora com poucas horas – teriam sido minutos? – de duração.

E já não era sol nem chuva, mas apenas um tempo comum, daí porque se tornou difícil uma definição. Havia quem afirmasse que tudo era influência do sol, e alguma teorias chegaram a se tornar populares dificultando, inclusive, que fosse determinado o autor. Para muitos tudo não passava de um sentimento transitório revelado às pessoas pela chuva. Os defensores dessa opinião chegaram a publicar e fazer distribuir folhetos em que mostravam a influência da água sobre a sensibilidade das pessoas, principalmente através do tato.

O que não se podia negar era uma visível mutação nos habitantes da cidade,  a começar pelo modo como uma pessoa cumprimentava a outra. Houve, até, sensível diminuição do consumo de bebidas alcoólicas. Mas tudo isso só depois foi esclarecido. Se tanto. A princípio as pessoas se olhavam, e conversando diziam que algo estava acontecendo, mas como se fosse uma coisa distante delas que ela apenas constatasse. Até que passaram a sentir-se envolvidas no processo. Realmente, alguma coisa estava acontecendo.

Surpreendentemente foi aquele dia. Quando a cidade acordou, os primeiros meninos a saírem de casa logo voltavam correndo e chamando as mães para verem as plantas que nasciam em frente às casas. Eram uns talo de uma espécie desconhecida, que o farmacêutico da cidade, homem de muitos e louvados conhecimentos, procurou em vão admitir no meio de qualquer família.

Passaram os dias e a cada novo dia um vigor novo dava vida às plantas, que cresciam de modo muito natural para os habitantes da cidadezinha. E foram crescendo as plantas, fizeram-se àrvores, e multiplicaram-se.Quando a expedição científica chegou no local constatou que tinham as árvores quatro séculos e meio de existência, e deveriam ter sido transportadas para aquele lugar por um bando de pássaros migratórios. Mas desses pássaros nunca ninguém teve notícia. Embora se suponha que foi isso que o menino viu naquele dia quando fugiu da aula.

* Jornalista, poeta, crítico cinematográfico, cineasta. Nasceu em Taperoá (Paraíba) em 1940 e nos deixou em 1980, em João Pessoa (Paraíba). Publicou “Pequeno ensaio sobre o Cinema Novo” (1972) e o livro de poemas “A vida simples” (1964).

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s